Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ditabranda



O diário gauche de hoje tá brabo com a Folha.

Leiam o Post, eu comento depois:

Branda para quem, cara pálida?

Quando o próprio Departamento de Estado dos EUA e vários jornais conservadores norte-americanos consideram e reconhecem o caráter popular-democrático dos processos em curso na Venezuela, Bolívia e Equador, o jornal tucano-serrista Folha de S. Paulo – o mesmo que emprestava veículos da sua frota para operações inconfessadas dos órgãos de repressão da ditadura civil-militar de 1964-85 – continua insistindo com a sua cruzada contra Hugo Chávez e outros governantes sul-americanos que estão cortando os laços do Estado com as oligarquias locais.Como se não bastasse, criou um neologismo infame para reconceituar a ditadura brasileira que golpeou Goulart em 1964. Segundo a Folha, nós experimentamos uma “ditabranda”, e alinha motivos de ficção para por de pé esse re-conceito mole e insustentável (editorial de 17/02/2009, fac-símile parcial acima).
Para o jornal da família Frias deve ter sido mesmo uma situação branda, já que se pode imaginar as contrapartidas que o regime de repressão e arbítrio deve ter concedido ao grupo Folha, antes de 1964, editores de um obscuro diário da cidade de São Paulo.A professora Maria Vitória Benevides escreve, em carta enviada ao jornal e publicada hoje, no Painel do Leitor:"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de 'ditabranda'? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar 'importâncias' e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi 'doce' se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala - que horror!"O jurista Fábio Konder Comparato também escreve:"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana."Já a redação do jornal Folha de S. Paulo, publica hoje a agressiva nota:"Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa."
Barbosíssima.... Carambolas!
Entre a opinião da porra louca da Benevides e da Folha eu fico com a Folha.
Sério, se se comparar o golpe e ditadura militar brasileira com os regimes da Argentina, Chile e Uruguai, podemos dizer sim que houve uma ditabranda. É só contabilizar o número de mortos e torturados. Mas ditadura não se justifica nem aqui e nem lugar nenhum.
É muita hipocrisia. Curioso, por que esses mesmos personagens -- que se encontram tão melindrados -- sempre se calam diante de uma dinastia tirana e de um complicado regime bolivariano onde o carismático tem todo o poder do mundo?
E esse pessoal quer controlar a mídia em nome de interesses "populares e republicanos".
Eu não quero ser refém desses interesses que não são nem populares e nem republicanos.
Tirem a Globo do ar e voces verão o protesto maciço do povo brasileiro. Muito melhor uma mídia gerada por uma elite econômica, onde a diversidade tem muito mais condições de preponderar, do que uma mídia controlada por uma elite política que adora a grife Guevara. Volto a dizer, é muita hipocrisia.

Enquanto isso....




Enquanto o RS patina diante do embate político e das denúncias sem provas, nossa educação está de mal a pior. A maioria dos alunos de escolas públicas não satisfazem as metas básicas.

Isso é resultado de um crônico problema: gestão ineficiente do Estado.

Outro dia alguém disse uma frase interessante, o professor em sala de aula tem medo de exercer o papel de conservador, de repressor, de autoritário, um uma pessoa que impõe limites. Mas não é esse, também, o papel de um professor?

Um governo tem que ter a coragem de arregaçar as mangas e mexer nas estruturas arcaicas do Estado do RS. É fundamental, num processo de gestão, a realização de avaliação dos professores. Todavia, como a sociedade gaúcha é testemunha, esse tipo de ação não está em sintonia com os interesses do status quo. Esses interesses são representados pelos sindicatos dos servidores que estão alinhados com certos partidos políticos.

E por trás de todo esse teatro de marionetes está a campanha eleitoral de 2.010. Quem é que vai ganhar, Serra ou Dilma?

Estamos, no Brasil e no Rio Grande, na pré puberdade da vida política que é tão importante para o exercício da boa democracia. Mas os políticos instituíram e sacramentaram uma péssima prática: o loteamento dos cargos públicos entre os partidos políticos que compõem a aliança vitoriosa.

Assim, as autarquias, as empresas públicas, os órgãos da administração direta e indireta deste Rio Grande cartorial são distribuídos entre os partidos. E os princípios consagradoras da boa administração pública como da eficiência, da impessoalidade, da transparência etc.. vão todos para o espaço.

Quando estourou o escândalo "escandaloso" do Detran-RS esse assunto veio a tona e o César Busatto disse com todas as letras como funciona a política neste complicado Estado. O pecado de Busatto não foi o de ter admitido essa verdade institucional, mas a omissão do governo diante dos fatos da picaretagem. É a política do "deixe estar, eles são aliados".

É tudo muito podre nos bastidores da política.

Diante desse contexto complicado, a oposição ao governo Yeda - de olho em 2.010 -- tenta passar ao RS que a corrupção no governo tucano é generalizada. Não existem bonzinhos no reino da maldade. Mas parece existir, também, uma estratégia de divulgar fatos a conta-gotas para fazer um governo sangrar até o final.

O Conspirador



O Tarso Genro, que é hoje chefe da Polícia Federal está de olho no governo gaúcho. É normal um pai contar segredos e intimidades com sua filha. Luciana Genro não divulgou a fonte das denúncias feitas ontem, mas disse que eram fontes confiáveis. Resta saber se elas vieram via Tarso ou via delegado Protógenes, filiado ao PSOL.

O caso parece ser grave. Se as provas existem elas estão sob custódia da Polícia Federal. Se a PF não divulgou as provas é porque elas estão sendo analisadas. Ou não! Talvez elas nem existam. Tudo muito nebuloso. Por que, na época, a PF -- que divulgou diversas conversas -- não apresentou os vídeos do Lair Ferst, que é o sol, o centro de todo esse complicado universo? Talvez, porque Lair tenha entregue (seu advogado nega) essas provas em delação premiada. Estranho um cliente não contar isso ao seu advogado. Tem muita névoa nesse céu.
O Rio Grande do Sul é um campo estratégico na eleição presidencial de 2.010. Nos últimos anos, os votos dos gaúchos, bem como dos paulistas e a maioria dos Estados da região sul, foram parar no ninho tucano. O PT quer reverter isso. E Tarso parece ter sido designado para "resolver este problema."
Quem está dizendo isso, não é esse redator de um Blog de quinta categoria, mas um figurão tucano, como noticia a ZH de hoje.
A tática eleita é fazer o governo Yeda sangrar até o final divulgando denúncias a conta-gotas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

PSOL Acusa, Mas Não Apresenta Provas



Você que é de Porto Alegre, sabe aquele cartaz que está ali no muro da esquina com os dizeres "Fora Yeda"? Foi o PSOL que colou ele ali. Hoje, na rua da República, os principais nomes do partido do socialismo e da liberdade concederam uma bombástica entrevista. Dizem eles, o governo Yeda é corrupto, todo o governo Yeda é corrupto, inclusive os secretários mais queridinhos. Definitivamente, parece não existir beleza no reino da maldade.

O centro das nove denúncias é o lobbista Lair Ferst. Ele é o sol. O "pessoal do PSOL" disse que tem a voz do Lair , gravações de vídeo gravadas por ele, em conversas complicadas na época da campanha eleitoral da Yeda e em reuniões de governo.

Como é que a polícia federal conseguiu essas gravações? Por acaso, Lair Ferst fez delação premiada ?

Eu quero ver essas imagens, prometo (de pés juntos) que vou colocar aqui neste depósito.

Sintonizo na Rádio Gaúcha, está ali o incrédulo do Wianey Carlet que entrevista diversas pessoas
. O advogado de Lair Ferst, um tal de Dr. Constantino, afirma desconhecer essas gravações de seu cliente. Será que Lair omitiu esse fato importante de seu advogado? Até mesmo o ex secretário Aod estaria envolvido. Eu não acredito em papai noel, coelhinho da páscoa etc, mas eu acredito no Aod. O Aod - que é um cara tri sério - foi ouvido e negou tudo, disse que nunca recebeu dinheiro de ninguém.O empresário Humberto Busnello, citado pelo PSOL, teria entregue zilhões de reais para Lair Ferst. Surpreso ele disse que não conhece e nunca se encontrou com o complicado lobbista.

Tudo é muito estranho nesse jogo de poder.

Os caras geram um temporal -- que causa um estrago tamanho no governo -- e não apresentam provas....

Por fim, o PSOL tenta fazer uma certa ilação entre a morte do Sr. Marcelo Cavalcante em Brasília e os fatos envolvendo o governo da Yeda, no sentido de que ele estaria acertando com o Ministério Público Federal uma delação premiada. O encontro seria no dia 5 de março.

O enigma está aberto.

Notas Sobre Um Suicídio




Um homem é encontrado morto no leito do lago Paranoá em Brasília junto a ponte. Esse homem foi representante do governo do Rio Grande do Sul em Brasília, era ligado a governadora. O fato, por si só, é intrigante. E as intrigas vendem jornais e movimentam os Blogs. A mídia se manifesta. A hipótese de que tenha ocorrido suicídio é forte, mas certos Blogs torcem o nariz para o que diz a grande mídia, pois ela sempre "manipula" as informações para "defesa" de seus interesses.

