Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Vão-se os Sonhos, Ficam os Anéis - Eduardo Graeff


Artigo da Folha de hoje de Eduardo Graeff.


Vão-se os sonhos, ficam os anéis


"BURGUESIA burocrática" era como o historiador Caio Prado Jr. chamava o empresariado caudatário dos favores do Estado varguista. Fernando Henrique Cardoso falou em "anéis burocráticos" para se referir às relações especiais das grandes empresas com a área econômica do governo no tempo da ditadura. Delfim Netto foi senhor desses anéis, agenciando negócios e distribuindo proteção tarifária e subsídios como todo-poderoso ministro da Fazenda do general Médici. Os americanos chamam "crony capitalism" a alavancagem de negócios por relações pessoais e/ou troca de favores entre empresários e altos funcionários públicos. Eles depreciam nesses termos quase todas as variedades de capitalismo que não vestem o figurino liberal, do Japão à América Latina, passando pelos tigres asiáticos e pela África. Não que os Estados Unidos estejam livres da praga. Veja as ligações empresariais do clã dos Bush, para ficar num exemplo atual. Tudo isso me vem à cabeça a propósito de duas notícias recentes: reportagem da revista "Piauí" sobre as andanças de consultor internacional do ex-ministro José Dirceu; e a compra da Brasil Telecom pela Telemar, acertada na expectativa de que um decreto de Lula virá legalizar a transação. Foi Dirceu quem ligou uma coisa à outra. Ele mencionou para a revista uma conversa que teria tido com Lula sobre os milhões investidos pela Telemar na firma de videogames do filho do presidente. E citou entre seus clientes o empresário mexicano Carlos Slim, cuja Telmex teria sido preterida na compra da Brasil Telecom. Lula teria mandado Dirceu não "encher o saco" com o tema da sorte grande de Lulinha. Na certa se irritará de novo se for questionado agora. Chateação indelegável, já que precisam da assinatura dele no decreto que beneficia quem beneficiou seu filho. Chato mesmo é intuir que isso pode não ser a exceção, mas uma nova regra nas relações do governo com grandes empresas. Veja o que acontece no setor elétrico. Questionado sobre sua trajetória de revolucionário a consultor de empresas, Dirceu se queixou de que não teve escolha após perder o mandato de deputado e os direitos políticos. Quem sabe ele está esperando a chuva passar, como na encarnação de negociante que teve no interior do Paraná. Quando o sol da revolução voltar a brilhar no horizonte, ele pega um avião para Havana ou Recife e pede para o cirurgião: "Desfaz essa cara de consultor e implanta aí uma barba". Bizarro, mas improvável. Encarem a realidade, companheiros e companheiras: com todo o entusiasmo que proclamam pela Revolução Cubana, hoje o negócio de Lula e Dirceu é outro. Em 2002, quando contrataram os serviços de Marcos Valério e Duda Mendonça, fizeram uma opção séria. Seu mergulho no mundo dos negócios não é camuflagem passageira, é para toda a vida. Só que o mundo dos negócios que eles têm na cabeça não é bem o capitalismo liberal. Não sei como eles mesmos chamariam. "Capitalismo dos bons companheiros"? O sistema emergente pode não ter nome, mas tem justificativa e modelo: Coréia do Sul. Lá, o governo se lixa para a ortodoxia liberal. Intervém no mercado, banca vencedores, subsidia perdedores. A corrupção é grande, dizem. Mas o capitalismo coreano é um sucesso de crescimento e inovação. Esprema algum alto funcionário do governo Lula metido em altas transações e ele pode sair com a mesma história de Dirceu na "Piauí": facilitar negócios, abrir portas para investidores, é tudo pelo bem do Brasil. No caso da telefonia, para criar megaempresa nacional que faça frente às estrangeiras. Qualquer outro bônus é secundário perto da satisfação patriótica. Não tenho fé no capitalismo liberal. Nem sei bem por que o capitalismo não liberal é um sucesso na Coréia, um horror na África e, no Brasil de Delfim Netto, foi do sucesso à crise em dez anos. Duas coisas eu sei. Primeiro, a concorrência faz bem ao capitalismo, sobretudo ao consumidor. O sucesso da Coréia tem a ver, parece, com a capacidade que governo e grandes empresas tiveram de se organizarem para concorrer no exterior. Lula poderia assinar decreto para ajudar a Telemar a se expandir... no México, por exemplo. E não detonar as regras de concorrência da telefonia brasileira -herança bendita do governo FHC. Segundo, capitalismo não liberal não combina com democracia. Pois não se fia na estabilidade e impessoalidade das regras, mas em favorecimentos pessoais. E é muito arriscado fazer investimentos de longo prazo nessa base se pessoas e partidos no governo mudam a cada quatro ou oito anos. A não ser, talvez, se os negócios alavancados gerarem dinheiro para cooptar aliados, amaciar a imprensa, comprar eleições etc. Mas aí não estamos falando de democracia, não é? Não, pelo menos, da democracia pela qual lutamos. Será que esse foi outro sonho do qual os novos senhores dos anéis abriram mão?
EDUARDO GRAEFF, 58, é cientista político. Foi secretário-geral da Presidência da República no governo FHC.
*foto de Cecil Beaton publicada na revista Vogue em 1937.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Lula "o Venezuelano" - Augusto de Franco


Transcrevo abaixo polêmico artigo publicado na Folha de Augusto de Franco.


