Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Four More Years" Para a Direita Alemã


O culto e educado povo alemão concedeu à direitista Angela Merkel mais quatro anos de governo.


Está Provado que Só é Possível Filosofar em Alemão

Se existe algum país verdadeiramente culto neste mundo é a Alemanha. Não está errado Caetano quando diz, na música "lingua", Está provado que só é possível filosofar em alemão. Pois, então.

Construiu-se no Brasil a "falsa noção" de que ser de direita significa ser fascista, ser nazista, ser totalitário, ser contra o aborto, ser a favor da pena de morte e defensor da família, de Deus e da propriedade. Essa falsa noção foi impulsionada, no nosso país, sobretudo na época do regime dos governos militares -- que foram sim de direita, ou de extrema direita.



Ser de direita, hoje, não é bem isso. O professor José Hildebrando Dacanal, um direitista assumido, no programa da Conversas Cruzadas da TV Com (Tv comunitária da RBS no RS) esta semana definiu bem o que é ser de direita hoje no Brasil: é ser, por exemplo, a favor que os alunos com dinheiro paguem as universidades públicas, que os aposentados paguem uma contribuição para suas aposentadorias, que o ensino seja bom e universal para todos os brasileiros.

Também se construiu aqui outra falsa noção: de que as pessoas cultas, educadas, evoluidas têm a tendência de votar na esquerda. Outro pensamento equivocado é que também foi gerado pela época da ditadura militar, pois os votos que alimentavam as urnas dos governos militares vinham das partes mais pobres do país, dos grotões nordestinos, dominado pelos coronéis e dos lugares socialmente mais atrasados. A população urbana, naquela época, votava no MDB, contra o governo que era da ARENA. Hoje, as populações oriundas dos grotões do Brasil votam em Lula e no PT.

Mas, voltando ao tema do post, a Alemanha, como bem se sabe, é um país culto, educado, com bom nível de vida, com boa consciência social e esta Alemanha culta, educada, preparada está elegendo para ser governada por mais quatro anos a chanceler Angela Merkel, 55 anos, ela nasceu na Alemanha Oriental e que foi reeleita, nesta quarta-feira (28), para um novo mandato pelos deputados da Bundestag (Câmara Baixa do Parlamento). Merkel encabeça uma coalizão de centro-direita entre a sua CDU (União Democrata-Cristã), o aliado bávaro CSU (União Social-Cristã) e o FDP (Partido Liberal Democrata). Essas legendas obtiveram 332 das 622 cadeiras de deputados nas legislativas de 27 de setembro.

Como é que a nossa complicada esquerda explica isso?



Não, o redator deste Blog não se considera de direita, mas um liberal de esquerda e se fosse alemão votaria no Partido Social Democrata (SPD).

O Ninho do Estado "Global Player" e o Dom da Desconfiança




Continuo leitor do pensamento de esquerda. E concordo com eles acerca de certas idéias. Uma delas é a de que o governo Lula concluiu a "modernização reacionária" do Brasil iniciada por Getúlio Vargas nos anos 30, como disse o professor sociólogo Luiz Werneck Vianna em matéria publicada na Folha de hoje.

Para Werneck Vianna, o presidente lidera uma "comunidade fraterna sob comando grão-burguês", em que ele "cimenta a unidade de contrários", mas com a hegemonia concedida ao grande capital rural e urbano.

A esquerda adora dizer que o governo Lula é um governo em transformação, um governo em disputa, tendo em vista a participação multifuncional de grande diversidade ideológica. Exemplo, o Ministério da Agricultura é ligado ao agronegócio e o Ministério da Reforma Agrária é ligado aos interesses do MST.

Segundo Werneck, ainda dentro dessa ótica, o Brasil se tornou um "global player" e vive a "hora da virada". "Vamos para uma escala de desenvolvimento que vai reiterar as mais doces expectativas que acalentamos nos anos 50 e 60". O problema, continuou, é que todos os setores "se aninharam no interior do Estado", do agronegócio aos sindicatos, passando pela indústria paulista. Esse Estado "verticalizado e centralizado", por sua vez, se diz "representante de todos", o que esvaziaria o debate público."A arca do tesouro vai servir a quem?", perguntou, referindo-se ao petróleo do pré-sal e às antigas demandas por justiça social. "Vamos organizar o capitalismo numa social-democracia avançada. Sim ao Estado forte, mas sob controle da sociedade, não sobreposto assimetricamente a ela", pregou.

No mesmo encontro o presidente do IPEA, o complicado Márcio Pochmann, disse há agora "uma maioria política" capaz de deixar para trás o projeto de "integração passiva e subordinada" do Brasil ao mundo. Mas, para ele, ainda está em jogo que tipo de desenvolvimento o Brasil terá. "Teremos a mesma dinâmica do século passado, baseada em casas, carros, bens de consumo duráveis? Ou um desenvolvimento ambientalmente sustentável?", perguntou.
Pochmann defendeu que a disputa entre PT e PSDB pela "condução do atraso brasileiro" na eleição de 2010 definirá a continuidade do projeto de "capitalismo organizado" ou a volta à "financeirização" não produtiva. Os possíveis candidatos tucanos "têm menor possibilidade de se aliar às forças do produtivismo", disse.

O que irrita no pensamento de uma certa esqueda é o dom da desconfiança. Quem disse que o futuro presidente da república, seja ele quem for, vai destruir completamente todos os projetos do governo Lula? Ou de que -- quanta besteira Pochmann!!! -- que o canditado tucano vai ter dificuldade com as forças do produtivismo???

Quanta tolice, mesmo que Serra seja eleito -- e ele, convenhamos, não é nenhum "neoliberal" -- ele deve manter uma certa linha de independência e autonomia do Brasil em relação aos outros países, na ótica de um capitalismo mais organizado. No fundo, no fundo, o problema que está por trás de tudo isso é gestão e, sobretudo, gestão pública, o grande político, no mundo do "global player" é exatamente aquele que tem mais capacidade de gestão da coisa pública. E um bom gestor tem de ter certos atributos e, talvez, o mais importante é ter coragem.

Chapa Puro Sangue Tucano




Leio no Blog do Josias que o governador José Serra -- que ontem aprovou uma lei bem legal que disciplina a meritocracia no ensino público -- parece que está deixando de ser sonolento.
Segundo o bem informado Josias -- isso não é fofoca -- o Serra, nas conversas privadas, quer que Aécio Neves seja candidato a vice presidente.
Josias transcreve uma conversa privada entre Serra e um político do Democratas:

O interlocutor do DEM foi ao ponto:
— O partido sente insegurança na sua candidatura. Não sabemos se você é o candidato ou não. Você é o candidato?
— Eu sou o candidato, Serra respondeu.
O dirigente ‘demo’ emendou uma segunda pergunta:
— Posso dizer isso à minha tropa?
— Pode dizer, Serra completou, em timbre categórico.
Na sequência, sem que ninguém o provocasse, Serra disse que, a depender do seu desejo, Aécio Neves vai à chapa de 2010 na condição de vice.
Serra foi lembrado acerca do óbvio: é preciso combinar com os russos. No caso do PSDB, o "russo" é mineiro.
Recordou-se a Serra que o governador Aécio Neves recusa o papel secundário na chapa. Prefere ser protagonista no Senado a coadjuvante no Planalto.
Serra concordou. Mas deu a entender que não jogou a toalha. Espera que a conjuntura quebre as resistências de Aécio."

Os Monstros e o Perigoso Campo da Subjetividade


Ainda sobre as "monstruosidades" de Porto Alegre, artigo de Paulo Amaral, a obra acima é dele, publicado hoje na ZH.


Sobre arte pública

Voltaire Schilling, amigo querido e admirado e uma das mentes mais brilhantes de nosso Estado, adentra, com seu texto “A capital das monstruosidades”, o perigoso campo da subjetividade na apreciação do universo das artes visuais. Por que, e como, classificar o que seja a arte “esteticamente válida”, ou ainda, passível de ser exposta em logradouros públicos? A pergunta, feita desde sempre, registra alguns momentos enigmáticos na História. Para citar um deles, refiro o Salão dos Recusados, de 1863, quando o Almoço sobre a Relva, de Manet, quebrando o rançoso ritmo acadêmico da pintura da época, não foi aceito para o Salão de Paris do mesmo ano. Tratava-se, então, de um quadro considerado escandaloso, quase incompreensível no universo habituado a uma figuração estética cômoda, a um establishment aristocrático e pretensamente religioso da sociedade francesa, que, pouco depois, num mea-culpa, render-se-ia aos novos e inevitáveis modelos de manifestações das artes visuais, e também da literatura, a exemplo de Madame Bovary, de Flaubert, e de Nana, de Émile Zola, autor de J’Accuse, importante manifesto de época em defesa do judeu Alfred Dreyfus, julgado e condenado precipitadamente.Meio século depois, Hitler mesmo, em sua cruzada estética, baniu, dentre outras, a escola cubista, da qual Picasso, com sua magistral Guernica, emergiu como o maior talento artístico do século 20. E por aí vamos num rosário de mudanças que os tempos sempre reclamam.Voltando aos nossos pagos, e analisando o conjunto de obras que Voltaire critica com verve apaixonada, vejo em sua crítica, sobretudo aquela relativa ao monumento situado no Parcão, uma reprimenda extemporânea à burguesia que encomendou ao então jovem e já consagrado artista Tenius uma das obras que caracterizam nossa cidade, assim como outra belíssima, o Monumento aos Açorianos, do mesmo autor, esta comissionada pelo poder público, e que Voltaire, felizmente, não refere em seu texto crítico. Com relação ao Timão, obra do genial Gustavo Nackle, Voltaire se ressente de que no lugar dela não esteja um busto próprio do Classicismo que, embora enterrado há anos, será para sempre referência no desenvolvimento da arte de todos os tempos, os idos e os futuros.A arte é assim, ela copia, porém sempre de forma renovada. Não trata da captação de modelos óbvios, mas, muito antes, da exacerbação do imaginário, daquilo que não foi criado, da mensagem nova. As Bienais – e aqui estamos diante de mais uma delas – não valem pela consagração do feito, mas pela contestação do status quo, do que foi ontem e não mais pode significar hoje. Num mundo crivado por interrogações, dentre as quais a que afligia Gauguin – “Quem somos, de onde viemos e para onde vamos ?” –, é impossível a inércia do pensamento, e a arte nova, se pudermos chamá-la assim, cumpre o papel de ornar o inevitável percurso do pensamento contemporâneo. Se o Direito Penal, citando as palavras de Schilling, não se preocupou em classificar como criminoso hediondo quem de propósito fabricasse a feiura, é porque nunca pôde – como nunca poderá – frear os desígnios da criação da arte em sua plena liberdade.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Cara se Acha