Leio no Diário Gauche o seguinte post que depois comento:

Sete questões que não querem emudecer
Ontem à noite conversei com um especialista em assuntos policiais. A propósito da morte misteriosa do ex-assessor de gabinete da então deputada federal Yeda Crusius (PSDB), ele me esclareceu e me confundiu com algumas informações, como:1) É raríssimo suicídio por afogamento, tanto mais se o local escolhido for nas águas serenas de um lago, onde não há correnteza, redemoinhos ou ondas.2) Qual o motivo de apressar o sepultamento do corpo? O corpo foi encontrado no amanhecer de terça-feira, ontem à tarde já estava sepultado.3) Por que não houve perícia técnica para examinar as vísceras do corpo? Em casos de suspeita de morte por afogamento é fundamental examinar a presença de microalgas no interior do pulmão da vítima. O exame legista pode dar respostas sobre agressão antes ou depois do óbito e qual foi de fato o agente causador do mesmo.4) Como a hipótese de suicídio é remota, por que pessoas do centro do governo Yeda logo classificaram de forma perempta e uníssona, sobretudo uníssona, a morte por suicídio? Seria uma orquestração? De quem? O meu interlocutor estranha a carta de Carlos Crusius que não disse a que veio, salvo para afirmar categoricamente que Marcelo Cavalcanti foi levado ao suicídio. Ficou evidente a “palavra de ordem” de Crusius: morte por suicídio e ponto final.5) A mídia amiga e os correligionários do falecido passam a repetir a hipótese do suicídio como uma verdade absoluta, fazendo cortina de fumaça para outras hipóteses e especulações menos ingênuas.6) Uma questão importante: a Polícia Federal está investigando o caso?7) E o mais intrigante: “por que a mídia amiga – ZH e CP, especialmente – não levantam isso que eu estou dizendo aqui no nosso diálogo? Afinal, essas questões que aponto são elementares, como beber um copo d’ água, para um bom repórter policial” – arrematou o meu atônito interlocutor.Um dado hilário da cartinha de Carlos Crusius: quem seriam os stalinistas que levaram Marcelo Cavalcanti à morte? Onde vivem esses stalinistas, do quê se mantém, e como se alimentam esses seres exóticos? Será que esses stalinistas possuem armas de destruição em massa nas garagens de suas casas? Vêem o BBB na TV ou preferem a leitura das obras do GGP – guia genial dos povos?Carlos Crusius fica devendo essa. E a governadora Yeda fica devendo uma manifestação sobre o caso de seu ex-assessor "suicidado".

Barbosinha!

É impressionante como certa esquerda tem memória seletiva. Ela esquece e deleta os fatos mais importantes, porque tem a compreensão "ideológica" de tudo. Ora, se a ideologia está até na matemática e nas ciências exatas, porque ela não estaria presente em todos os fatos e nas coisas da vida? Inclusive nas versões do suicídio. Ora, fato fundamental e que foi omitido no post é que o tal do Cavalcanti ligou para a mulher e para filha na véspera do fato comunicando que iria passar para outra vida. Esse é o típico gesto de um suicida. É muito comum o suicídio em pontes. Se zilhões de pessoas se jogaram da Brookling Bridge em NYC, porque elas não poderiam se jogar de uma ponte no Paranoá? E mais, tudo aconteceu em Brasília, onde dormem o Lula, a Dilma, o Tarso e a Polícia Federal... E o Feil vem dizer, com todas as letras, que a hipótese de suicídio é remota.... Essa "visão ideológica de mundo" está levando certas pessoas ao delírio.

Morte violenta, inclusive suicídio, tem que fazer autópsia. A Polícia de Brasília deve ter feito a autópsia. Uma coisa é certa, o depoimento desse cidadão -- que sequer foi indiciado na operação Rodin -- estava o deixando muito incomodado. De origem simples esse senhor viu a grande chance de sua vida ir para o espaço quando foi registrada uma conversa dele intercedendo em favor do gângster Lair Ferst. Yeda o demitiu sumariamente. A chance perdida e seu nome estar vinculado a uma picaretagem geram distúrbios psicológicos. Ninguém está aqui defendendo governos, mas falando e analisando fatos. A chance de ter havido homicídio, neste caso, é remotíssima. O resto não é nem ilação, mas delírio puro. Tadinhos!

Notas Sobre o Fim de Um "Affair"


Notinhas na Coluna da Monica Bergamo de hoje:

DESPEDIDA
A ex-prefeita Marta Suplicy e Luis Favre estão separados. Depois de oito anos juntos, eles tomaram a decisão nesta semana e já passam o Carnaval solteiros.
DESPEDIDA 2
O casal já enfrentava crises há algum tempo e tentava superá-las. Na sexta passada, Favre participou do jantar em que Marta homenageou a ministra Dilma Rousseff em sua casa, em SP. Mas as divergências não foram superadas.

Angeli


Coronel Chávez


Presidente vitalício
Kenneth Maxwell, Folha de hoje.

Em dezembro de 2007, Hugo Chávez foi derrotado em um referendo no qual propunha manter-se no poder por prazo indefinido. Mas o coronel Chávez não aceita um não como resposta. Por isso, no último domingo, ele tentou de novo. Por 54,9% a 45,1%, o eleitorado venezuelano votou em favor da possibilidade de reeleição ilimitada para Chávez e para todos os outros detentores de cargos eletivos no país. Chávez é um estranho fenômeno. Militar, ele desfruta do apoio dos pobres, mas é odiado pela elite. Ataca os Estados Unidos sempre que pode, mas a Venezuela continua a fornecer petróleo ao mercado norte-americano.De muitas maneiras, ele pode ser considerado um populista à moda antiga, mas proclama um novo socialismo do século 21. Sua filosofia é uma mistura de retórica bombástica e exortação, mas ele propicia benefícios reais às camadas mais baixas da sociedade venezuelana. Acima de tudo, Chávez é um sobrevivente. Desde que chegou ao poder pela via eleitoral, com 56% dos votos, dez anos atrás, ele vem conseguindo se reeleger sem dificuldade. Utilizando os oportunos superávits que os altos preços do petróleo propiciaram, ele conseguiu expandir a influência venezuelana na América Latina e mais além. E, como consequência, expandiu também sua influência desde Cuba até o Irã -e também dentro da Opep. Desde que reafirmou o seu controle sobre a companhia estatal de petróleo, em 2003, a economia venezuelana cresceu em mais de 90%, ou mais de 13% ao ano. Mas há sinais de alerta. A despeito da derrota sofrida domingo, a oposição ao seu domínio ganhou força. E o impacto da crise financeira mundial não pode ser controlado indefinidamente. A disparidade entre consumo e produção se alargou de maneira exponencial. A Venezuela continua a importar 70% de seus alimentos e roupas, e o país se tornou mais dependente que nunca da receita propiciada pelo petróleo. A inflação anual atingiu a marca dos 30%. Na terça-feira desta semana, um barril de petróleo estava sendo negociado a US$ 34 em Nova York. Um ano atrás, o preço era de US$ 100.Os observadores críticos a Chávez alegam que isso significa que a Venezuela se tornou um país dotado de recursos, mas desprovido da capacidade de criar riqueza. A maneira pela qual Chávez interpretará sua vitória eleitoral esta semana é incerta, e sua decisão quanto à necessidade urgente de reforma não pode demorar demais. Mas, dado seu retrospecto, não é certo, de maneira nenhuma, que Chávez optará pelo caminho da moderação.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Tadinhos dos Delirantes


Post do Diário Gauche de hoje

RBS Segue Bisbilhotando

O que querem aqui, por mais de 48 minutos?

Aqui não tem business, não tem dinheiro, não tem notícia, nada para copiar e nem refresco de groselha.O que querem aqui?

Meu comentário:

Tadinhos, eles acham, acreditam piamente que a RBS está preocupada com o Diário Gauche! Essa gente não tem a mínima noção da realidade do mundo das corporações e do mercado. Aliás, esse é o grande problema de certa esquerda, ela não entende titica de mercado -- e o pior, não faz nenhuma questão de entender -- e começa a delirar por qualquer abobrinha da vida.

Tadinhos.


"Democracia Bolivariana"


Eurodeputado Luiz Herrero

"A polícia se atirou sobre mim e me senti sequestrado", diz eurodeputado expulso da Venezuela