Lula o "venezuelano".


SE NOSSO IDH fosse mais próximo de 0,9 (em vez de 0,8), Lula jamais governaria o Brasil. Quem garante seus votos e liderança é a pobreza. É por isso que Lula não ganha eleição para prefeito de São Bernardo. É por isso que não ganha para governador de São Paulo nem de qualquer Estado do Sul (talvez com exceção do Paraná, que só é governado pelo chavista Requião por concentrar a maior pobreza da região). São os bolsões de pobreza que garantem a eleição de populistas. Lula quer acabar com a pobreza? Não, o que quer é mantê-la, transformando as populações pobres em beneficiárias passivas e permanentes dos programas assistenciais. Ele gosta, sim, do povo, mas como massa informe de pré-cidadãos Estado-dependentes. Façam uma análise dos levantamentos existentes, resultantes da aplicação de vários indicadores de desenvolvimento. A votação de Lula aumenta nos lugares em que esses indicadores (inclusive o IDH) diminuem. Isso não pode ser por acaso, pode? Só acontece porque Lula é um "venezuelano". Em Caracas, nosso presidente viveria feliz como pinto no lixo. O PIB da Venezuela vem crescendo a taxas próximas de 10% nos últimos anos. Apesar disso, a Venezuela tem muitos pobres. Seu IDH é 0,784 (72º lugar no ranking mundial). Com o dinheiro do petróleo, Lula poderia fazer um super "bolsa-esmola" para economista-áulico nenhum botar defeito. A noção de democracia de Lula casa perfeitamente com o regime político venezuelano. Lá, não vigora mais essa besteira de rotatividade (ou alternância) democrática. Autorizado, como Chávez, por uma "lei habilitante" (muito melhor do que medida provisória), Lula poderia criar, numa penada, não uma, mas meia dúzia de TVs governamentais. Poderia tirar a Globo do ar e empastelar a revista "Veja". E, sobretudo, poderia continuar no poder indefinidamente, convocando plebiscitos e referendos para dizer que não está fazendo nada mais do que obedecer à vontade da maioria. Lula, o "venezuelano", acha que democracia é o regime da maioria (e não o das múltiplas minorias). Não sou eu que estou dizendo. No dia 20/4/2005, Lula discursou em um congresso de trabalhadores: "É importante saber o que nós éramos há três anos e o que nós somos agora... O que aconteceu no Brasil... o que aconteceu no Equador, o que aconteceu na Venezuela, que foi já um pouco mais para frente (sic), e o que pode acontecer na evolução política de outros países do continente...". No dia 29/9/2005, em outro discurso, este no Palácio do Planalto, disparou: "Eu não sei se a América Latina teve um presidente com as experiências democráticas colocadas em prática na Venezuela. Um presidente que ganha as eleições, faz uma Constituição e propõe um referendo para ele mesmo; faz um referendo e ganha as eleições outra vez. Ninguém pode acusar aquele país de não ter democracia. Poder-se-ia até dizer que tem excesso". No dia 7/6/2007, numa entrevista a esta Folha, na embaixada do Brasil em Berlim, Lula disse: "O fato de ele (Chávez) não renovar a concessão (da RCTV) é tão democrático quanto dar. Não sei por que a diferença entre dois atos democráticos". E no dia 14/11/2007, em outra entrevista, no Itamaraty, ele reafirmou: "Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa. Inventem uma coisa para criticar. Agora, por falta de democracia na Venezuela, não é". Seria preciso dizer mais? Muita atenção, porém: Lula é um "venezuelano" que quer, mas não pode se comportar como Chávez. Se tentasse "chavecar" por aqui, o problema estaria resolvido. Nossa sociedade, bem mais complexa, rejeitaria de pronto o tiranete. Lula é o Chávez possível nas condições do Brasil. Dizendo de outro modo, o Brasil não é uma ditadura -nem mesmo uma protoditadura (como a Venezuela)-, mas uma democracia formal parasitada por um regime neopopulista manipulador, em que um grupo privado que ascendeu ao poder pelo voto, com base na alta popularidade de seu líder, tenta permanecer no poder sem violar abertamente a legalidade democrática, mas pervertendo a política e degenerando as instituições para manipular a opinião pública e as leis a seu favor. Não ter entendido a natureza desse governo e o caráter do seu líder foi a desgraça das nossas oposições. Até Fernando Henrique, o mais lúcido dos oposicionistas partidários, alimentou a estranha crença de que "o conteúdo simbólico da sua liderança (de Lula) é um patrimônio do país que não deve ser destruído". Pois é. Não destruíram mesmo. Preservaram, blindando Lula, infelizmente, contra a democracia.