Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Novamente - Keynes


Keynes, de novo
Antonio Delfim Netto

Há duas semanas, publicamos nesta mesma coluna um "suelto" no qual reconhecíamos que o New Deal do presidente Roosevelt ajudou a superar os aspectos mais dramáticos da profunda recessão instalada em 1929 nos Estados Unidos, que era então, como é hoje, o coração do "capitalismo". Por outro lado, sugerimos que a "glamourização" do New Deal como uma política "keynesiana" era equivocada.
A singela "prova" que apresentamos foi a seguinte: em 1937, a receita pública cresceu em resposta às ações do New Deal, mas o nível do PIB estava longe do "equilíbrio", (a taxa de desemprego era de 15%) e a expansão monetária (juntamente com o "corporatismo" criado pelo New Deal) produziu uma inflação de 4,7% (com o nível dos preços muito abaixo dos de 1929). A resposta de Roosevelt foi produzir um superávit fiscal e (através do Fed) aumentar a taxa de juros, o que gerou uma nova recessão em 1938, quando o PIB caiu 4,6%!. Tudo claro, simples e aborrecidamente numérico! Felizmente, não. Fui honrado com meia dúzia de observações de leitores civilizados. Descobri que existe uma seita de adoradores do "keynesianismo hidráulico" tão desinformada sobre o papel do "mercado" (suas virtudes e problemas e sua relação com o Estado) quanto a seita dos "neoliberais", que, agora, depois da crise, tem um "ar de cachorro que caiu do caminhão de mudança"...Para tranquilizar mentes e corações dos keynesianos hidráulicos mais sanguíneos, gostaria de sugerir-lhes a leitura do artigo (hoje clássico) do grande economista E.C. Brown, "Política Fiscal nos Anos Trinta: uma Reavaliação" ("The American Economic Review", Vol. XLVI, December 1956: 857-879), cuja conclusão é clara e irrefutável: "A política fiscal (obviamente, a de inspiração keynesiana) nos anos 30 parece não ter sido bem sucedida, não porque não funcionou, mas porque não foi tentada". Vão gostar. Estão lá todos os velhos fantasmas que nos assombraram nos anos 50 do século passado.Para os detratores do poderoso Maynard, transcrevo frases (tradução livre) de uma carta que ele enviou a Roosevelt (1º de fevereiro de 1938): a política de 1937 "foi um erro de otimismo". Nela dá dois conselhos: 1º) "renovar os esforços no gasto público" e 2º) tentar cooptar o setor privado: "você pode fazer o que quiser com ele"... "mas, sem realinhá-lo no esforço comum, a recuperação não acontecerá". Este, aliás, é um bom conselho para certas autoridades brasileiras cujo autismo é manifesto.
Na Folha de hoje.

4 comentários:

charlie disse...

Devo estar alinhado com a tal "seita dos neoliberais". hehe

Mas nós, os que seguimos a escola austríaca, pelo menos, não estamos surpresos com alguma suposta falha do livre mercado, simplesmente porque que tal sistema de liberdade econômica não existiu em sua plenitude. Longe disso! Se levou tanto tempo para o intervencionismo criar as bolhas e o mercado para explodi-las, este fato apenas demonstra a riqueza dos países desenvolvidos e sua capacidade de agüentar ingerência.


De qualquer forma, as duas sugestões de como não se conduzir a sociedade durante uma crise ilustram Keynes com perfeição: gastos públicos e manipulação da iniciativa privada. Se algum país aplica a fórmula e vive para contar a história, então merece alguma premiação qualquer por resistência. Ela sobreviveu apesar do tratamento, não em função dele. Mais ou menos como os enfermos da antiguidade que eram tratados com sangria: alguns até sobreviviam à doença e ao tratamento...

Carlos Eduardo da Maia disse...

Charlie, o que seriam das grandes empresas sem a força indutora do Estado? Seriam elas grandes empresas? O que seria da Gerdau, da Vale, da Votorantim sem o financiamento do BNDES? Concordo contigo que o sistema de liberdade econômica nunca existiu, mas tivemos sim uma época em que qualquer intervenção estatal na economia era vista como pior dos pecados. A crise mostrou que o poder de fiscalização e regulamentação do Estado é fundamental. Isso não significa intervenção... Mas, admito, que pode significar .. tudo depende do governo.

charlie disse...

Por grandes empresas eu entendo aquelas que foram bem sucedidas em satisfazer uma demanda da sociedade. Que existam empresas bem sucedidas financiadas por bancos públicos, não duvido: com certeza elas existem. Mas existem no mercado financeiro bancos privados capazes de fazer a mesma operação, com a vantagem de não arriscar a grana do contribuinte. Para uma empresa ter sucesso não se pode depender de uma graça do Estado ou de um privilégio concedido pelo governo, mas exclusivamente da vontade do consumidor expressa através do mercado livre.

Mas só para sublinhar, não tenho nada contra um governo possuir bancos, ou “empresas” (agência me parece um termo mais apropriado) de qualquer natureza, desde que não pratique monopólio e entre no mercado com as mesmas condições que a concorrência privada (e isto, sabemos, raramente ocorre quando agências do governo se envolvem).

E se por acaso as empresas citadas não existissem graças ao financiamento do BNDES, outras existiriam em seu lugar e a demanda seria satisfeita de qualquer maneira. Onde houver demanda, há lucro, e onde há lucro, há empresários interessados em arriscar.

charlie disse...

Meodeus! Quando me converti neste neoliberal miserável do último comentário? Vão longe os tempos de esquerdismo....

hehe