El Pais

O governo da Venezuela expulsou no sábado o eurodeputado Luis Herrero, que estava em Caracas na qualidade de observador internacional do referendo de domingo passado, que afinal abriu as portas para a reeleição indefinida do presidente Hugo Chávez. As autoridades venezuelanas consideraram "lesivas" as declarações do eurodeputado espanhol do Partido Popular, nas quais ele criticou a ampliação do horário de votação e qualificou Chávez de ditador.O governo espanhol convocou no próprio sábado o embaixador venezuelano, Alfredo Toro, e lhe manifestou sua queixa pelo tratamento recebido pelo parlamentar, que foi privado da imunidade consular. O Ministério das Relações Exteriores pretende apresentar uma nota de protesto formal. O presidente do Parlamento Europeu, Hans-Gert Pöttering, qualificou a expulsão de Herrero como "desprezo pelas instituições democráticas".Segundo a versão do governo espanhol, Herrero "foi convidado a deixar o país". O eurodeputado e seus acompanhantes, entre os quais seu correligionário Carlos Iturgaiz, pintam um quadro diferente. "Apresentou-se no hotel um funcionário das Relações Exteriores acompanhado de seis ou sete policiais. Me perguntaram se era o deputado Herrero. Assim que respondi que sim, atiraram-se sobre mim", explica o eurodeputado por telefone, de São Paulo. "Um me segurou pelo pescoço, outro pelos braços, outro me empurrou pela cintura. Me tiraram dali como se me levassem na cadeirinha da rainha. Carlos Iturgaiz se portou como um valente. Tentou interpor-se no caminho e lhe tiraram seu celular como se estivessem desarmando um pistoleiro no oeste. O empurraram. É claro que não me deixaram pegar minha bagagem ou meu passaporte. Também tiraram meu celular."Herrero foi colocado em uma van. Suas perguntas recebiam como resposta um movimento negativo de cabeça do policial que estava ao seu lado. "Esses momentos de incerteza foram os piores. Me senti sequestrado. Embora também deva dizer, em honra da verdade, que em nenhum momento duvidei que se tratava de policiais - tinham um jeito inconfundível - e que os maus-tratos não se prolongaram além da abrupta saída do hotel."Finalmente, conseguiu saber que se dirigiam para o aeroporto de Maiquetía, a meia hora de Caracas. "Ao chegar ao aeroporto, para fazer ver quem mandava ali, entraram diretamente na pista e estacionaram junto a um avião da Varig. Tentaram me fazer embarcar, mas é claro que eu não tinha passaporte. Então foi preciso esperar que um motorista fosse até o hotel e trouxesse meu passaporte. O tempo todo me mantiveram fechado na van."A bordo do avião ele soube que se dirigia ao Brasil. "Nesse momento me senti feliz, livre", comenta Herrero do aeroporto de São Paulo, enquanto esperava para embarcar em um avião com destino a Madri. "Embora as pessoas não acreditem, não gosto de estar no centro desta polêmica. Mas se for para servir para alguma coisa, que seja para que os venezuelanos percebam os métodos de Chávez, o que acontece quando alguém pensa diferente dele e diz isso."O eurodeputado Carlos Iturgaiz declarou no sábado em Caracas que ações como a expulsão de Herrero dão muito o que pensar sobre o respeito às garantias individuais na Venezuela."O governo venezuelano privou Luis Herrero da liberdade de expressão, de movimento e de comunicação", disse Iturgaiz, acrescentando que nenhuma autoridade tinha dado explicações à delegação espanhola do Parlamento Europeu, convidada pela oposição venezuelana. O Conselho Nacional Eleitoral também não havia credenciado os eurodeputados como observadores. Mas Iturgaiz disse que esperaria as credenciais até um minuto antes da abertura das seções eleitorais.As reações à expulsão de Herrero não demoraram. O Partido Popular expressou sua "repulsa" pelo incidente, que o senador Iñaki Anasagasti, do PNV, qualificou de "despropósito". Anasagasti lembrou que nenhuma delegação parlamentar espanhola havia sido admitida para vigiar a lisura do plebiscito. O presidente do Grupo Popular Europeu (PPE-DE), Joseph Daul, declarou: "A impressão é que Hugo Chávez e seus seguidores não querem testemunhas incômodas do que poderia acontecer no referendo".O presidente venezuelano acusou Luis Herrero de ter "produzido o incidente de maneira intencional" e confiou que o ocorrido "não empane as excelentes relações" que mantém com o governo espanhol.

MP-RS Fecha Escolas Itinerante do MST




Os Blogs da nossa gauche estão indignados com o Ministério Público do RS que celebrou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Estado do Rio Grande do Sul tendo por objetivo o fechamento das escolas itinerantes em sete acampamentos sem-terra.

O TAC prevê que até o dia 4 de março devem ser desativadas as turmas de educação infantil, ensino fundamental e de Educação de Jovens e Adultos (EJA). As crianças devem ser matriculadas na rede pública e ter transporte escolar. Caso não seja cumprido, o governo do Estado será multado em um salário mínimo por dia de atraso.

A pergunta que se impõe é a seguinte: deve o Estado liberar verbas públicas a uma ONG ligada a um movimento que não tem nem CNPJ para que este contrate, sem licitação, professores para lecionar para os filhos dos militantes do movimento? Essas crianças são preparadas para um modelo discutível de cidadania. E tudo isso com verba pública que nós pagamos.

Além de tudo isso, o ensino público -- e estamos falando aqui de ensino público -- não pode ser ideologizado, nem pela direita e nem pela esquerda. É fundamental que o ensino público insira o aluno não apenas na cidadania, mas também no mercado de trabalho. Não se trata de direitos antagônicos, mas convergentes. Um ensino que apenas prepara o aluno para a cidadania é falho. Assim, como também é equivocado o ensino que prepara o estudante apenas para o mercado. Há de se conquistar o necessário equilíbrio do meio termo. Mas quem disse que o MST está interessado no equilíbrio?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Paradoxos


Estou sem tempo para bloguear hoje. Mas dei uma passada pelos blogs da esquerda gaúcha. O assunto é sempre o mesmo: a Dona Yeda. Ela escreveu uma cartinha longa para o Paulo Sant´ana na Zero Hora e é o assunto do dia. Confesso que não consegui ler a carta até o final. Achei uma chatice. Mas esse pessoal anda preocupado com o governo Yeda. Eles dizem que não compram e não leem a ZH, mas todos sabem o conteúdo da carta da governadora. Esse pessoal, da nossa gauche, acha que o povo do Estado do Rio Grande do Sul está hipnotizado pela RBS que criou o Rigotto e a Yeda. Mas o gaúcho não é o povo mais politizado do Brasil?

Fevereiro


Fevereiro é um mês diferente. Primeiro porque tem apenas 28 ou 29 dias. Segundo, porque tem carnaval. Terceiro porque todo mundo está em férias. E as pessoas que tiram férias, não querem saber de entrar nos Blogs da vida. E, por isso, o movimento nos Blogs, inclusive neste depósito diminuem. Quem tem o tal de sitemeter sabe muito bem o que estou falando. Fevereiro é sempre o mês de pior movimento. Interessante que quando chega o fim do ano, o movimento vai baixando, diminuindo e chega ao ápice em fevereiro. É muita festa, é praia, é serra, é feriado, é muita viagem é sei lá mais o quê... Mas quando chega março tudo volta ao normal. O Brasil volta ao normal. Os blogs voltam ao normal. A vida volta ao normal. Que chatice seria essa vida sem o fevereiro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Onda dos Presidentes Eternos




Chávez ganhou o referendo por uma diferença razoável, 10%.

Na verdade, Chávez convocou o referendo porque sabia que iria ganhar. E ganhou. E o pior: ganhou bem.

O precedente é perigoso, sobretudo quando se trata de América Latina.

Leio no Terra Magazine que, paradoxalmente, a crise financeira internacional pode ter dado a vitória a Chávez. Mas a crise financeira fez despencar o preço do petróleo que é exatamente o motor da revolução bolivariana que Chávez quer levar adiante.

O fato é que a Venezuela vem perdendo investimentos nesses dez anos de chavismos. É um país onde a segurança jurídica para o investidor simplesmente não existe. A qualquer minuto, Chávez pode determinar, por decreto, estatizar companhias e empreendimentos. E o regime quer se perpetuar....

Mas nem tudo está perdido, Chávez vai ter que ganhar sua reeleição. A questão é saber se a complicada oposição vai ter forças para derrotar o caudilho populista.

O tempo dirá.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Grosseria Leviana



Fotos da campanha publicitária, capitaneada pelo sindicato dos professores públicos do RS, contra a governadora Yeda, do PSDB,RS.

Uma boa campanha publicitária (quanto o CPERS e os demais sindicatos de servidores públicos gastaram nisso??) deve ser sutil, irônica. Não é o caso dessa que ultrapassa o limite da grosseria. Dizem que a culpa de todas as crônicas mazelas no RS é da Yeda e do seu governo. Será que um governo é tão mau assim? Será que um governo é feito de mafiosos que querem apenas solapar as burras estatais? Yeda sequer é ré em processo de corrupção.Por muito menos, certa esquerda acusava de golpista movimentos que queriam colocar o Lula como membro dos 40 ladrões do mensalão. E tem velhinhas de Taubaté que não acreditam em mensalão. Mas golpismo, of course, é uma palavra que só vale para o mesmo lado de sempre. Tudo faz parte da mesma hipocrisia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

As Mazelas e o Rosto Borrado




Dez sindicatos de servidores públicos, capitaneados pelo CPERS, estão elaborando uma grande campanha publicitária apontando o governo tucano de Yeda Crusius como o grande responsável pelas mazelas do RS. Que mazelas são essas? Corrupção, violência e autoritarismo.

Centenas de outdoors estão sendo espalhados para mostrar a insatisfação desses sindicatos para com o governo Yeda. Nesses cartazes aparece um rosto borrado que atiça a curiosidade do público. O rosto borrado é o culpado de todas as mazelas. Esta semana o rosto borrado será descoberto. Jogo um pacote de bala sete belo que o rosto é da Yeda. Ela é a culpada de tudo.

Em janeiro, o jornalista David Coimbra participou do debate, patrocinado pela RBS, que houve entre a presidente do CPERS Rejane de Oliveira e a Secretária de Educação, Mariza Abreu. No dia seguinte escreveu um polêmico artigo publicado neste Blog. Foi a gota dágua para David Coimbra ser atacado pelo sindicatos e seus amigos. Destaco a seguinte parte do artigo:

A presidente do Cpers, sobretudo ela, parece programada inexoravelmente para a oposição. Alguém dirá que sou contra o Cpers, ou contra os professores, ou a favor do governo, bibibi. Pouco se me dá. Não vou atrelar meu julgamento ao maniqueísmo tacanho que grassa pelo Rio Grande amado. O fato é que, depois da experiência de ontem, passo a duvidar da possibilidade de que alguma proposta do governo, qualquer proposta, vá receber apoio ou sequer compreensão do Cpers.
O que me deixa desconfiado.Segundo Rejane de Oliveira, o governo pretende liquidar com a Educação no Rio Grande do Sul e extinguir as supostas conquistas dos professores. Mas será possível isso? Será que um governo pode ser assim tão maligno? Tão mal-intencionado? Será que as pessoas que estão no governo pretendem o Mal e tão-somente o Mal? Tenho a tendência de suspeitar de tudo o que é apresentado como absoluto.