Desde que Obama chamou Lula de "o cara", ele se acha quase um Deus. Talvez um demiurgo. Hoje no aniversário de 64 anos ele arriscou no trompete da banda da Guarda Presidencial. O som deve ter saído bem arranhado. Não é fácil tocar trompete. É necessário ter pulmões e ouvido. Lula é o sonho do mundo moderno. O cara que veio de baixo e chegou lá em cima. Nesse sentido, nada contra ele. É até admirável. O problema é quando o "cara" começa a se achar como o rei da cocada. Tudo o que ele diz é o que é. E tudo o que ele faz é o correto, o certo. A sociedade moderna é da imagem rápida, ela deixou de ser letrada e se transformou em tecnológica. Lula nunca foi um homem letrado, nunca gostou de ler, de aprender, de pesquisar, de artes, de cinema, de ter uma vida intelectual mais ativada e por isso -- talvez -- ele encarne muito bem o homem moderno, que se manifesta pela imagem. O que importa é o "cara" tocando trompete. Collor fazia mais ou menos isso, se comunicava com a sociedade brasileira pela imagem de destemido, aquele que tem tudo roxo. É essa a imagem que fica e que gera a popularidade. E o que diz o "cara" além do discurso simplista e fácil? Nada, absolutamente nada.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Arrumando as Malas



Rumo a Portugal

O redator deste Blog está arrumando as malas para uma viagem de 10 dias a Portugal. Aproveitando, of course, o feriado de finados e a baixa do dólar. O notebook vai ser carregado numa mochila com cabo usb para conexão com câmera fotográfica. Algumas fotos serão expostas, pois pois, neste Blog. Não vou ser uma espécie de Maitê Proença que fez críticas duras e grosseiras a nossos irmãos lusitanos. Muito pelo contrário, quero explorar, com olhar de viajante, todos os cantos, recantos, sabores, estradas e curiosidades. Dizem que os vinhos portugueses do Alentejo, da Extremadura, do Dão e do Douro estão em ótima fase. Vamos, pois, prová-los.

A última vez que estive em Portugal foi em 1985, de mochila nas costas, utopias na cabeça e cartão de Europass no bolso. Pousava sempre nos Albergues da Juventude (Youth hostels), sendo que alguns eram localizados em velhos castelos e casas antigas. Um bom local para se fazer grandes amizades. Cruzei a fronteira com a Espanha e desci na estação ferroviária da simpática e inesquecível Vila Real Santo Antônio, no Algarve, onde a areia é fina como as praias do sul do Brasil. Era o início do verão de 85. Depois visitei Lisboa e Coimbra e retornei para Madri. Sempre repeti para mim mesmo: vou retornar a Portugal. Eu sei, os tempos são outros. A moeda do país não é mais o escudo e os portugueses respiram os bons tempos do mercado comum.

Já estou com novo passaporte que é azul como dos americanos, mas com validade de apenas 5 anos (por que apenas 5 anos?) e já fiz todas as reservas possíveis e recomendadas, tudo via internet, porque os custos são muito mais baixos. É possível se hospedar em hoteis razoáveis (do tipo hotel boutique) a preços bem acessíveis.

Vai ser uma viagem de estrada. A rota já está razoavelmente feita, com a possibilidade de pequenas alterações ao longo do percurso. O circuito vai ser entre Lisboa até o norte do Porto (região de Braga) com passagens por Sintra, Leiria, Alcobaça, Coimbra, Nazaré, Figueira da Foz, Aveiro, Amarante, Matosinhos, Braga e Viana do Castelo. Viajo no final desta semana e por enquanto tenho de arrumar as malas e acertar os ponteiros por aqui. E não é mole acertar os ponteiros.

No Uruguai Vai Ter Segundo Turno




As últimas do Uruguai:
Vai ter segundo turno entre Mujica e Lacalle, este recebeu o apoio do colorado Bordaberry, que tirou 3º lugar..
A Frente Ampla de Mujica perdeu a maioria parlamentar;
Não foi aprovada a anulação da Lei Caducidad (Lei da Anistia).

Dormindo e Roncando em Cima do Muro


Jean na Folha hoje.

Uma Bienal "Interessante"


A Band of Ghosts de Yun-Fei Ji


La Suprema Intangible de Fermín Enguía


Por que a Bienal do Mercosul não se chama Bienal de Porto Alegre?

Perambulei ontem por duas instalações da 7ªBienal do Mercosul e que se chama "Grito e Escuta". Visitei apenas as exposições do Santander e no Margs na Praça da Alfândega que se prepara para receber a feira do livro. O vivente que gosta de audiovisual tem que se dirigir à Mostra "Projetáveis" no Santander e aquele que gosta de gravuras, artes plásticas etc... ao Margs onde está o "Desenho das Idéias".

Geralmente quando se vai a uma exposição e não se tem muito a dizer, a gente diz: é interessante, essa palavra que diz tudo, mas não diz nada.

Os "Monstros" de Porto Alegre


"Casa Monstro" de Henrique Oliveira.


Cuias de Saint Clair Cemin




Escultura Olhos Atentos de José Resende.




Escultura de Carlos Tenius no Parcão em Porto Alegre.
Na provinciana Porto Alegre qualquer debate chama a atenção. A moda agora é discutir as "monstruosidades" de alguns monumentos que a cidade oferece. Quatro dessas "monstruosidades" estão acima. Será que esses trabalhos são mesmo "monstruosos"? Quem tocou fogo na fogueira da estética guasca foi o historiador Voltaire Schiling que escreveu o seguinte artigo na ZH de domingo.


A capital das monstruosidades

Desde que Marcel Duchamp, um ex-artista cubista, francês de nascimento que escolheu os Estados Unidos como residência, mandou um urinol para ser exposto numa galeria de Nova York e, quase em seguida, em 1915, montou uma roda de bicicleta equilibrada sobre um pequeno banco e a fez passar por obra de arte, abriu-se a Caixa de Pandora dos horrores estéticos que a partir de então invadiram o cenário das exposições de arte.Para acentuar ainda mais o seu deboche para com o que até então se entendia como arte, Duchamp, um pândego, um moleque crescido, pintou um belo bigode numa imagem da Mona Lisa de Leonardo da Vinci, ícone da pintura ocidental. Como ele não foi confinado num manicômio nem encarcerado por ofensas ao patrimônio estético (interessante observar que nunca o Direito Penal preocupou-se em classificar como crime hediondo quem de propósito fabricasse a feiura!), parte da vanguarda artística ocidental tomou-o como um profeta dos novos tempos. Estabeleceu-se então um deus nos acuda.Todavia, o que particularmente nos chama a atenção como cidadãos desta nossa capital, que mais uma vez se vê intimidada pelo flagelo de uma nova “instalação”, é a notável concentração de “esculturas” e “monumentos” absolutamente espantosos. Um pior do que o outro.Nosso calvário começa por aquela mandada erguer pelos burgueses do bairro Moinhos de Vento para celebrar sua vitória em 1964 que se encontra no Parcão (homenagem ao marechal Castello Branco, mas que também pode referir-se ao desembarque de um extraterrestre), chegando ao hediondo “timão” situado na rótula que antecede o museu Iberê Camargo.Aliás, o primeiro “timão”, que parecia ter esterco como matéria original da sua composição, foi destruído pelos vileiros do Morro Santa Tereza, certamente indignados em terem-no nas vizinhanças (sofriam de uma injusta punição, além da pobreza tinham que encarar diariamente o exemplo da medonhice).Este colar sem fim de mau gosto que nos assola ainda é composto pelo “cuiódromo”, encravado na rótula da Praça da Harmonia (obra que por igual pode ser entendida como a exaltação de um superúbere de uma vaca premiada), e por um tarugo de ferro enferrujado que adentra o Rio Guaíba nas proximidades da Usina do Gasômetro e que se intitula, pasmem, Olhos Atentos.Nem os que foram perseguidos pelo regime militar escaparam destas maldades estéticas. O “monumento” que os lembra, erigido no Parque Marinha do Brasil, nos faz supor que eles continuarão atormentados ainda por muito tempo mais.A gota d’água derradeira destas perversidades que acometem contra nós, pobres porto-alegrenses, foi a inauguração recente da Casa Monstro, situada na Rua dos Andradas. Pelo menos o autor, um jovem paulista, enfim alguém sincero no ramo, não a escondeu atrás de um título esotérico ou poético: é monstruosa, sim!Trata-se da reprodução de um tumor que, inchado, é expelido pelas aberturas da construção e vem se mostrar aos olhos dos passantes, tal como se fora um abdômen de um canceroso recém aberto pelo bisturi de um cirurgião. Como se vê, uma maravilha!Minha interrogação, depois de passar rapidamente os olhos sobre este vale de horrores que nos circunda, é por que Porto Alegre, cidade aprazível, moderna, povoada por gente simpática, habitada pelas mulheres mais belas do país e que abrigou artistas como Vasco Prado, Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves, termina por excitar o pior lado de muitos que por aqui vêm expor?Dizem-me que eles deixam estas abominações como doação (por não encontrarem compradores e não quererem arcar com o translado) e a infeliz prefeitura, constrangida, não tem como lhes dizer não.Faço desde já um apelo ao secretário municipal da Cultura, Sergius Gonzaga, se este ano tal ameaça se repetir, mobilize-se. Levante recursos, promova uma ação entre os amigos da cidade para despachar tais coisas para qualquer outro lugar. Senão, peça socorro à ONU. Porto Alegre, aliviada, lhe será eternamente agradecida.