Complicado esse velho Rio Grande. Qual, afinal, o papel de um sindicato de servidor público? Pode ele eleger um determinado governo como responsável por todos os males do serviço público? Mas esse governo -- que tem legitimidade popular -- não tem também o direito de fazer as reformas para a melhoria do serviço público que prometeu fazer? O que há por trás dos interesses do CPERS?
Simples como água morna: partidarismo, corporativismo e manutenção do status quo.

Que Burra essa Tia!!!!



Este artigo eu pesquei do site do CPERS sindicato. Estava procurando fontes para uma postagem sobre os cartazes contra a governadora Yeda e me deparei com esse impressionante artigo. Os fatos são realmente de estarrecer, mas acho que Juremir exagera na crítica. A educação brasileira, sobretudo a pública, vai de mal a pior por diversos motivos e os culpados também são vários, inclusive os sindicatos das escolas públicas.

Um Pouco de Nepotismo
Juremir Machado da Silva

Ser professor é uma aventura. Ser aluno é outra aventura. A maior injustiça que eu vi, quando criança ou adolescente, era alguém repetir todas as matérias de um ano por ter sido reprovado em uma disciplina. A incompetência administrativa do sistema era repassada para o estudante. Nunca vi na mídia uma crítica a esse procedimento estúpido e cruel. Pensei nisso lendo um livro que me emocionou a ponto de me fazer lembrar de velhas histórias dos tempos de colégio. 'Vara de Marmelo' (Editora Renascença) é a história verdadeira de uma professora, mãe e mulher em busca do seu lugar no mundo. Gaúcha, numa escola de uma grande cidade do interior de São Paulo, ela viveu algumas situações exemplares. Como não se arrepiar diante deste diálogo em sala de aula:

'Continuei a falar de mim e quando comentei que tinha filhos da idade deles uma menina falou aos gritos:
- Então você é mãe? Ah, então você é puta!
Sem pensar, devido ao susto que levei, respondi como quem está sendo atacada: - Não, eu não sou. Por que a pergunta? A sua mãe é?
-Claro que é. Toda mãe é...
- Mas você sabe o que é uma prostituta?
- Claro, tia, quem não sabe? É trabalhá no ponto: a mãe se arruma e sai pra catá dinheiro, porque tem uns home de carrão que dão dinheiro pra elas...
- E você sabe por que eles dão dinheiro?
Ela não teve tempo de responder, pois a turma inteira começou a gritar:
- Tem que trepá, pô! Que burra essa tia!

'Quantos pontos, num programa de metas, deve somar um professor capaz de administrar uma situação dessas e ainda encontrar forças para continuar apaixonado pela sua profissão? Será por isso que se inventou o mito do magistério como missão ou sacerdócio? Professores enfrentam problemas desse tipo, ou piores, em todos os andares da sociedade. Numa universidade, por exemplo, pululam os dramas pessoais de toda ordem. Quem acha que professor trabalha pouco, ensina mal e vive reclamando de barriga cheia por excesso de ideologia, não tem a menor ideia do que diz ou está atolado numa ideologia.

Quem lê 'Vara de Marmelo', de qualquer maneira, fica atônito: como tratar do mesmo modo universos tão diferentes? Como não sair correndo quando um aluno desabafa nestes termos: 'Minha mãe não podia ter feito isso comigo só hoje me contou que to de niversario e o pior é que fica lá deitada no sol, por que tem programa de noite. Ela disse que niversario é bobage, que não tem grana pra isso. To com vontade de mata ela. Vi numa casa uma festa no final os muleque estoravam as bexiga na maior zuera'. Aposto que os gênios da mídia se preocupariam, antes de tudo, com os erros de ortografia dessa mensagem desesperada.

Concluiriam que os alunos não estão aprendendo, que os professores não estão ensinando e que nossas crianças não estão sendo preparadas para o mercado. É incrível como a mídia vive separada do mundo real, fechada numa redoma de vidro, autista e soberba!A autora de 'Vara de Marmelo' é pedagoga, arteterapeuta, escritora, integrante da Academia Santanense de Letras, pós-graduada em Arteterapia e em Tecnologia da Informação Aplicada a Educação e graduada em Teologia pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Em resumo, continua buscando aprimoramento pessoal, profissional e espiritual. Seu livro me tocou de tal maneira pela autenticidade que decidi pisotear um princípio e cometer nepotismo. Vera Machado é minha irmã.

Juremir Machado da Silva é escritor e professor*Artigo publicado no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, em 05 de fevereiro de 2009

A Saia Justa de Benício - Che - Del Toro



O Charlie do Bunker me recomendou.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Melhor Assim do que Assado


Lula, os Equívocos e o Pacote de Bondade



Ontem Lula anunciou um pacote de bondades aos prefeitos brasileiros.
Como tinha platéia ele resolveu soltar a língua.
E, para variar, atacou a mídia:

Fiquei triste como leitor porque estão abusando de minha inteligência. Tem gente que pensa que o povo é marionete, é vaca de presépio. Disseram que este ato eu ia fazer o pacote da bondade e que o presidente vai dar dinheiro para prefeito bandido. Como é fácil julgar as pessoas. Não deram nem sequer a oportunidade para vocês [prefeitos] mostrarem que não são os ladrões que escrevem que vocês são."Lula prosseguiu: "Não é possível que a gente possa se calar diante de tamanha ofensa. Disseram que é um ato para promover dona Dilma Rousseff. São pessoas pequenas. Eu, graças a Deus na minha vida, nunca tive favor de ser eleito porque a imprensa me ajudou".
Não, bem capaz, o Lula não está promovendo a Dilma...
Entretanto, no mesmo discurso, Lula resolveu puxar as orelhas do prefeito Kassab e do rival José Serra:

"Temos no Brasil, ainda, uma média de 9,9% de pessoas analfabetas." Ao falar das regiões, ele percebeu que uma anotação estava errada: "Aqui tem um dado errado: apenas 8,8% no Norte, não deve ser esse número".Em seguida, Lula citou o Sudeste: "No Sudeste, nós temos 5,7% de analfabetos". Ao falar de São Paulo, ele disse: "Pasmem, caiam de costas, Kassab, porque você não sabia e eu não sabia: no Estado de São Paulo nós ainda temos 10% de analfabetos, o Estado mais rico da Federação. Significa que nós estamos errando em alguma coisa".

Errado, Sr. Presidente, segundo o MEC, o Estado de S. Paulo tem 4,6% de analfabetos, mas como tem 22% da população brasileira tem, evidentemente, 10% dos analfabetos do Brasil....

Leio na Folha que "Segundo interlocutores de Lula, ele se expressou mal, mas sabia o dado certo."

Sei, sei.

Angeli


Estado Indutor


O papel do Estado-indutor

Delfim Netto (Folha de hoje)

O retorno à normalidade do "circuito econômico" exige o restabelecimento da confiança entre os agentes financeiros, particularmente a volta do crédito interbancário. Isso estimulará expectativas mais otimistas dos empresários e, pouco a pouco, reconstruirá, nos trabalhadores, melhores expectativas com relação ao seu emprego. Trata-se de um processo e levará algum tempo. À medida que se for concretizando, aumentará a eficácia dos estímulos das atuais políticas monetária e fiscal, que funcionam mal enquanto persiste a "crise de confiança" que importamos.


A aceleração dos gastos do governo, com a cooptação do setor privado (nacional e estrangeiro) nos investimentos na infraestrutura, em projetos de alta e segura taxa de retorno, é o único caminho que nos resta para tentar sustentar, no melhor nível possível, o ritmo do crescimento. Qual é esse nível, não está escrito nas estrelas nem no passado. Dependerá: 1º) da eficiência da mobilização do próprio governo, 2º) da redução das incríveis dificuldades na aprovação dos projetos criadas pelo excesso de regulação e 3º) da aceleração de acordos de bitributação e de garantias que atraiam mais investimentos estrangeiros.


Para sustentar a atividade atual e acelerar o nível de atividade futura, esses investimentos devem obedecer a alguns critérios. Em primeiro lugar, precisam ser financiados: a) com a responsabilidade fiscal (a relação dívida pública/PIB é importante para determinar a taxa de juro real); b) com o aproveitamento da situação atual favorável para reduzir a taxa de juro real e usar os gastos de juros para investimento e c) com o corte ou diferimento das despesas de custeio.


O corporativismo funcional não corre o risco do desemprego e tem uma previdência social que é um escandaloso múltiplo da dos trabalhadores do setor privado que o sustenta. Pode, portanto, esperar com menor angústia a volta à normalidade. Em segundo lugar, os investimentos públicos em infraestrutura, quando completados, devem ser rapidamente "concedidos" para o setor privado com leilões adequados, de forma a evitar a herança das despesas de custeio que fatalmente os acompanhariam. E, por último, os investimentos devem preferencialmente aumentar a produtividade física do setor privado.


Esse Estado-indutor, regulador inteligente e eficiente, que reduz as desigualdades com políticas públicas e ajuda a minimizar as flutuações da atividade econômica, é que garante, num regime de liberdade individual, o crescimento econômico com maior justiça social.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Entre a Vidinha Mediocre e a Loucura


O casal April e Frank do filme "Foi Apenas um Sonho" do Sam Mendes.

Também não achei ruim o título em Português do filme "Revolutionary Road" do Sam Mendes. "Foi apenas um sonho" resume bem a história do filme baseada no romance de Richard Yates.

Atire a primeira pedra aquela pessoa que nunca teve crises existenciais sobre as nossas vidinhas. Sim, elas são medíocres, infelizes, cheias de tormentos e ansiedades. Queremos e sonhamos com uma vida melhor. Como conquistá-la?

O cenário é uma cidadezinha perto de Nova York. O ano é o de 1955. O esplendor da hipocrisia dos tempos dourados.

Eu, por exemplo, adoraria morar numa casinha de cerquinhas brancas no subúrbio da Big Apple. É só tomar o trêm ou o metrô para desfrutar todas as loucuras e diversidades da Big City. Mas April, muito bem interpretada pela Kate Winslet, não pensa assim. Sua vidinha de dona de casa do subúrbio de NYC é medíocre. Seu marido, o Frank, Leonardo DiCaprio, também acha seu trabalho muito chato. Ele segue a mesma vida ordinária de seu pai. Não era esse o seu sonho. Era preciso mudar de ares. Paris em 1955, na época da Nouvelle Vague, seria uma boa escolha? Talvez.

Mas tudo muda quando o dinheiro entra em ação. Frank é promovido e recebe o conselho de um empresário bem sucedido. Entre goles de martinis e baganas de cigarros eles conversam. A receita do empresário é simples: as chances de ter sucesso profissional na vida são pouquíssimas, medíocre é aquele que não agarra essas oportunidades. O diálogo muda o ponto de vista de Frank.

E lá se foi o sonho de Paris, para desagrado de April. Iniciam as crises conjugais. April e Frank querem uma vida melhor bem distante da hipocrisia chata dos anos dourados da década de 50. Eles são os embriões da revolução dos costumes da década de 60. O típico casal porra louca para aquela época. E sempre tem um louco de hospício a dar bons conselhos. Os loucos, nos anos dourados, é que tinham razão.

Reféns da Demagogia e da Inveja


E a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, ontem, manteve o veto do prefeito José Fogaça ao projeto do Pontal do Estaleiro. Será realizada, então, uma consulta popular que vai deliberar se naquele espaço poderá ser construído prédios residenciais e comerciais de 12 andares.
E Porto Alegre continua patinando contra a maré da qualidade de vida.

Ontem passei pela Av. Diário de Notícias, onde fica o Barrashopping sul e era impressionante a quantidade de pessoas que corriam, caminhavam e andavam de bicicleta no calçadão recém feito pelo shopping. O Pontal do Estaleiro vai ser a continuação desse calçadão que pode interligar aquela região até a Usina do Gasômetro.

Mas a minoria participativa -- que faz muito barulho -- não quer saber de nada disso. Que se dane a qualidade de vida do povo de Porto Alegre que pode ser beneficiado com calçadão, marina e bares e restaurantes na orla do Guaíba; o que importa para esses complicados seres é que o investidor vai ter um lucro exagerado com o negócio ou de que os adquirentes dos imóveis terão uma vista privilegiada do lago Guaíba.
Juro que não estou preocupado com o lucro do investidor. Que ele tenha seu lucro. Também não estou preocupado se os adquirentes terão sacadinhas com maravilhosa e privilegiada vista. Que eles desfrutem bem dessas belas sacadinhas. Nada disso interessa. Estou preocupado é com o futuro da cidade onde vivo que insiste em patinar para atender as vontades equivocadas e invejosas dos demagogos.

Mudanças Imprecisas


Obama em sua primeira entrevista depois da posse.

Obama destaca mudança, mas sem muita precisão

Peter Baker Em Washington - The New York Times



O presidente Barack Obama tentou na segunda-feira recuperar o manto da mudança que o conduziu à Casa Branca. Mas ele ainda não definiu precisamente que mudança os americanos devem esperar.Ela significa uma mudança de tom em uma era de partidarismo? Ou uma mudança nas políticas em um momento de crise? E quanto a esse conflito, pode haver conciliação?Obama deu um show de tentativa de dar abertura ao outro lado no início de sua presidência, convidando três republicanos para seu Gabinete e dialogando com outros membros da oposição. Mas na segunda-feira, ele soou mais como um candidato reagindo ao status quo, de volta aos palanques de campanha e rotulando os oponentes como apóstolos de uma filosofia fracassada.Apesar de ainda abraçar a meta do bipartidarismo, ele deixou claro que agora vê isto como meta de longo prazo, não como algo realizável a curto prazo."O que não farei", ele disse em sua coletiva de imprensa na noite de segunda-feira, "é retornar às teorias fracassadas dos últimos oito anos e que nos botaram nesta situação, porque essas teoria foram testadas e falharam, e isso faz parte do que esta eleição se tratou".Autoritário e sisudo, sombrio em vez de inspirador, Obama soou austero ao buscar fazer uso da urgência da crise econômica para criar apoio ao seu plano de recuperação econômica de US$ 800 bilhões.Do entusiástico comício estilo eleitoral em Indiana no meio-dia à séria coletiva de imprensa, Obama minimizou o discurso de unidade, buscando rebater os críticos que dizem que seu plano apenas criaria mais empregos públicos e autorizaria uma série de gastos perdulários.Obama disse que continuará atento às idéias republicanas para o pacote que está tramitando no Congresso, mas não identificou qualquer uma que apoiaria antes da aprovação final mais adiante nesta semana. Ele argumentou, em vez disso, que será seu plano que "colocará este país de volta ao trabalho"."Eu não posso dizer com 100% de certeza que todo item deste plano funcionará exatamente como esperamos", disse Obama, como repetiria à noite. "Mas o que posso dizer a vocês - e posso dizer com total confiança - é que o adiamento interminável ou a paralisia em Washington diante desta crise apenas conseguirá aprofundar o desastre. Eu posso lhes dizer que não fazer nada não é uma opção."É uma formulação - uma preferência pela ação, mesmo que imperfeita, em vez de negociações prolongadas- que anima a nova Casa Branca, nascida talvez da impaciência de um governo jovem assim como do senso da pressão esmagadora para se fazer algo, qualquer coisa, para resgatar uma economia que continua a afundar.À medida que as esperanças de Obama por um forte consenso bipartidário ao seu pacote econômico evaporavam, ele passou a cada vez mais recorrer ao argumento de que ele mesmo representa a mudança. Em Elkhart, Indiana, ele desfrutou do canto de "Obama, Obama" da multidão, apesar da música não ser a de Stevie Wonder como na campanha, mas "Hail to the Chief" (saudação ao chefe).No voo no Força Aérea Um para Indiana, novos funcionários da Casa Branca faziam o papel de forasteiros concorrendo contra Washington. "Uma coisa que aprendemos ao longo de dois anos é que há uma conversa bem diferente em Washington do que a que ocorre aqui", disse David Axelrod, o alto conselheiro do presidente. "Se eu tivesse dado ouvidos às conversas em Washington durante a campanha presidencial, eu teria pulado de um prédio um ano e meio atrás."Robert Gibbs, o secretário de imprensa da Casa Branca, condenou "o ponto de vista míope em Washington", que ele caracterizou como dissociado dos problemas do país. "É esclarecedor porque pode não ser necessariamente a posição da televisão a cabo a respeito disso tudo", ele disse. "Mas sabem de uma coisa, nós estamos meio que acostumados a isto. Nós fomos derrotados virtualmente todo dia na televisão a cabo no ano passado. Há o que costuma ser aceito por Washington a respeito do que está ocorrendo na América e há a realidade do que está acontecendo na América."Quando Obama voltou a Washington e entrou na Sala Leste para a coletiva de imprensa, o Senado tinha aprovado o plano econômico, mas a votação basicamente seguiu a divisão partidária, com apenas três republicanos apoiando o plano. Obama reconheceu que sua conversa de bipartidarismo até o momento rendeu poucos resultados."Há muitos hábitos ruins arraigados aqui em Washington e levará algum tempo para superar esses hábitos ruins", disse Obama.Em vez disso, ele se concentrou na esperança de que suas aberturas "renderão alguns dividendos a longo prazo"."Eu sou um eterno otimista", ele disse. "Eu acho que com o tempo as pessoas responderão à civilidade e ao argumento racional."

A Culpa de Battisti


O Juiz Guido Salvini lê sentença que condenou Battisti, em seu escritório em tribunal de Milão


Juiz italiano diz que veredicto sobre terrorista é "incontestável"
O caso de Cesare Battisti foi apreciado por 32 juízes e, em todas as sentenças de primeiro grau, de apelo e do Supremo Tribunal, ele foi condenado à prisão perpétua por quatro homicídios, segundo afirmou à Folha o juiz de investigações preliminares Guido Salvini.Na Itália, a sentença é emitida por 8 juízes, dos quais 6 são júris populares. "Apesar de o voto ser secreto, os veredictos sobre Battisti são incontestáveis e reconhecem a responsabilidade dele nos quatro crimes, seja como mentor ou como executor dos homicídios."Nos arquivos do Tribunal de Milão estão guardados os processos que envolveram ele e outros 22 ex-militantes do grupo PAC (Proletários Armados pelo Comunismo). "Em todos os processos foi dado o direito a Battisti de convocar testemunhas de defesa, mas não me lembro de ninguém que tivesse testemunhado ao seu favor."Battisti já estava foragido quando teve início o primeiro processo, em 1983. A primeira sentença foi emitida em 1985, mas o processo foi anulado.O novo julgamento de primeiro grau culminou em 13 de dezembro de 1988 com a condenação de Battisti à prisão perpétua. Além dos assassinatos, os juízes consideraram a agravante de um julgamento precedente relativo a outro processo menor que o havia sentenciado a 12 anos de prisão por formação de quadrilha e assalto à mão armada.O processo de apelo em 1990 confirmou o veredicto de máxima pena a Battisti e a sentença foi enviada ao Supremo Tribunal, que, em 1991, determinou haver problemas de procedimento legal no caso do homicídio do joalheiro Pierluigi Torregiani. Foi realizado um novo julgamento, concluído em 1993, confirmando a sentença.Nos anos 80, segundo Salvini, existia uma lei que reduzia a pena dos terroristas que se dissociassem dos grupos em que militavam. O militante não poderia mentir e todas as informações eram apuradas. Se existisse alguma inverdade, a pena poderia ser agravada.Battisti acusa o ex-companheiro do PAC Pietro Mutti de ser seu principal delator para se vingar do fato de ter deixado a luta armada. "Pietro Mutti não foi o único a falar. Diversos ex-militantes do PAC nos forneceram informações que, depois de confrontadas, comprovaram as responsabilidades", afirmou.
Folha de hoje.