Eduardo Veras, crítico de Zero Hora, replicou com o seguinte artigo publicado hoje no jornal:

Entulhos nossos de cada dia

É sempre bem-vindo o debate sobre a relação entre arte e cidade, e é bom que ele não seja feito apenas por especialistas, aqueles que têm repertório e estudam a matéria. O professor Voltaire Schilling comete, porém, erros graves no artigo publicado ontem em ZH, os quais comprometem sua argumentação. Apresenta como se fossem iguais obras de naturezas diferentes. Nenhuma das que ele menciona corresponde ao que ele pretende: entulhos deixados em Porto Alegre porque não se tinha destino melhor para eles, como se fossem carros alegóricos abandonados após o Carnaval. O historiador confunde, por exemplo, esculturas que são frutos de concursos públicos promovidos pela prefeitura (na mesma linha dos concursos que se faz, por exemplo, para a construção de um prédio municipal, com edital, concorrência e banca de avaliação) e uma intervenção que está na cidade em caráter provisório, somente até o encerramento da atual edição da Bienal do Mercosul, no final de novembro.No mesmo artigo, o autor supõe que uma escultura em bronze, na orla do Guaíba, tenha sido destruída por “vileiros do Morro Santa Tereza”, os quais estariam “indignados” pela vizinhança com a “medonhice” da peça. Ora, levando ao pé da letra o que insinua o diretor do Memorial do Estado, poderíamos supor que um cidadão que não tenha apreço pelo Laçador estaria justificado se depredasse a famosa estátua. Lembro que a obra máxima de Antonio Caringi não é uma unanimidade. Críticos mais abalizados que eu já sublinharam que o Laçador nem sequer é a mais bem-sucedida representação do trabalhador campeiro que temos na Capital – essa seria o Gaúcho Oriental, do Parque da Redenção.Enfim, o próprio de cada obra de arte é que não exista consenso em torno dela. Os critérios de avaliação da arte são móveis, não estão fixos no tempo e no espaço. Nunca é demais lembrar que os impressionistas, hoje reverenciados, os Monet e os Manet que amamos tanto, foram largamente espinafrados pelo público e pela crítica de seu tempo.Quer dizer que Porto Alegre só tem obras belas e admiráveis em seus espaços públicos? É só questão de tempo que a gente venha a se apaixonar por elas? Depende de quem vê.
eduardo.veras@zerohora.com.br


ZH fez um mural de opiniões sobre o tema. Muita gente concorda com Voltaire. Outras não. Destaco a mensagem da artista plástica Clara Pechansky:

Não concordo. O direito à livre expressão em todas as formas de cultura já foi proibido em circunstâncias sinistras como o nazismo e o fascismo. Voltaire tem o direito de não gostar das esculturas da nossa cidade, algumas criadas por importantes artistas como Carlos Tenius (Parcão), Gustavo Nakle ("timão") e Saint-Clair (cuias). É perigoso, porém, invocar o Secretário da Cultura para removê-las: artistas têm direito de expressar suas ideias, ainda que não correspondam a padrões estéticos consagrados ou ao gosto de cada indivíduo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

De Cuba O Novo Cartismo




Ontem na livraria encontrei o livro da blogueira cubana Yoani Sanchez. , O pessoal de uma certa esquerda caduca acredita que ela é financiada pela CIA. Juro que nem sabia que ela tinha editado esse livro. Na verdade, é uma coleção dos posts que ela publicou no Blog Generación Y, que tem tradução em português. Ora, pois.

Aproveitando a oportunidade, a última postagem da Yoani, por que não?








O Novo Cartismo


As caixas de correio se parecem com as urnas eleitorais, têm uma fenda para introdução do papel e seu conteúdo - seja uma carta ou cédula de voto - recebe desrespeito parecido nesta Ilha. Apesar das limitações da correspondência, resulta mais facil fazer chegá-la ao seu destino do que com o nosso voto incidirmos no curso do país. Daí que um dos esportes mais praticados por meus concidadãos seja o de escrever suas queixas às instâncias superiores, dirigidas justamente aos causadores da maior parte dos nossos problemas.
Uma senhora escreve um longo lamento sobre a poça de esgoto que brota no pátio da escola próxima; o vendedor de pizzas denuncia por escrito o inspetor que exige dele uma porcentagem das vendas em troca de não fechar seu quiosque; aquele paciente que necessita de uma cirurgia coloca sua carta contando que está há um ano esperando entrar na sala de cirurgia. As reclamações são tantas que em muitos ministérios o recebimento de cartas corresponde a um departamento com vários empregados. Uma verdadeira inundação de folhas que repetem - sempre - o cabeçalho “Por este meio, dirijo-me ao senhor…”
De um tempo para cá apareceu a modalidade digital da carta que se faz circular pela intranet de várias instituições. De forma similar, iniciou-se
a polêmica intelectual de 2007 e agora vemos surgir os critérios inconformados de várias personalidades da cultura. Pela minha tela desfilaram a carta do ator Armando Tomey, outra do crítico literário Desiderio Navarro e uma muito boa de Luis Alberto García, que interpreta o personagem Nicanor em curtas de Eduardo del Llano. O cartismo veio substituir o referendum indispensável através do qual expressar nossas reclamações de mudança
Nossa tendência epistolar tem semelhanças com aquele movimento da Inglaterra antiga que conseguiu mais de um milhão de assinaturas para apresentar A Carta do Povo ante a Câmara dos Comuns. Os cartistas de então conseguiram pressionar para que se introduzissem certas reformas, porém tenho a impressão de que nossos memorandos são papel molhado, burla de cédula, tinta que se dilui frente a inércia estatal.

Mujica é Mujica e Tabaré é Tabaré


O ceibalito e o comicio da Frente Ampla em Montevideo, Uruguai.

Domingo tem eleição de primeiro turno no Uruguai. O favorito é José Mujica, da Frente Ampla. Ele quer liquidar tudo no primeiro turno.
Indiscutivelmente, se existe um povo educado na américa latina, esse povo é o uruguaio. O Uruguai se recupera depois de décadas parado no tempo. É um pais que praticamente não tem indústrias e sobrevive -- encurralado entre o Brasil e a Argentina -- graças às atividades rurais e aos serviços. Quem conheceu o Uruguai nas décadas passadas pode constatar a forte imigração de jovens para outros países. O Uruguai se tornou um país de velhos. E a política era sempre dirigida por dois partidos tradicionais: os Blancos e os Colorados. Até que um dia apareceu a Frente Ampla que elegeu o médico oncologista Tabaré Vazquez como prefeito de Montevidéo e depois presidente da república oriental.
Tabaré Vazquez é o típico liberal esquerdista. Ele não é radical, não faz política de ressentimento. E se o redator do Blog tivesse que escolher qual o melhor de todos os líderes esquerdistas da América Latina ficaria em dúvida entre Tabaré e a Michele Bachelet do Chile.

Tabaré fez um bom governo. Pôs as contas em ordem, atraiu investimentos industriais, incentivou a agroindústria e investiu em educação. Seu grande feito, dizem, foi ter distribuido os ceibalitos, laptops XO, para 300 mil estudantes da rede pública do ensino fundamental do Uruguai. É o Plan Ceibal. Como disse hoje na ZH o jornalista André Machado: Uma pequena mala verde e branca, que mais parece um brinquedo, pode ser vista nas mãos de milhares de crianças na Uruguai e é uma marca do primeiro governo da Frente Ampla no país. O apoio ao Plan Ceibal é uma unanimidade entre os principais candidatos e, em parte, é responsável pela provável vitória do candidato governista, José Mujica (esquerda), na eleição presidencial de domingo".

Existe, pois, uma grande diferença, José Mujica é diferente de Tabaré Vazquez. Como gosta de dizer o meu amigo Senna Madureira> uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma coisa é Tabaré e outra coisa é Mujica. O ex lider tupamaro é bem mais radical. Mas está na frente nas pesquisas e quer levar o primeiro turno. A Frente Ampla tem força em Montevidéo e cidades próximas. Seria o fim da picada se o Uruguai elegesse Mujica e se alinhasse com os bolivarianos chavistas.