Jean


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Tarso, Tem um Fascista Que Quer Refúgio!!!


Do Blog do Josias:

E se Cesare Battisti, em vez de ex-ativista de esquerda, fosse um ex-militante do fascismo italiano? Teria obtido o status de refugiado político?

As perguntas não vêm do acaso. A versão ultradireitista de Battisti existe. Chama-se Pierluigi Bragaglia. Vem à luz graças ao repórter Alan
Rodrigues.

Caçado pela Interpol há duas décadas, Bragaglia foi preso pela PF em julho de 2008. Encontra-se recolhido a um cárcere de Ilhabela, no litoral paulista.

Aguarda pelo julgamento de um pedido de extradição que corre contra ele no STF. A exemplo de Battisti, Bragaglia foi às ruas da Itália, de armas na mão, nos anos 70 e 80.

A diferença é que os dois guerreavam em campos opostos. Battisti militava no PAC (Proletários Armados pelo Comunismo). Bragaglia, no NAR (Núcleo Armado Revolucionário).

O grupo de Battisti inspirava-se na ideologia da velha União Soviética. O de Bragaglia pregava a restauração dos ideais fascistas de Benito Mussollini (1883-1945).

No mundo atual, submetido a mutações que transformam a convicção de ontem em burrice de hoje, Battisti e Bragaglia vivem dramas análogos.

Os dois lutam contra pedidos de extradição formulados pelo governo da Itália. Ambos têm contra si sentenças condenatórias da Justiça italiana.

Battisti, acusado de autor ou coautor de quatro homicídios, foi condenado à prisão perpétua. Bragaglia amargou condenação mais branda: 12 anos de cana.

Contra Bragaglia pesam acusações que vão da subversão aos assaltos a bancos. Diz-se que tomou parte em pelo menos dois assassinatos.

Ouvido pela PF, Bragaglia defendeu-se com alegações parecidas com as de Battisti. Reconhece que, movido por “razões ideológicas”, cometeu crimes políticos.

Mas nega a autoria de “crimes de sangue”. Diz, por exemplo, que não participou da ação que resultou na morte de dois policiais, em Roma.

Para a Justiça da Itália, Battisti e Bragaglia são "terroristas", não ativistas políticos. O primeiro obteve do ministro Tarso Genro (Justiça) o refúgio político.

O segundo cogita requerer o mesmo benefício. Volte-se à interrogação lá do alto: o governo brasileiro concederia a um ex-militante fascista o refúgio político?

A eventual negativa ao pedido de Bragaglia, se ele for de fato formulado, iria às manchetes como um caso clássico de dois pesos e duas medidas.

Assim como no caso de Cesare Battisti, o processo de extradição de Pierluigi Bragaglia encontra-se sobre a mesa do ministro Cezar Peluso, do STF.

Bragaglia leva uma vantagem sobre o seu patrício esquerdista. Escondido em Ilhabela desde 1984, sob falsa identidade, teve dois filhos com uma cidadã brasileira.

Simplorice do Dualismo Idiota



Copio e colo do diário gauche o post: Ninguém é suspeito impunemente.

Comento depois.

A Foto segundo o diario gauche: Presidente Giorgio Napolitano, pós-comunista, e o primeiro-ministro protofascista Silvio Berlusconi. Aliança promíscua na Itália, onde quem manda mesmo é a tchurma fascista.

O Estado (fascistizante) italiano contra Cesare Battisti

Para bem além do mero caso judicial que representa, o caso Cesare Battisti acabou provocando duas reações latentes e que surpreendem pelo arcaísmo de ambas: a) desafios insolentes do governo de direita da Itália à própria soberania brasileira, como que revivendo as relações subalternas e coloniais havidas no século 19 da Europa com a África e a própria América do Sul; b) o novo frescor das velhas consignas anticomunistas da Guerra Fria, agora com linguagem aggiornata a um jurisprudencialismo de ocasião.

O senhor Cesare Battisti é ou foi, sabidamente, um esquerdista, categoria pré-política muito bem definida por Lênin, e sobre a qual pesam débitos de muitos erros e infantilidades da militância voluntarista no mundo todo. Não quero tratar do indivíduo Cesare Battisti, em especial, mas do que ele representa como sujeito político - vá lá - de esquerda, hoje.



Para tanto, quero me valer das lições de Michel Foucault, em aula no Collège de France em 8 de janeiro de 1975, sobre a relação entre Verdade-Justiça e os mecanismos de poder. O pensador francês estuda e apresenta com muita originalidade o que chama de tecnologias de poder que utilizam discursos de verdade para definir as motivações da prática delituosa e a matéria punível.



Um dos pressupostos mais imediatos e mais radicais do discurso judiciário é o de que existe uma pertinência, diz Foucault, essencial entre o enunciado da verdade e a prática da justiça.Neste ponto, então, se cruzam duas ordens institucionais que reforçam de forma combinada os seus estatutos de discursos verdadeiros. Tanto o judiciário, quanto os saberes médicos, psi, e científico em geral criam padrões de normalidade que acabam pautando comportamentos existenciais de todos (ou quase todos) os indivíduos numa dada sociedade. Estão excluídos da normalidade os indivíduos que apresentarem traços como: imaturidade psicológica, personalidade pouco estruturada, má apreciação do real, compensação, produção imaginária, profundo desequilíbrio afetivo, jogo perverso, donjuanismo, bovarismo (representar o que não se é), etc. E claro, não poderiam faltar, as “anormalidades” desviantes do homossexualismo e do comunismo.



Assim, o Estado burguês, a partir desses atributos considerados “cientificamente” como anormais, cria personagens em busca de um autor. No caso, o autor Cesare Battisti, por estar representando papéis de personagens desviantes - comunista, desajuizado em face ao real, praticante de pequenos furtos na juventude, militante de organização proscrita, bovarismo, imaginação profícua, indisciplinado recalcitrante - enquadra-se como uma luva no rol das motivações da prática delituosa. Mas ainda falta a prática delituosa em si, o fato criminoso passível de castigo, porque de per si nenhum desses elementos motivadores do espírito criminoso é crime. Ninguém pode ser acusado e condenado por imaginação copiosa ou por desequilíbrio afetivo, por exemplo. Mas um suspeito de crime de morte, se se ajustar de forma concomitante ao figurino (imoral) dos personagens desviantes, logo é um suspeito que não pode passar impune. Assim, “ninguém é suspeito impunemente” - diz Foucault - especialmente se for duramente acusado por testemunha que tenha sido seu ex-companheiro de organização proscrita (mesmo que este tenha obtido os benefícios da delação premiada).



No final das contas, o condenado pela Justiça já não é mais aquele objeto que obedece ao princípio da convicção íntima do juiz, mas o personagem anômalo que acaba de se confundir com o autor-suspeito - um certo comunista, que gosta de transgressão, que já foi capaz de pequenos delitos na juventude, que ama confusão e que não gosta da sociedade cristã, fraterna, democrática que escolhemos para viver. Foi um personagem que foi condenado, não Cesare Battisti.Casos como esse - de um obscuro esquerdista italiano de quinta categoria - servem para desnudar o simulacro de Direito/Justiça que temos como componente primordial do sistema de poder, assim como os chamados discursos de verdade - a rigor, um vasto rol de empulhações justificadoras das piores injustiças.



Ficam igualmente nus aqueles adventícios da esquerda, como um certo magistrado, colunista de respeitada revista semanal, que, obsessivo, expõe a cada frase seu reacionarismo mais careta, bem como o venerável patrão desta mesma publicação que envereda pelos becos escuros de uma alma ressentida contra o ministro da Justiça do Brasil - que apenas está cumprindo seu dever cívico de dar refúgio a um injustiçado e perseguido pelo protofascismo de Silvio Berlusconi e seus aliados – inclusive os pós-comunistas.

Meu comentário:

O discurso do post é simplório, porque dualista. De um lado o governo fascista italiano e de outro um tadinho de um esquerdista equivocado, como se a realidade fosse exatamente essa. Não é. A visão do post é a de querer impor uma realidade que não existe e nunca existiu. O Mino - pelo menos uma vez na vida - é que está com a razão e a eterna patrulha ideológica que não permite vacilos cai na mediocridade do antagonismo da falsa dialética. Ou seja, pouco importa se a maioria do povo italiano elegeu Berlusconi, o que importa é que ele é o legado do fascismo e tudo o que ele faz, pensa e age é lixo absoluto. Quando é que esse pessoal vai conseguir crescer e ir além na vida?Mas dessa vez os gramscianos, Mino e Tarso, estão em lados opostos, porque no Brasil existe uma certa esquerda que se recusa a ver, a ler e a sentir além da simplorice do dualismo idiota. C´est la vie.

E o Foucault não foi atropelado pelo bonde do Capitão Nascimento?

Relativizando a Infância


Muito boa essa crônica da Cláudia Laitano publicada na ZH do último sábado. Assino embaixo.


Parece, mas não é

Cláudia Laitano


Crianças de hoje em dia dizem palavras difíceis com a tranquilidade de quem masca chiclete (“inconstitucionalissimamente” já não quebra a língua de ninguém, façam o teste...), começam a ler em inglês sem que ninguém ensine e aprendem a mexer no computador muito antes de tirar as fraldas. São seres complexos esses meninos e meninas deste começo de século. Informação em excesso, rapidez de raciocínio, um mundo de ideias alheias ao alcance de um Google, tudo isso acompanhado de uma certa arrogância – que é o efeito colateral da inteligência quando falta a sabedoria. Invencíveis no videogame e hábeis em tarefas que ainda parecem complicadas para a maioria dos adultos, como montar em cinco minutos um powerpoint cheio de efeitos mirabolantes, as crianças parecem sempre prontas a jogar na cara dos pais a constatação de que são elas que dominam as regras do jogo – pelo menos no que diz respeito ao onipresente universo da tecnologia.

Para os adultos, é fácil confundir os garotos espertos de 10 anos com um adolescente de 15. Eles às vezes ouvem as mesmas músicas, jogam os mesmos jogos, até leem os mesmos livros – caso de séries como Harry Potter e Crepúsculo. Tudo que uma criança quer, aos 10 anos, é ser tão bacana quanto o primo de 15 – enquanto o pessoal de 15, 20, 25 não parece com pressa nenhuma de sair do ninho. É como se existisse de repente uma superlotação de gente na adolescência: as crianças que estão acelerando a saída da infância, os adolescentes que adiam ao máximo as responsabilidades da vida adulta e ainda os adultos que se esforçam para voltar no tempo. Mas a fantasia peter-pânica de ter eternamente 15 anos é apenas isso: um sonho, uma fachada. Se uma bela e jovial senhora de 40 anos tatuar um dragão nas costas, usar uma minissaia de ursinhos e um par de passadores da Hello Kitty no cabelo nem assim será confundida com uma adolescente. Algumas marcas do tempo nem o Pitanguy apaga.


Com as crianças é mais ou menos a mesma coisa. Por mais descolados, espertos ou sexualmente precoces, não deixam de ser o que são: pessoas em idade de desenvolvimento, afetivamente imaturas e incapazes de tomar decisões que podem ter um impacto em suas vidas que elas ainda não têm condições de dimensionar. E crianças devem ser protegidas de tudo aquilo que ainda são incapazes de resolver sozinhas – pelos pais, pela escola e, em última instância, pela lei e pelo Estado. Por esse motivo, há leis que obrigam que frequentem a escola, que não trabalhem, que no caso de um crime não sejam tratadas como adultos.


Para o desembargador Mario Rocha Lopes Filho, relator do processo que considerou que a relação sexual consentida entre uma adolescente de 12 anos e um homem de 20 não é estupro presumido, a norma em vigor está desafasada e precisa ser relativizada. Ele argumenta que, em alguns casos, meninas com menos de 14 anos de hoje em dia já têm capacidade de decidir sobre sua vida sexual – partindo desse ponto de vista, meninas de 12 anos deveriam poder decidir também se estudam ou não e se trabalham ou não, suponho.


Em um país em que a gravidez precoce é endêmica, essa decisão pode ser considerada um enorme desserviço em termos de saúde pública. Mas o que se percebe nessa leitura das meninas de “hoje em dia” não é apenas um equívoco social, mas psicológico. Há uma brutal confusão entre forma e conteúdo, entre essência e aparência. Adulto não é quem parece adulto, fala como adulto e diz que é adulto. Maturidade, inclusive para cuidar do próprio corpo e lidar com as consequências de uma gravidez, é outra coisa. Algumas meninas têm a sorte de contar com a orientação dos pais e da escola. Outras não – e essas, infelizmente, às vezes não podem contar nem com a proteção da lei.

Agonias do Cidadão Comum


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Anedota Búlgara


Anedota Búlgara

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade

Carlos Drummond de Andrade

Deixem o Clínicas Como Está!


Fachada do Hospital de Clínicas no Bairro Santa Cecília, em Porto AlegreFoto: Genaro Jone

O Brasil é mesmo um país muito complicado. Quando um serviço público funciona razoavelmente bem vem os ilustrados procuradores da república ingressar com medida judicial para modificar a situação. É o caso do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que é modelo de hospital universitário.



Mas os procuradores da república querem que o Clínicas atenda apenas os pacientes do SUS.
O Dr. José Camargo escreveu o seguinte artigo que copiei do Blog do Paulo Sant´ana.
Ele está coberto de razão.

Qualquer relação dos 10 melhores hospitais do mundo incluirá pelo menos sete hospitais americanos. Um apressado dirá: ‘E daí, se a medicina ficou tão cara, qual a surpresa que os melhores hospitais estejam no país mais rico?’.
A surpresa é que 20 entre os 20 melhores hospitais americanos são hospitais universitários. E isso, vamos convir, é uma enorme diferença para a nossa ideia terceiro-mundista de hospital-escola!
A implantação desse modelo foi fundamentada no conceito de que um grande hospital se mede pelo tamanho das cabeças médicas que ele alberga e que, sem elas, toda a tecnologia, deslumbrante, é no entanto incapaz de pensar, não tem a menor utilidade.
O passo seguinte — previsível — foi reter ao máximo esses cérebros privilegiados, para que o hospital e seus pacientes se beneficiassem deles em tempo integral.
Como o salário de professor universitário não é sedutor em lugar nenhum do mundo (e em alguns lugares que frequento ele é francamente humilhante!), a saída mais óbvia foi criar condições para que esses mestres pudessem atender os seus pacientes privados no próprio hospital.
A partir dessa concepção, os melhores hospitais americanos são os grandes e luxuosos hospitais universitários, onde se fazem ensino e pesquisa e se presta assistência médica da melhor qualidade à população em geral.
Na maioria dos hospitais universitários brasileiros, a administração é pré-falimentar, os professores atendem em condições precárias em regime de meio turno e à tarde vão aos seus consultórios e clínicas privadas em busca da sobrevivência. Não seria racional propor que justamente os mais preparados profissionalmente devessem subsistir com salários aviltantes.
A Santa Casa de Porto Alegre, a partir da década de 80, percebeu que o inegável prestígio do seu grupo médico atraía os pacientes economicamente diferenciados, que posteriormente eram internados em hospitais privados, com melhores condições hoteleiras. Um grande passo para a recuperação econômica da instituição, que várias vezes esteve ameaçada de fechar por insolvência, foi o investimento em unidades de internação para que seus profissionais pudessem trabalhar lá e só lá, em tempo integral.
Hoje, a Santa Casa tem cerca de 35% dos leitos ocupados por pacientes privados e conveniados, o que tem permitido que ela continue cumprindo a sua misericórdia, oferecendo aos pacientes mais pobres, que só contam com o SUS, um atendimento com uma qualificação tecnológica muitas vezes negada pelos convênios mais pobres.
Quando se vê na mídia a exigência do Ministério Público para que o Hospital de Clínicas atenda exclusivamente a pacientes do SUS, se instala uma dolorosa sensação de marcha a ré na história dessa prestimosa instituição gaúcha e brasileira.
Seria lamentável que um hospital que granjeou fama continental por mérito das luminosas cabeças que o sustentam, fosse condenado a recuar no tempo, quando o professor médico era só mais um funcionário itinerante, que buscava a sobrevivência trabalhando também em outros hospitais.
Se os tempos de internação são demasiado longos, encarecendo o orçamento da instituição, que se revisem os métodos de gestão!
Se a marcação de exames e consultas são muito demoradas, que se organizem agendas que contemplem as maiores demandas.
Mas, por favor, não permitam que uma instituição que alcançou o respeito que o Hospital de Clínicas fez por merecer em todo o país seja vítima de tamanho retrocesso!”.

Apenas um Sonho


Não assisti, ainda, o filme do Sam Mendes, Apenas um Sonho....
Mas depois que li o artigo do Calligaris, abaixo, publicado na Folha de hoje, deu vontade de correr para o cinema.