Mujica, dizem, modificou. Passou a vestir terno e gravata e a pentear os cabelos. Meu barbeiro -- sim ainda vou ao barbeiro -- que é uruguaio disse; Mujica é tupamaro, um comunista, feio, sujo, mal cheiroso!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O Inusitado Ritual do Funeral Japonês




Meu velho amigo, Senna Madureira, me indicou o filme alemão "Os falsários". Como eu gosto muito de filme alemão fui na locadora procurar o DVD que recém chegou, mas o único que tinha já havia sido reservado para uma madame que mora aqui perto. Não tive outra alternativa senão a de procurar outro filme. Eu queria algo diferente. Nas novidades, o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Não tive dúvida. É esse mesmo.



O cenário é o Japão atual. Uma cidade operária, da onde se vê o Monte Fuji. O Japão é um país urbano, onde os índices de suicídio são bem altos, sobretudo, no inverno. Os japoneses têm um ritual funeral bem interessante. O corpo deve ser limpo, arrumado, pintado antes de partir. E tudo isso é feito na frente dos familiares. Alguém tem de fazer esse trabalho. O jovem Daigo Kobayashi é o cara. Ele tem talento para o trabalho que faz. Muita técnica ou arte?

É bom sair um pouco do ritual Hollywood que domina o senso comum. Respirar outros ares, olhar para outras bandas, ver como os outros povos fazem seus costumes, inclusive seus velórios. Ver a vida de outro ângulo, outras luzes, outros sons. O filme se chama "A Partida" que todos nós vamos ter um dia.

Fotógrafos Brasileiros em Paris





Muito chique. Um grande amigo, fotógrafo de arte, vai exibir seus trabalhos fotográficos na Galerie d'art François Mansart, na rue Payenne, em Parrrri.
Be there!

Por Que Não Ler Dostoyewski?




Dizem - porque me disseram -- que política é a arte da banalidade. Eu digo que é a arte da hipocrisia. É a típica discussão que vai enrolar o peixe comprado no mercado amanhã. O que importa se o governo Lula está fazendo um mega acordo com o PMDB para eleger a Dilma? O que importa se Serra dorme e ronca? Se Yeda é corrupta ou não? Se o PT continua intransigente e faz oposição golpista? Dizem - porque me disseram -- que política é a arte da chatisse e que é muito melhor ler Dostoiewski.

Pois, então, sigo a receita e me debruço sobre as cartas do grande escritor russo que assim diz:

O primeiro passo é melhor que qualquer salto.Quando se é jovem, as ideias acumulam-se em nossa cabeça; mas não se deve capturar a cada uma delas enquanto bailam em nossa mente, e daí apressar-se para divulgá-la. Deve-se esperar pela síntese, pensar mais; aguardar até que os detalhes todos que formam a ideia tenham se agrupado em torno do núcleo, em uma ampla e definida imagem; nesse momento, nunca antes, deve-se então escrevê-la.

E sempre tive a alegria de descobrir generosidade no coração de um ladrão ou de um assassino...As pessoas mudam o seu ponto de vista; o coração permanece o mesmo.

O pedantismo é o mais peculiar sinal de estupidez.A ambição é válida, mas penso que devemos tê-la como norte apenas nas coisas em que colocamos nosso empenho para atingir, naquilo que transformamos em razão de nossa existência. Em qualquer outra coisa, será perda de tempo.

A única coisa essencial é vivermos em paz; mais que tudo, precisamos nos compadecer de nossos semelhantes, e lutar para obter a sua solidariedade em troca.

Se, em verdade, não tivermos nenhum outro objetivo na vida, esse por si só deve bastar.Não quer dizer que pretendo me isolar do convívio social, mas não suporto estranhos.Estar só é um estado natural, como comer e dormir; E, de fato ninguém pode saber exatamente como é a vida de seu próximo.Dizer apenas uma parte é como nada dizer.

Os textos de Dostoiévski foram copiados do Blog da Bípede.

E o Que Dizem as Bases?


Governo quer a chapa Dilma e Temer para governar mais 4 anos.


Um Acordo de Cúpula

Lula ofereceu, no início desta semana, um banquete para a cúpula do PMDB. O plano é emplacar Michel Temer, vice de Dilma e o PMDB apoiar a candidatura de Dilma. A elite do PMDB parece que aceitou os termos do tratado.

O PMDB hoje comanda seis ministérios, 92 deputados e 17 senadores, conta com 1.202 prefeitos.

O tempo na mídia da candidatura de Dilma -- que ainda não emplacou --, no primeiro turno, vai dobrar ou triplicar se esse acordo efetivamente se concretizar.

Mas o que dizem as bases do PMDB?

Banho Bolivariano - No Máximo 3 Minutos e Sem Jacuzzi


Famosa cena do chuveiro no Psicose de Hitchcock.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pediu na quarta-feira à população que pare de cantar no chuveiro e que restrinja seus banhos a três minutos, pois há graves problemas de abastecimento de água e luz no país.
A Venezuela sofreu vários apagões no último ano, devido ao aumento da demanda, à falta de investimentos no setor e à redução dos níveis das represas das hidrelétricas.
Chávez anunciou medidas de economia de energia e disse que irá criar um "ministério do apagão", contra os problemas que têm afetado a imagem da sua revolução socialista antes das eleições legislativas de 2010.
O presidente disse ainda que a falta de chuvas provocada pelo fenômeno El Niño causou uma redução crítica na barragem de El Guri, uma das maiores do país.
"Algumas pessoas cantam no chuveiro, (ficam) meia hora no chuveiro. Não, meninos, três minutos é mais do que suficiente. Eu contei, três minutos, e não cheiro mal", disse ele numa reunião ministerial, transmitida pela TV.

"Se vocês vão deitar no banho com o sabonete, e vocês ligam o que se chama Jacuzzi, imaginem, que tipo de comunismo é esse? Não estamos em tempos de Jacuzzi", disse ele, causando risos nos ministros.
Ele disse que o governo cogita usar aviões para mexer nas nuvens e provocar chuvas, e disse que o governo em breve publicará um decreto proibindo as importações de equipamentos elétricos de alto gasto energético.
Ele pediu que os ministérios e estatais reduzam imediatamente em 20 por cento o seu consumo de energia.


Fonte: UOL.

Vem Aí a CPI do MST


Invasão do MST à Cutralle e a destruição de laranjais foram decisivas para a aprovação pelo Congresso Nacional da CPI do MST.

Custou mas foi. O governo fez de tudo, mas não conseguiu. A CPI do MST vai sair. E o alvo central são as verbas públicas destinadas às ONG´s que financiam o MST, esta entidade que não tem CNPJ. O governo foi contra, porque sabe que esse tema pode capitalizar e muito a oposição. Ninguém gosta de barulho em seu páteo. O governo tentou e não conseguiu retirar as assinaturas necessárias para a instalação da CPI que conta com o apoio de 210 deputados e 36 senadores - o número mínimo exigido era de 171 assinaturas na Câmara e 27 no Senado. O interessante e inusitado é que as assinaturas ainda vão passar por uma nova conferência nesta quinta-feira. Por que isso? Possibilidade de fraude e falsificação?

Ao que tudo indica, é o que diz a oposição, R$ 115 milhões podem ter sido desviados pelo movimento de convênios com o governo. Uma das linhas de investigação será em cima do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) de São Paulo. Três coordenadores dos núcleos de apoio do órgão no Pontal do Paranapanema exerceram funções na Cocamp uma cooperativa criada pelo MST que é alvo de investigação da polícia por mau uso de recursos públicos, segundo a Folha on Line.

A proposta de CPI ganhou força no Congresso depois da invasão, por integrantes do MST, da fazenda Santo Henrique, na divisa dos municípios de Iaras e Lençóis Paulista, em São Paulo, que resultou na destruição de parte do laranjal da propriedade.
No mês passado, a oposição lançou mão de uma manobra e consegui fazer a leitura de um requerimento pedindo a investigação dos recursos para entidades ligadas ao MST, mas o governo atuou e conseguiu evitar a CPI com a retirada de 45 assinaturas de deputados aliados.

Os Titulares e os Interinos da Província


É impressionante como a ZH gosta de ser provinciana. O RS é provinciano. A crônica abaixo é do Fabricio Carpinejar, publicada hoje no jornal, ele é tratado como "o interino". O titular é Luiz Fernando Veríssimo que está em férias. Muitas vezes o interino é melhor do que o titular.


Até 2012


Eu estaciono no mesmo lugar. Na Rua Tobias da Silva, para almoçar no Suzanne Marie.É quase automático. Tomo a vaga menos trabalhosa, de preferência perto de uma garagem, para não manobrar. E nem vem com essa de que homem tem que fazer baliza para mostrar sua habilidade. Baliza serve para treino de futebol e não há dia amistoso em minha vida. Acertei uma vez na autoescola e não pretendo arranhar meu feito.Sou ritualístico. Um pouco de improviso e me perco. Ao acender os faróis sem querer, não sei mais se fechei a casa direito, desliguei a cafeteira, recolhi as roupas, apaguei o gás. Um esquecimento acorda todos os possíveis extravios. Reabro casos arquivados da minha motricidade. Eu penso no que fiz e me dá medo de ter esquecido alguma coisa. Porque fazer é esquecer. Algo fora do programa e confio que errei todos os passos anteriores. Neurose? Sim, uma neurose habilidosa, graduada.Entre os atos habituais, deixo um troco para o guardador da rua na saída. Quando estou otimista (o que significa que não acendi os faróis), ofereço R$ 2. No azedume, busco uma moeda de R$ 1 e não puxo conversa.O flanelinha me trata sempre da mesma forma, com bom-dia e bom trabalho.Retribuo o bom-dia.Dependendo da paciência, comento sobre futebol, apesar de não descobrir para qual time ele torce, o que prejudica a passionalidade dos comentários.Mas naquela manhã retirei uma nota de R$ 2 da carteira, no impulso. Entreguei já com o pé na embreagem.Ele insistiu para que abrisse o vidro.“Será que está pedindo correção salarial?”, pensei. “Só o que falta é reclamar”, atropelei o primeiro pensamento.Deu dois toques na janela e falou:– Obrigado, meu irmão, Deus te abençoe e ilumine seu caminho, Deus possa retribuir a ajuda, minha família agradece, tenho dois filhos para criar, precisava mesmo comprar remédio e...Não parava sua lamúria contente. Não sei o que é pior: o agradecimento ou a reclamação. Óbvio que é o elogio. Da segunda, a gente tem como se defender.De cabelos cacheados e perflex na mão, o rapaz entrou em surto. Tive que acenar em movimento antes do fim de seu discurso.Suspirei, aliviado, ele realmente compreendia o significado do dinheiro, o quanto custava cada centavo. Voltei a acreditar na evolução da espécie.Segui meu dia, fui a uma festa de aniversário de noite. Durante a despedida dos amigos, no caixa, não encontrava a nota de R$ 100, somente a maldita de R$ 2. Escuro, embaçado pelo cigarro e bebida, cheguei a grudar a cédula em meus olhos como lente de contato para verificar se o azul de uma era o azul da outra. Não era e reprisei novamente o filme das últimas 12 horas e descobri que alcancei a grana para o guardador de carro, o que explicava sua euforia mística.Eu estaciono no mesmo lugar e não pago mais o flanelinha. Ele tentou se aproximar nesta semana. Arriscou uma súplica, tímida, abafada.– Hoje não tem nada?Respondi que não, nem hoje nem amanhã, a rua era minha até 2012.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A PPP do Maracanã



Se existe algo de produtivo que o governo Lula fez foi a lei das Parcerias Público Privadas, Lei 11.079/2004. Juro que nunca imaginei o governo do PT -- que sempre gritou contra a desestatização e privatização -- ter editado e aprovado uma lei como as da PPP.

Estudei ontem a tal da lei e é muito boa, sobretudo porque ela compartilha os riscos de forma objetiva. Em qualquer empreendimento que o particular faz com a administração pública existem riscos: risco político, risco ambiental, risco tecnológico etc.. E no contrato tem de estar bem especificado quem vai arcar com esses eventuais prejuízos.

E o Estado só vai iniciar a pagar quando a obra de parceria estiver pronta. Todo o gasto, do início da obra até o final é feito pelo parceiro que pode ter como sócio uma financeira, um banco que pode receber como garantia o próprio objeto da concessão. Sim, PPP é uma forma de concessão de serviço público. Tudo isso está na lei.

Compete à Administração a fiscalização dessa atípica concessão. O sistema, o espírito da Lei das PPP´s é muito bom, só não sei se vai dar certo, tendo em vista o nosso complicado histórico de corrupção, mas tudo isso pode ser evitado se tivermos administrações transparentes, o que não é muito difícil, convenhamos, em tempos de controle on line, via internet.

O Estado do Rio de Janeiro largou na frente -- Parabéns ao Sérgio Cabral -- ao implementar no âmbito do Estado, um Programa Estadual de PPP. De olho na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2.016, as PPP´s vão ser a cereja do bolo. Podem ter certeza disso.

No caso do Maracanã, já estão sendo realizadas consultas públicas para esse fim. O parceiro vai ter de reformar o estádio para deixá-lo nos moldes do padrão Fifa e também vai receber um terreno ao lado do estádio onde vai poder construir empreendimento ligado ao estádio como estacionamento e shopping, com rampa de acesso ao Maracanã. Uma maravilha.

E aqui no pampa gaúcho, no distante RS, quando o PT fica sabendo que algum governo quer fazer algum tipo de parceria com a iniciativa privada, as faixas da grife Guevara vão para a rua protestar contra a privatização. Refém desse discurso hipócrita e atrasado, os governos Yeda e Fogaça não ousam ir além para implementar um projeto de de PPP no RS. É certo que o governo Yeda pensou em fazer PPP para a construção de presídios, mas o Tarso foi contra. Engraçado, o PT faz a lei do PPP, mas ela não pode ser aplicada pelos governos de oposição!!!!

Por isso, por causa desse cansativo embate político e ideológico, o RS patina. Até quando?

Saiu o Livro - Definitivo - Sobre o Sarney


No Jornal Pequeno, a seguinte notícia: nenhuma livraria do Maranhão ousou lançar o livro "Honoráveis Bandidos" do jornalista paraense Palmério Doria sobre a trajetória do velho coronel, ex presidente da República e amigo do "Cara", Senador José Sarney.
O livro está vendendo como água, está em sexto lugar nos mais vendidos "não ficção" da revista Veja.
E o editor do Blog, que gosta de perambular pelos Blogs da nossa esquerda, constatou o nebuloso e inusitado silêncio sobre a edição desse livro.

Guerra do Rio é Metáfora de Conveniência


Homem é encontrado morto dentro de um carrinho de supermercado no Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro. Segundo moradores, ele teria sido morto por traficantes de drogas rivais. Desde o último sábado, 25 pessoas já morreram nos confrontos entre traficantes e policiais nas favelas da cidade.


A guerra do Rio é uma metáfora cavilosa

Coluna do Elio Gaspari de hoje.

O Rio ganhou um novo problema, a blindagem dos helicópteros da polícia. (E por que só os da polícia?) Os três jovens mortos na entrada do morro dos Macacos são uma nota de pé de página. Três dias de desordens nas estações da Supervia já são coisa do passado. De uma hora para outra, o carioca sente-se num cenário de "Tropa de Elite".Primeiro, ele parou de caminhar pelas ruas do bairro depois do jantar. Um país com a taxa de fecundidade de 6,3 filhos por casal não podia ir para a frente. Depois, faz tempo, surgiram as grades nos jardins do recuo dos edifícios. Do Leblon ao Leme há algo como 10 mil metros de calçadas gradeadas, mas não poderia ser diferente: nessa época a população favelada do Rio dobrara de 335 mil pessoas para 722 mil.Isso acontecia numa cidade em que, até 1983, pareceu irrelevante o fato de os ônibus não passarem pelo túnel Rebouças, inaugurado em 1966. Parecia natural que a choldra da zona norte não tivesse acesso fácil a Copacabana e Ipanema.Na virada do século foi preciso blindar o carro. Pensando bem, era uma impropriedade estatística. A taxa de fecundidade das brasileiras caíra para 2,9 filhos por casal. Estavam nascendo menos pobres, portanto, não fazia sentido que a população favelada chegasse a 722 mil almas, quase 15% da população da cidade.Aos perigos e transtornos impostos ao carioca somou-se a cenografia de uma guerra. A crise da segurança pública do Rio não é uma guerra. Pode ser pior, mas não é guerra. Os quatro anos da ocupação alemã em Paris foram menos cruentos que quaisquer quatro anos do Rio, desde 1980. A ideia de uma guerra pressupõe um inimigo perfeitamente identificado e a disposição de se utilizar todas as forças disponíveis para submetê-lo. Guerra pressupõe tentar devolver o Vietnã do Norte à Idade da Pedra.Não há guerra no Rio, o que há é uma metáfora de conveniência. Ela cria o cenário da emergência, mas não pode dar o passo seguinte, que seria o reconhecimento de que uma parte da cidade está em guerra com outra, como aconteceu na Argélia, ou na África do Sul da fase mais agressiva do "apartheid".Esse passo não é dado porque, apesar dos surtos demofóbicos, a sociedade brasileira nunca se associou a um projeto desse tipo. Colocando a coisa de outro modo: o pedaço da sociedade que seria capaz de apoiar uma política de violência segregacionista levando-a a consequências extremas, ainda não tem coragem para vocalizar suas propostas e não haverá de tê-la nos próximos anos. Pensar que essa linha de pensamento não existe é colocar a ingenuidade a serviço das boas maneiras.A metáfora da guerra não define o inimigo mas, cavilosamente, deixa-o subentendido. Ele está na favela ("fábrica de marginais", na definição do governador Sérgio Cabral). Essa guerra sem inimigo produz cenários, cenas de batalha, vítimas e juras de vingança, nada mais. Tudo fica parecido com "Tropa de Elite". Uma metáfora pode sustentar um filme, mas não resolve as questões da segurança de uma cidade.Se o clima de guerra sair da agenda do Rio, não há qualquer garantia de que as coisas melhorem, mas pelo menos será retirada a cortina de fantasia que mascara políticas públicas fracassadas.

Velho Rio Grande de Guerra


Deputados favoráveis à Yeda comemoram rejeição do impeachment.

Ontem a Assembléia Gaúcha arquivou o pedido de impeachment contra a governadora Yeda Crusius com direito a vaias, confusões, protestos e foguetório. É o velho Rio Grande de guerra. A política sempre foi assim neste complicado estado.

Apesar das pesquisas, como o IBOPE, mostrarem uma grande rejeição do povo gaúcho ao governo Yeda, inclusive sendo favorável ao impeachment, o fato é que o povo do RS não demonstrou a mínima vontade de sair para às ruas para protestar contra a Yeda.



Quem vai para as ruas são as mesmas meia dúzia de sempre, a militância dos partidos de oposição que perderam a eleição no voto.