A rua da revolução

Contardo Calligaris

Às vezes, conversava com meu pai sobre sonhos que eu acalentava e que implicariam mudanças grandes na minha vida.Ele me escutava e, em geral, concluía: "Só que não basta sonhar, é preciso ter coragem". Em suma, havia uma infelicidade específica que ele não queria para mim, a de quem cultiva seus desejos como se fossem "apenas um sonho", sem ter a ousadia de tentar vivê-los. É por isso que não achei ruim o título em português que foi escolhido para o novo filme de Sam Mendes e para o grande romance que o inspira, de Richard Yates (de 1961, agora traduzido pela editora Alfaguara): "Foi Apenas um Sonho". O título original de ambos era "Revolutionary Road" (rua da revolução). Não é raro que, nos pacatos subúrbios americanos de classe média, o nome de uma rua lembre a revolução pela qual os EUA se constituíram independentes e republicanos. Por uma ideia e um futuro de liberdade, os revolucionários de 1776 arriscaram tudo, apostaram "sua vida, sua fortuna e sua honra sagrada". E o título original de Yates perguntava (ironicamente) se algo daquela coragem sobraria num subúrbio dos anos 50, em que quase todos, como Frank e April, o casal do livro e do filme, vivem sorrindo ou fazendo de conta, embora convencidos de que a vida deveria trazer outras aventuras. Poucos anos depois da história de April e Frank, aliás, uma nova geração fez outra revolução -desta vez, em nome dos desejos silenciados. Seu moto, inventado por Jerry Rubin (estranha cumplicidade entre ele e meu pai), foi "Do it!", faça-o, ou seja: "Seja lá o que for, não deixe que fique apenas um sonho". Mas voltemos ao tema central do livro e do filme, ou seja, digamos assim, à suposta covardia do desejo.Para começar, uma curiosidade: eu tinha a sensação de já ter escrito sobre o romance de Yates, mas não sabia quando. Graças ao Google, descobri que, em 1999, na bibliografia de meu livro "Adolescência" (Publifolha), eu citava "Revolutionary Road", de Richard Yates, como "um dos maiores romances americanos do pós-guerra", "em que a monotonia da vida suburbana se torna intolerável por causa da urgência de interromper a rotina adulta para poder "se achar'".Na época, o livro não existia em português, e eu sugeria que quem não pudesse lê-lo em inglês recorresse ao filme "Beleza Americana", de Sam Mendes, cuja "personagem principal é um herdeiro direto do herói de Yates". Palavras proféticas: logo Sam Mendes acabou adaptando o romance de Yates. Agora, a inspiração no romance de Yates torna "Foi Apenas um Sonho" um filme menos caricatural e mais tocante do que "Beleza Americana".De onde vem a infelicidade de Frank e April? Tudo bem, April esperava ser atriz e não é (talvez por falta de talento). Quanto a Frank, ele não tem nenhuma aspiração concreta. Por que razão, então, viver numa casa agradável, trabalhando e criando os filhos, levaria a um "vazio sem esperança"? Sem esperança de quê? Claro, na saída do cinema, parece óbvio o destino de quem habita o estereótipo de um cartão-postal: apenas seria possível escolher entre a insatisfação existencial e o kitsch melado no qual vive "feliz", no filme e no livro, a corretora de imóveis.Mas paira no ar uma pergunta: e se o problema não fosse o sossego da Revolutionary Road, mas o próprio desejo insano de viver outra vida? A insatisfação abstrata que assombra April e Frank é o cemitério do amor. A escolha de DiCaprio e Winslet (excelentes) parece querer nos contar o que teria acontecido se DiCaprio tivesse sobrevivido ao naufrágio do Titanic: a vida do casal se tornaria uma misteriosa prisão, em que o cotidiano imporia renúncias covardes a sonhos e desejos "livres".Mas a qual liberdade eles renunciariam? Nada a ver com a que preocupava os revolucionários de 76: é a liberdade de ir viver em Paris. Sarcasmo: a "loucura" é tão enlatada quanto a realidade. Mais um detalhe. É April que exige de Frank uma coragem sem a qual talvez ela deixe de amá-lo e de reconhecê-lo como (seu) homem. A "trivialidade" das conquistas profissionais não basta; Frank deve inventar outros desejos (que, na verdade, ele mal tem). April se torna assim uma representante feroz daquelas expectativas monstruosas com as quais qualquer homem lida como pode -as expectativas maternas: "Seja extraordinário, meu filho". Tudo bem, serei extraordinário, mas como? Pois é, caro Frank, ser homem não é mole.

Nada de Novo no Mundo Globalizado


Angeli

Origens do risco no capitalismo global
Gilberto Dupas



Fala-se da crise atual como sistêmica e global. Mas as associações entre risco e globalização vêm de longe.No início do século 16, com a percepção do mapa-múndi, pela primeira vez nos situamos numa perspectiva planetária. As viagens sucessivas de Colombo, Magalhães e Elcano atestaram que vivíamos numa esfera e revolucionaram nossas percepções sociopolíticas. O filósofo Peter Sloterdijk localiza aí o início da globalização.
Um novo conceito espacial de poder havia se tornado indispensável para os vencedores, insuportável para os perdedores e inevitável para todos. Quem chegava a portos pátrios depois de uma circum-navegação terrestre não podia mais imaginar-se centro do mundo. A cidade natal passou a ser vista de fora dela.
Júlio Verne percebeu com clareza a ideia de modernidade como de um fluxo globalizado. O seu itinerário em "A Volta ao Mundo em 80 Dias" reverte o sinal histórico, com a supremacia das viagens marítimas sobre as terrestres.
Colombo desenhara para as majestades da Espanha um globo pequeno, basicamente sólido, com os oceanos restritos a um sétimo de sua superfície. Pouco depois se exigia dos europeus entender que a predominância de superfícies aquosas dava à Terra um nome inadequado. De fato, tratava-se de um mundo líquido, com três quartos de sua superfície de água.Essa foi a informação cartográfica fundamental da Idade Moderna. Sloterdijk lembra que, no pequeno globo Lenox, construído em 1510, a legendária ilha de Cipango (Japão) -mencionada por Marco Polo- aparecia muito próxima da costa ocidental da América do Norte.
A ideia do predomínio das massas continentais só acabou quando Pigafetta descreveu a Carlos 5º da Espanha sua viagem com Elcano, garantindo terem navegado três meses e 20 dias com ventos favoráveis através de um mar incomensurável e muito calmo, que chamaram de Pacífico, o que colocou a imensidão das águas em seu verdadeiro lugar. Agora, havia que pensar em termos oceânicos. Acabava, também, a adequação semântica de continentes, que já não continham mares; eram contidos por eles.
A partir daí, o fluxo de mercadorias e pessoas na Idade Média foi um costear, atravessar ou se esquivar dos mares. Os oceanos do mundo transformaram-se em suportes dos assuntos globais e meios naturais dos fluxos ampliados de capital. Só o mar passava a dar uma base para pensamentos universais. Estava inaugurada a globalização. A navegação europeia -civil, militar e corsária- foi o seu veículo principal até o auge das viagens aéreas, na segunda metade do século 20.Um dos primeiros que souberam extrair vantagens desses conhecimentos foi Carlos 5º. Ele viu na carta secreta de Pigafetta uma oportunidade. Pelo Tratado de Zaragoza, vendeu os direitos das ilhas Molucas à coroa portuguesa por 350 mil ducados, negócio excepcional, porque as medições do Tratado de Tordesilhas vieram a mostrar que elas pertenciam a Portugal.
Conhecimento já era poder.
Esse negócio internacional inaugurou a natureza eminentemente especulativa dos processos de globalização capitalista, sob os auspícios do risco e do oportunismo. Os capitais também se libertaram dos países. O império espanhol de ultramar foi construído com empréstimos de bancos flamengos e genoveses cujos donos, brinca Sloterdijk, faziam girar o mundo para construir os caminhos de ida e de volta dos juros. Isso não lembra os atuais fluxos globais?
Descobrimentos passaram a significar domínio de rotas e colônias que permitissem a patrocinadores reais ou burgueses realizar lucros sob forma de comércio, tributos e butins. Novos mapas e conhecimentos oceânicos eram protegidos como segredos de Estado; a coroa portuguesa proibia sua divulgação sob pena de morte.
A parelha globalização-descobrimento virou sinônimo de investimento e risco para reis e empresários que quisessem tentar fortuna. A sociedade capitalista em formação já se dava conta de que tinha de tomar crédito, planejar, inventar, arriscar, partilhar resultados e amargar quebras.
Acabava, então, a ideia da dívida como mancha moral, até porque, sem ela, não há capitalismo.Como vimos, a não ser na instantaneidade das informações, não há nada muito novo sob a luz do Sol. Um capitalismo mais selvagem? Nem isso, apenas muitíssimo veloz e causador de danos mais amplos.






GILBERTO DUPAS , 66, é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional (IRI-USP), presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e autor de vários livros, entre os quais "O Mito do Progresso" e o recente romance "O Incidente".

Publicado na Folha de hoje.

Gélida Realidade



Ilha da Fantasia

Kenneth Maxwell

Das gélidas vastidões invernais da América do Norte, apesar da crise, muita gente continua a fugir para o Caribe a cada inverno. Por alguns dias, essas pessoas desfrutam do sol e da areia em um belo ambiente tropical. Tudo parece muito distante da situação que deixam em casa, onde as notícias pioram a cada dia.No trimestre final de 2008, 1,5 milhão de empregos foram perdidos nos EUA. Em 25 de janeiro, 75 mil trabalhadores foram demitidos por empresas como Pfizer, GM, Sprint, Home Depot, Caterpillar, IBM e Texas Instruments. Pelo final de janeiro, havia 4,7 milhões de desempregados no país. Os especialistas já estão prevendo índices de desemprego da ordem de 9% a 10% neste ano.O presidente Obama pressionou o Congresso e defendeu vigorosamente diante do público o seu pacote econômico de US$ 819 bilhões. As medidas incluem US$ 365 bilhões em gastos com energia, redução de impostos e educação. E incluem US$ 30 bilhões em subsídios às pessoas que perderam seus planos de saúde, US$ 13,4 bilhões para bolsas de estudo e bilhões adicionais para projetos de infraestrutura em todo o país. Como parte do processo, ele tentou se aproximar do Partido Republicano e foi ao Congresso conversar com senadores e deputados republicanos a fim de explicar as medidas propostas e a sua urgência. Seus esforços não tiveram impacto. A votação do pacote na Câmara foi decidida em base estritamente partidária, com 244 votos a favor e 188 contrários.Os republicanos argumentaram que o pacote era vasto demais e que seria impossível fiscalizá-lo. É verdade que os democratas tendem a combinar propósitos elevados e práticas questionáveis. Mas essa espécie de queixa pesa pouco aos olhos do público diante das trapaças de Bernie Madoff, que custaram US$ 50 bilhões aos investidores, e à medida que escândalos financeiros emergem a cada dia.Um dos mais recentes envolve John Thain, antigo presidente do Merrill Lynch, um banco de investimento que sofreu US$ 15,3 bilhões em prejuízo. Ele aparentemente gastou US$ 1,2 milhão reformando seu escritório -incluindo um tapete de US$ 84.784 e US$ 89 mil em cortinas. A desistência do ex-senador Tom Daschle, confidente de Obama, à indicação para o cargo de secretário de Saúde e Serviços Humanos, após ter sido divulgado que ele deixara de pagar mais de US$ 100 mil em impostos, é um golpe significativo para um presidente que prometeu elevar padrões éticos.Havia uma velha série de TV chamada "Ilha da Fantasia". Os norte-americanos que estão passando férias nas praias do Caribe deixaram a dramática situação de seu país para trás, por enquanto. Mas, quando voltarem a Chicago, Nova York ou Boston, terão de enfrentar uma gélida realidade.

Artigo publicado na Folha de hoje.