Yeda diz que seu governo é vítima de golpismo. O pessoal do Democratas, partido do vice governador Paulo Feijó, votou em favor do impeachment. Isso, certamente, significa alguma coisa. Ou não?

O Rio Grande sempre esteve dividido. Eram os chimangos e os maragatos. Eram os trabalhistas, do tempo do Getúlio, Jango e Brizola, contra os liberais e udenistas. E, nos últimos tempos, é o petismo contra o antipetismo. Mas contra a Yeda o núcleo de oposição se alastra, porque participam dele o PDT e os Democratas.

Por que o Rio Grande é assim?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Movimentos Sociais Engolidos Pela Burocracia



Li esse artigo no Diário Gauche de hoje, onde pesquei essa imagem.. Ele saiu publicado na Folha também de hoje. O pessoal da esquerda não gostou muito. O redator do artigo é o sociólogo Rudá Ricci, que tem um Blog.
Fim da era dos movimentos sociais brasileiros
Rudá Ricci

Os movimentos sociais que antes exigiam inclusão social ingressaram no Estado e foram engolidos pela lógica da burocracia pública

Entre muitas divergências, há um consenso entre estudiosos dos movimentos sociais: todos são formados a partir de espaços não consolidados das estruturas e organizações sociais. Ocorre que, nos anos 1990, muitos movimentos sociais se institucionalizaram. Diversos ensaios recentes revelam essa forte institucionalização e segmentação política e social nas experiências associativas, além de avaliar o processo de participação social nas experiências de gestão participativa (como a do orçamento participativo). Mesmo na América Latina, vários estudos (como o de Christian Adel Mirza, "Movimientos sociales y sistemas políticos en América Latina", publicado pelo Clacso) relacionam nitidamente aquele conceito de movimento social (não institucionalizado) com o Estado e instituições políticas dos países do continente. Fica a dúvida: a "era dos movimentos sociais" teria terminado no Brasil? A fragmentação social em curso e a ampliação da participação da sociedade civil no interior do aparelho do Estado teriam reformatado o que antes denominávamos "movimentos sociais"? Os movimentos sociais brasileiros são representações ou parte integrante de anéis burocráticos de elaboração de políticas públicas? Segundo o IBGE, 75% dos municípios brasileiros adotam alguma modalidade de participação da sociedade civil na determinação de prioridades orçamentárias na área social. Motivados ou premidos pelas exigências constitucionais, pelos convênios com órgãos federais (dados importantes fornecidos pelo IBGE revelam que governadores e ministérios lideram a criação de conselhos de gestão pública paritários, muito acima das ações de prefeitos brasileiros) e Ministério Público, prefeitos de todo o país institucionalizam (e, muitas vezes, traduzem ou interpretam a partir de seu ideário peculiar) vários mecanismos de gestão participativa na deliberação de políticas locais.Se localidades rurais, conselhos de desenvolvimento rural sustentável, de meio ambiente ou de bacias hidrográficas pululam. Se localidades urbanas, conselhos de saúde, assistência social e direitos da criança e do adolescente proliferam. Onde estariam os movimentos sociais que antes exigiam inclusão social e fim da marginalização política?Estão todos nesses conselhos e nas novas estruturas de gestão pública. Ao ingressarem no mundo e na lógica do Estado, poderiam construir uma nova institucionalidade pública. Porém, foram engolidos pela lógica da burocracia pública. A multiplicação das conferências de direitos não foram incorporadas às peças orçamentárias na maioria dos entes federativos. Não alteramos a lógica de funcionamento e de execução orçamentária efetivamente. O aumento da participação da sociedade civil na gestão pública também não ensejou mudança na estrutura burocrática altamente verticalizada e especializada do Estado brasileiro nas três esferas executivas.Enfim, o ideário anti-institucionalista dos movimentos sociais brasileiros dos anos 80 converteu-se ao ideário do Estado que atacavam. Talvez por inconsistência teórica e programática, pautados pela mera negação ou pelo sentimento de injustiça. Mas, talvez, por excesso de partidarização dos movimentos sociais. Nos anos 80, não por coincidência, Frei Betto sugeria que sindicatos, partidos e organizações sociais eram ferramentas do que denominava "movimento popular". Tal concepção fomentou a criação da Anampos, organização nacional que articulava sindicatos de oposição à estrutura oficial do sindicalismo nacional e movimentos sociais. O mundo sindical achou caminho alternativo ao ideário dos movimentos sociais e se afastou da Anampos. E os movimentos sociais? Nos anos 90, eles se atiraram na tarefa de formalizar as estruturas de gestão pública participativa conquistadas na Constituição de 1988. Mas, a partir das estruturas criadas e com a eleição de Lula (o ícone do ideário dos anos 80), suas lideranças subsumiram à lógica do Estado. E não conseguiram mais se livrar dela. Basta analisarmos as pautas das conferências nacionais de direitos. São, com raríssimas exceções, a agenda definida pelo governo federal. Compreendo que esse é o cenário montado para o drama que se desenrola nos últimos dias quanto ao futuro do MST. Evidentemente, a organização popular mais poderosa do país, a única que ainda consegue gerar mobilizações sociais de massa, está se isolando politicamente. Isola-se a partir do governo que ajudou a desenhar, mesmo que apenas no seu esboço mais geral. E se isola porque seus aliados de antes estão imersos nos escaninhos do Estado.


RUDÁ RICCI, 47, sociólogo, doutor em ciências sociais, é membro do Fórum Brasil de Orçamento e do Observatório Internacional da Democracia Participativa.

E o Suplicy de Cueca Vermelha

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A cueca do Suplicy
Além de país da piada pronta, agora somos o país da piada ao contrário: o "Pânico na TV" decidiu proteger Eduardo Suplicy de si mesmo. A pedido do senador, o programa humorístico exibido domingo à noite concordou em retirar do ar a cena em que ele, vestindo uma cueca vermelha sobre o terno, corria imitando o Super-Homem pelo salão azul do Senado.O espírito cívico de Sabrina Sato e sua turma deu chance para que o corregedor da Casa, Romeu Tuma, se apressasse em fazer aquilo de que mais gosta: arquivar investigações contra os colegas. Salvo também pelo "Pânico", o xerife, desta vez, foi poupado de vexame maior.Sim, porque a cena de Suplicy com a cueca vermelha é obviamente ridícula e inadequada, mas sugerir, no Senado de José Sarney, dos atos secretos e dos compadrios descarados, que brincar de Super-Homem configure quebra de decoro parece -aí sim- piada de salão.Não será se agarrando ao moralismo mais tacanho que os senadores irão reparar seu notório descaso pela moralidade pública. E não foi por causa dos talentos artísticos de Suplicy que o Congresso -e em particular o Senado- se tornou parada obrigatória do "Pânico".De resto, é muito ilustrativo dos hábitos machistas que vários dos marmanjos eleitos ali se prestem ao papel de assistentes de palco de Sabrina Sato, desempenhando sorridentes diante das câmeras os números mais lamentáveis.Suplicy, nesse aspecto, se beneficia da fama de sonso. Há quem o considere uma presa fácil da mídia, mas também quem aponte sua habilidade para atrair as atenções sobre si. Em qualquer caso, o senador do PT lembra uma criança grande.Ele talvez seja o Brás Cubas do Senado. A renda mínima é seu emplastro, sua ideia fixa, o brinquedo da sua vida. Da cueca às políticas públicas, tudo parece se infantilizar e assumir feições lúdicas nas mãos de Suplicy. Deixemos Eduardinho brincar de super-herói com sua amiguinha. Que mal há nisso?
Artigo de Fernando Barros Silva na Folha de hoje.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Dia de Hoje



Dizem que o Rio está em guerra. Eu não acredito. A foto acima foi tirada hoje na favela Jacarezinho.



Enquanto isso, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o ministro dos Esportes, Orlando Silva, jogam bola durante uma visita ao estádio Arena da Fonte, em Araraquara (SP). Dilma falou sobre os confrontos no Rio de Janeiro, e afirmou que as mortes demonstram a falta do Estado nas comunidades.



Quem pode falar sobre falta de estado nas favelas de Bogotá é o presidente da Colômbia Álvaro Uribe que vem implementando, em seu polêmico e popular governo, política de integração social nas favelas colombianas. Mas não foi este o assunto que ele tratou com Lula que está preocupado é com instalação de bases militares americanas na Colômbia.

Fonte: Terra Galeria 24 horas.

O Que Há por Trás dos Artigos Que Consumimos?




Trabalhadores se aprisionam em baixo de um carrinho de compras gigante, em frente à sede da União Européia, em Bruxelas. Os ativistas protestaram para chamar a atenção dos consumidores para questionarem a procedência das mercadorias adquiridas, evitando assim o incentivo indireto ao trabalho escravo na produção dos bens de consumo.
Fonte: Terra Galeria 24 horas.

Uma perguntinha, o que significa trabalho escravo em pleno século XXI?

Brasil Um País do Futuro?


Por falar em Guerra no Rio. Por falar em Austríacos. Por falar em Copa e Olimpíadas. Por falar num Brasil melhor e possível.


Nem mito nem realidade


Nos dias que correm, não há como não nos lembrarmos de Stefan Zweig e de seu "Brasil - Um País do Futuro", publicado em 1941. Como se sabe, Zweig, um judeu austríaco, conheceu o Rio de Janeiro em 1936 e voltou com a mulher quatro anos depois, fugindo dos nazistas e abandonando uma Europa envolvida em sangrenta guerra motivada em parte por ódios raciais. O país o fascinara desde o primeiro encontro. Sobretudo, causou-lhe forte impressão a imensa salada étnica que viu nas ruas do Rio de Janeiro. Esse impacto inicial não esmoreceu até sua morte e a da mulher, em Petrópolis (RJ), em 1942. Ele refletiu-se com nitidez no apanhado que fez da história brasileira no primeiro capítulo do livro. Os fatos são tirados dos manuais conhecidos. Mas o viés da narrativa é o mesmo do livro do conde Affonso Celso, "Por Que Me Ufano do Meu País", publicado em 1900. O povo brasileiro seria dotado de um caráter congênito em que sobressairiam a tolerância, sobretudo a racial, o espírito de conciliação, a tendência à solução pacífica dos conflitos internos e externos. A essas qualidades se acrescentava o dom de uma natureza rica e generosa. Com tais atributos, o Brasil estava, segundo ele, destinado a apresentar ao mundo, sobre os escombros da Europa, um novo modelo de civilização. O Brasil era o país do futuro. O livro de Zweig inscreve-se em longa tradição nacional que vem alternando, em termos extremados, visões negativas e positivas de nosso povo. Os que só veem nele qualidades foram chamados de ufanistas, como Affonso Celso, ou, em linguagem popular, de "turma do oba-oba". Os que nele só enxergam mazelas foram estigmatizados por Nelson Rodrigues como vítimas do complexo de vira-lata. De fato, e para ficarmos apenas no período republicano, para cada Affonso Celso houve um Manuel Bomfim; para cada Oliveira Vianna ou Paulo Prado houve um Gilberto Freyre; para cada Raymundo Faoro houve um Darcy Ribeiro. Em contraste, sobre a terra houve unanimidade desde Américo Vespúcio: é grande, rica e bonita por natureza. Nosso motivo de orgulho nacional, pesquisas o demonstraram, passou a ser a natureza. Futebol e euforia Criou-se um paradoxo e uma frustração: como é possível que, com uma terra dessas, não consigamos construir um grande país, uma grande potência, como fizeram os Estados Unidos? Numa terra radiosa, vive um povo triste, sentenciou Paulo Prado em "Retrato do Brasil". O título do livro de Zweig transformou-se em ironia: somos, e seremos sempre, o país do futuro. Houve de vez em quando em nossa história surtos de euforia. Para não ir longe, o mais óbvio, ainda vivo na memória de muitos, foi o dos "anos dourados" de Juscelino Kubitschek [1956-61]. Combinaram-se vários fatores positivos: a inspiração de um presidente democrático, altas taxas de crescimento, uma explosão de criatividade na literatura, no cinema, nas artes e, principalmente, uma taça Jules Rimet. O que poderia ter sido o surto seguinte, nos anos 1970, com o alto crescimento, sonhos de Brasil grande potência e mais uma Copa do Mundo, foi abortado pela falta de liberdade. A seguir vieram longos anos de pessimismo, de vira-latismo. Sem milagres Desde o Plano Real vêm sendo construídas as condições para um novo surto. Trabalho e sorte acabaram por fazer ressurgirem os ingredientes clássicos: uma liderança presidencial inspiradora, uma economia em ordem, embora não tão dinâmica, um presente da natureza no pré-sal, uma Copa do Mundo em 2014, Jogos Olímpicos em 2016. Novos sonhos de Brasil grande, já adormecidos, renasceram na política externa. As condições internas e externas parecem mais favoráveis do que nunca para a decolagem. Há, no entanto, um grande inimigo da vitória sobre o vira-latismo: a invasão do oba-obismo. Nada está garantido. O crescimento econômico pode não deslanchar, a Copa e a Olimpíada podem fracassar, a abundância de petróleo pode transformar-se em maldição. Apesar de todas as grandes melhoras recentes, o país continua sendo campeão de desigualdades, apresenta níveis vergonhosos de escolaridade, instituições pouco confiáveis, cidades dominadas pela violência, depredação da fantástica natureza. Êxito mais duradouro desta vez dependerá de trabalho duro em todas as frentes reconhecidamente indispensáveis para a decolagem. Dependerá da ausência de oba-oba. Não haverá milagres. Nem pessimismo nem euforia levam a lugar nenhum. Melhor dito, levam apenas ao país do futuro. Não era certamente isso que Stefan Zweig pressagiava para nós.
Artigo do professor José Murilo de Carvalho, historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de "A Construção da Ordem/Teatro de Sombras" (Civilização Brasileira).
Caderno Mais! da Folha de ontem.

Guerra no Rio


Glauco


Iotti

Artigo da antropóloga Alba Zaluar na Folha de hoje:


Polícia ainda é reativa

Os acontecimentos se sucederam tão rapidamente que deixaram os moradores sem fôlego, mas com a pulga atrás da orelha. Primeiro, os trens inexplicavelmente atrasados e parados, populares revoltados fazendo quebra-quebra. As evidências de sabotagem continuam sem investigação conclusiva. Depois, as invasões de favelas dominadas por outros comandos, cada vez mais espetaculares, com artilharia aérea que derruba um helicóptero.Por fim, os oito ônibus e um carro, todos queimados em áreas dominadas pelo Comando Vermelho, aliado do PCC.Considerando o estilo similar, parece que os dois comandos estão mesmo aliados.Mas era de se esperar que invasões e ações violentas fossem ocorrer. E os serviços de inteligência da polícia já haviam detectados alguns sinais. Poucos ainda, considerando o volume de operações na cidade que prejudicavam os negócios dos traficantes.Primeiro, a expansão das milícias, o comando azul que proíbe a entrada de armas, de traficantes e assaltantes, mas espanca, expulsa e mata quem não obedece suas leis na "comunidade", além de fazer outros negócios escusos com o transporte "alternativo" e na cobrança de taxa em qualquer transação imobiliária na "comunidade".As favelas mudaram de cor: em 2005, a grande maioria era vermelha, hoje a maioria é azul.Da zona oeste, as milícias já invadem a área mais próxima do aeroporto, do porto e da baía de Guanabara: os subúrbios cariocas. E ensinam que o controle no acesso às armas é possível.Depois, a ocupação permanente de favelas em pontos muito lucrativos de venda de drogas localizados nas áreas mais ricas e mais centrais da cidade. Ainda em andamento, aplaudida por muitos que vivem dentro e fora de comunidades, cercada de segredos e pouco discutida, essa operação não aproveita aquilo que revolucionou as polícias dos países do primeiro mundo: a proximidade com os moradores e a discussão conjunta dos problemas locais para traçar as prioridades na segurança.Certamente, a circulação de armas nas favelas, a mais grave insalubridade que hoje se encontra nelas, a que mais mata prematuramente seus filhos, seria uma delas.As ações dos últimos dias podem ser interpretadas como uma mensagem dura dos traficantes para o governo que atrapalha seus negócios. Mas certamente é também a prova de que as rotinas de uma polícia reativa, estabelecida há décadas nas polícias brasileiras, ainda não foram substituídas pela estratégia que permite antecipar-se às ações criminosas, como estas a que assistimos estarrecidos na telinha/ona da TV.
ALBA ZALUAR, antropóloga, é coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Violências da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

sábado, 17 de outubro de 2009

Grande Bastardo Cristoph Waltz



Cristoph Waltz é austríaco. Ele faz o papel do inefável coronel Hans Landa, oficial nazista educado, poliglota, dandy, cínico e muito malvado. Grande ator esse Waltz. Ganhou a Palma de Ouro de melhor ator pelo filme Bastardos Inglórios.

Trailer Bastardo

A Cínica Vingança Bastarda




O personagem central de Bastardos Inglórios não é Brad Pitt, aquele que manda escalpar os malditos nazis, mas Cristoph Waltz, oficial alemão poliglota, educado, culto, tem boa conversa, exala finesse e jeito dandy. Tem horas que o cabra fica tresloucado. Ele é um detetive chamado: caçador de judeus. E por isso ele é malvado. Muito malvado. Sabe como é que os judeus estão se vingando dos nazistas? Através do cinema. Essa é a grande sacada do último filme de Tarantino. O sonho judeu é queimar os nazistas dentro de um cinema. E Tarantino garante o sonho. Eu pago a bilheteria.

Tarantino é de Knoxville, Tenessee. Uma cidade caipira, onde nasceu Aldo Raine ( Brad Pitt) que convoca os inglórios bastardos para uma revanche, uma vingança contra os malditos nazis. O western de Sérgio Leone entra em cena, com direito a muito escalpe. O movimento de câmera é típico. O velho clichê dos westerns, os malvados se aproximam da família intimidada. O pai diz para as filhas se esconderem dentro de casa. Os malvados estão chegando. Eles se aproximam. A música envolve. E o malvado chega. É o coronel Hans Landa. Surpresa, ele é simpático, boa conversa, super educado, recusa o vinho oferecido, mas aceita o copo de leite recém tirado da vaca. Um sujeito perspicaz, perigos e muito, muito, muito cínico. No final das contas, a grande tragédia: o coronel chama os soldados que disparam suas metralhadoras contra a família judia. Todos morrem, menos a mocinha que corre chorando pelo campo. Corta.

A mocinha judia se chama Shosanna Dreyfus e é bem bonitinha. O tempo passa e ela é dona de um cinema na Paris ocupada. Um heroi nazista se aproxima - é o soldado Frederick Zoller (o Daniel Bruhl do Adeus Lenin) que matou 300 inimigos no alto de um campanário e fez um filme propaganda contando sua própria história. Ele se prepara para a grande estréia. Zoller parece queridinho, fala bem francês, se apaixona por Shosanna. O casal até combina. Parecem pombinhos. Mas a lindinha gosta mesmo é do negrão que trabalha com ela operando a máquina do cinema. Notável. O bonitinho herói nazi não desiste, intima e convoca Shosanna para um coquetel nazi. E, quem diria, a judia bonitinha - obrigada - está ali comendo tortas de maçã com aquele cínico oficial alemão que mandou trucidar, com os tiros do ódio, sua querida família. Ele oferece para ela um copo de leite. Corta de novo.

O cinema é mesmo um bom local para se fazer uma revanche. Convoca-se todos os malvados para assistirem a grande estréia do novo herói. Aquele que matou 300. Ato contínuo, lacra-se as portas com barras de ferro e a chama do cigarro que queima forte se mistura com os rolos dos filmes derretidos. Dito e feito, os corpos brancos dos malditos nazis estão ali todos cremados. É a glória. A vitória dos bastardos inglórios. O prato da vingança, definitivamente, se come pelos cantos. Os filmes de Tarantino sempre terminam com poucos personagens. E todos eles ficam marcados.

Bastardos Inglórios




Tarantino continua despojado e cru. Dizem que ele destroi, que é pós moderno. Que mostra a vida que é. Mas ele exagera no que é. Dizem que Tarantino é canalha, é bastardo, é um bastardo inglório. Não existe ilusão, não existe esperança, nossa vida simplesmente má. Nós malvados e viventes somos revanchistas, adoramos vinganças, amargamos ressentimentos e tudo é cruel. Mas a crueldade, of course, tem de der boas gotas de diálogos cômicos e inteligentes.

Como disse o Zé Pedro Goulart -- se referindo a Pulp Fiction -- : Comunico-lhe que a ética está por um fio, que Deus não existe, que a IBM existe, que a violência ultrapassa a razão.”

O bolo, o deboche e os sentimentos nobres
Artigo de Zé Pedro Goulart publicado na ZH de hoje.

Cães de Aluguel e principalmente Pulp Fiction aparentemente esgotaram o estoque de maldades de Tarantino. Quinze anos depois e nada de novo, Jackie Brown, Kill Bill 1 e 2 – embora divertidos – e agora Bastardos Inglórios apenas repetiram a receita inovadora do bolo cinematográfico criado pelo diretor.Alguns ingredientes desse bolo:1) Montagem inovadora;2) Trilhas meticulosamente pesquisadas;3) Violência estilizada;4) Referências de filmes.E como cobertura, uma grossa camada de deboche. Tarantino sempre tratou o épico no cinema com desdém. Tirou as fórmulas consagradas do pedestal, experimentou novas elipses narrativas, e fez do sangue jorrando uma espécie de pacto orgástico com o espectador. Nesse bolo Pulp Fiction é a cereja. Abordagem semelhante, aliás, a do cinema dos irmãos Cohen. Embora os Coen estejam em um patamar superior no quesito evolução.Bastardos Inglórios começa como se fosse um faroeste – os bandidos chegam, as crianças/adolescentes/assustadas se recolhem, e o pai fica só. Em seguida um longo e intrigante dialogo irá detonar a trama. Opa, penso: o filme promete. Mas logo me decepciono, a promessa é apenas parcialmente cumprida. Escravo do deboche, Tarantino parece compelido a um cinema de segunda categoria. Criador de um cinema que derrubou conceitos, o diretor virou refém do novo conceito que ajudou a estabelecer.Isso aparece na caracterização dos Bastardos, uma brigada antinazista que reúne um grupo de judeus que escapou dos alemães. Entre escalpos nojentos, planos mirabolantes, tarefas improváveis, eles fazem com que um tom farsesco, tome conta da tela e o filme escorregue para a paródia/trash. E a paródia quando em excesso é um ingrediente que pode abatumar o bolo.Mas há méritos eloquentes. Os longos diálogos de interrogatório por exemplo; além do já citado do início, o da taberna é impagável. E, sobretudo, o tema mais explorado por Tarantino em todos os filmes que fez: a vingança. Histórias de vingança produzem uma catarse inigualável. Os personagens lavam a alma do espectador. Ao escolher o nazismo como tema, Tarantino pôde servir um prato cheio disso: pau no Hitler e sua cambada nunca é demais.A novidade é que os vingadores são os próprios judeus que ainda por cima – ironia do diretor – incineram os nazistas. Mas ao invés de fornos, ou câmaras de gás, os vilões enfrentam o fogaréu dentro de uma sala de cinema. O celuloide é matéria-prima desse fogo – no cinema tudo é possível.Quentin Tarantino não acredita – e se acredita não propaga em seus filmes – em sentimentos nobres. Uma cena exemplar em Bastardos Inglórios é aquela em que a mocinha judia, depois de atirar no alemão, se apieda dele. Ela se aproxima lentamente, mas o sujeito – de surpresa e mesmo ferido à beira da morte – descarrega o revólver nela.Bom, é isso. Especulo se as críticas que fiz não foram para agradar o Luís Augusto Fischer aí ao lado, um velho inimigo das ideias do diretor americano. Mas se no mundo de Tarantino não há vaga para o amor – ou piedade – no meu há. De maneira que dou um abraço no Fischer. Só espero que ele não traga escondido um revólver por baixo do casaco.






Zé Pedro Goulart

Gloriosos Bastardos



Assisti ontem ao último filme do Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios. Vou comentar depois. A ZH de hoje traz dois pontos de vista sobre Tarantino e seu último filme. O primeiro é de Luiz Augusto Fischer.

A truculência narrativa em busca de uma causa

Abril de 1995: fui assistir a Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. O diretor vinha de um relativo sucesso com outro filme em que uma de suas marcas, a violência grosseira, já mostrava a ponta da aspa; em Pulp Fiction entrava em ação outra camada expressiva, mais ao gosto do freguês culto ou semiculto, composta de alusões a estilos narrativos anteriores, numa rodada a mais daquilo que então estava na moda universitária e midiática e que vinha de se chamar “pós-modernismo”.Fui ver aquele filme e me incomodei; escrevi então para a Zero Hora um texto indignado, dizendo que Tarantino excitava a plateia mas não levava adiante a energia convocada, numa operação que me parecia resultar em nada, ou pior, era uma pirotecnia a serviço do narcisismo ululante de nossos tempos – aqueles, mas também estes aqui –, uma canalhice com o espectador que, emprestando ao filme o que ele tem de melhor (sua subjetividade, sua atenção ao mundo, sua vontade de entender o que se passa), recebia de volta um muxoxo, uma piada grosseira.No fundo, aliás, minha crítica ao Tarantino era a mesmíssima que Machado de Assis fez ao Eça de O Primo Basílio. Assim como o mestre brasileiro, eu também fico indignado com personagens fracos, com inconsistência por assim dizer anímica de uma narrativa (filme ou romance, tanto faz) e, mais ainda, com apelação grossa. Não tenho nada contra cena de sexo ou figuração de violência: minha questão é o que o autor faz com isso dentro de sua história, de que modo captura a força da cena para compor o drama e com isso compartilhar com o espectador/leitor aquilo que vale a pena – nossa condição humana, nossas incertezas, nosso desejo. Só isso. Tudo isso.Pois agora, em Bastardos Inglórios, Tarantino é o mesmo em procedimento narrativo, mas é outro na matéria que aborda. Ao contrário do quase anódino enredo de Pulp Fiction, aqui ele conta com a força da história, o nazismo na França ocupada, nada menos que isso e tudo que isso implica, como a nunca totalmente resolvida e sempre tortuosa culpa da comunidade judaica em haver sucumbido à truculência, em não haver sido suficientemente heroica, num circuito aporístico que não encontra elaboração nem paradeiro final. Agora, com um roteiro excelente – em que as peripécias estridentes que continua praticando se colocam a serviço de uma questão extraformal, quer dizer, histórica mesmo – e surfando no ótimo ritmo narrativo, o já calejado Tarantino encontra uma síntese muito interessante.Não é apenas porque mobiliza sua truculência narrativa contra o nazismo, um inimigo que continua a merecer combate, mas também por isso, seu filme permite uma empatia que transforma o espectador num aliado, ainda não tratado como adulto emocional (o diretor ainda nos pega pelo fígado, não pela mente ou pelo coração), mas ao menos considerado como alguém que pode medir suas emoções com as do filme e as da vida real. (De quebra, oferece um altar muito eloquente para aquela tortuosa culpa: se na vida real houve alguma covardia, o filme oferece uma expiação simbólica radical naquele comando homicida composto só por soldados judeus, mais o caipira simplório que os comanda.)Agora, aquela violência final em que rolos de filmes, a sala do cinema e centenas de nazistas pegam fogo, estará ela sugerindo que o cinema precisa se imolar para poder dizer o que precisa ser dito? A história, na visão de Tarantino, só encontrará sua purgação contra a arte de massas? Será que quando a violência está a serviço da boa causa deve ser não apenas perdoada mas também saudada? Acaso aquele filme do exemplar soldado nazista, que está estreando no cinema parisiense dramatizado no filme de Tarantino, não foi também saudado como bom e justo pelos que apoiavam Hitler? Haverá diferença substantiva entre eles e nós, ou entre Leni Riefenstahl e, digamos, Quentin Tarantino, então? Boas perguntas, boa matéria para nova polêmica.




LUÍS AUGUSTO FISCHER