Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


sexta-feira, 30 de maio de 2008

Sábado Sem Sacolas Plásticas


Sábado, em Porto Alegre, é dia de feirinha. E na rua mais bonita, a José Bonifácio, ali paralela ao parque da redenção, onde está localizado o monumento do expedicionário e o Colégio Militar, existe a melhor feirinha da cidade. Fiquei sabendo hoje que essa feira é a a maior da América Latina em produtos agroecológicos. Lá você encontra, rúculas que duram dias, alfaces de todos os tipos, agriões para todos os gostos, azedinhas bem amargas, manjericões hiper cheirosos, tomates gaúchos, paulistas, cerejas e peras e tem também uma senhora que vende massas feitas em casa com recheios para todos os gostos, maravilhosos nhoques de batata, de aipim e de mandioquinha e tem a florista que vende flores do campo e girassóis, o carinha dos cactos, o senhor que vende cogumelos shitake, shimenji e paris, o pessoal do queijo de cabra e dos biscoitos orgânicos e a simpática mulher que planta e vende todo tipo de bromélias.


Pois bem, amanhã, sábado, os organizadores da feirinha estão avisando aos frequentadores que
será o primeiro dia sem sacolas plásticas. É um desafio de primeiro mundo. E o ditador deste Blog aprova essa iniciativa. Não sei se vai dar certo, é de se conferir.

Brizola e Iberê eram Irmãos?









Educar para a democracia ou para o mercado?



Quando se fala em democracia e mercado tenta se reduzir o foco da questão como se democracia e mercado fossem focos antagônicos, como se fossem excludentes, como se essas duas linhas fossem completamente incomunicáveis. Não são. Por esses motivos, aplaudo o artigo do professor Marco Antônio Bomfoco, publicado hoje na Zero Hora:






Educar para a democracia ou para o mercado?
Marco Antônio Bomfoco


Nos últimos anos, como resultado do pragmatismo da sociedade moderna, vem ocorrendo a redução da fronteira entre educação geral e educação profissional. Neste contexto, assistimos a uma crescente necessidade de especialização imposta pelo mercado de trabalho, que termina por descaracterizar a formação geral do estudante, propiciando até mesmo certo desinteresse pelo exercício dos valores democráticos.Vista como escoadouro para o mercado ou para a universidade, a escola enfrenta todo tipo de pressões. Em 2007, o péssimo desempenho de nossa educação da rede pública ficou demonstrado quando o Brasil obteve o 52º lugar entre os 57 países pesquisados pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). De fato, o país não avançou em relação à avaliação do Pisa em 2003, permanecendo quase no último lugar. Como resultado, os estudantes são incapazes de compreender os rudimentos da matemática e de ler e escrever na própria língua. Para piorar as coisas, recém egresso de uma educação básica ineficiente, o estudante é prontamente admitido na educação superior que, especialmente no caso do ensino particular, está cada vez mais entregue à ditadura do mercado. Não faltam avaliações para conhecermos o desempenho dos alunos e das escolas, mas os dirigentes educacionais esquecem que as avaliações devem servir para mudar a escola.Apesar de reconhecida por todos como indispensável para o desenvolvimento econômico, a educação ainda não recebeu a atenção devida por parte da elite política. Só para ficar no Rio Grande do Sul, partidos de todas as ideologias já ocuparam o Piratini nas últimas décadas, e nenhum deles fez da educação uma prioridade clara de governo. O mesmo pode ser dito do governo federal. Por outro lado, países que investiram pesadamente na educação, como Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura, têm crescido na ordem de 7% ao ano. Sabe-se que, quando se cresce nesta ordem, o rendimento do país duplica de 10 em 10 anos. O investimento no capital humano não é condição suficiente para o desenvolvimento, porém é onde o processo criativo começa.Em sociedades governadas pelo mercado, cada vez mais populações inteiras são reduzidas a forças de trabalho. Mas não devemos identificar desenvolvimento com obediência escrava a leis de mercado que beneficiam há anos alguns poucos países. O ponto de partida é acreditar que todos os contextos sociais criados pelo homem podem ser aperfeiçoados. Para tanto, precisamos de uma educação que forme em primeiro lugar cidadãos, e não apenas operários qualificados. Que sejam verdadeiros profissionais: criativos e capazes de novas idéias e de propor novas formas de olhar para velhos problemas. Estes só podem vir de uma escola e de uma universidade nas quais a formação geral básica seja fortemente buscada.

Alvaro Siza e Iberê


O arquiteto português, Alvaro Siza, admirando sua nova obra, o Museu Iberê Camargo em Porto Alegre.


Fiquei sabendo ontem que Iberê morreu pintando. Estava debilitado pelo câncer que corroia seu corpo. No seu último dia de vida pediu uma caneta para rabiscar alguns detalhes. Alguém foi correndo buscar na Casa dos Desenhos, no centro de Porto Alegre, o bendito instrumento. A viúva de Iberê tem esses desenhos até hoje. Eles estarão expostos no novo Museu Iberê feito por Alvaro Siza, com z. Foi ela, Dona Maria, que escolheu o arquiteto Siza para fazer a obra. Siza é que nem Iberê, atento a todos os detalhes. Siza não conheceu Iberê, mas eles são semelhantes. São artistas, são competentes. E hoje um grupo de blogueiros da vida, estão a criticar que a obras de Iberê apareça defintivamente para a humanidade, porque um empresário do aço resolveu bancar, mediante incentivos fiscais, a boa ação de um belo museu, numa área que antes não havia nada. Se não fosse esse empresário do aço, o Museu do Iberê não existiria e sua obra ficaria restrita ás exposições privadas dos mecenas da vida. Não vamos fazer aqui chantagens emocionais, porque isso não leva a nada. Apenas recomendo que certas pessoas pensem melhor sobre seus preconceitos. Porto Alegre tem seus ares provincianos, é certo. E tem gente que insiste que Porto Alegre fique cada vez mais provinciana.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Aviso aos Navegantes


Estamos cada vez mais distantes dos tempos da Casa Grande e dos feitores. Este é um tempo que já passou em certos lugares, mas que insiste em permanecer no Brasil arcaico que deve mudar. O caminho da inserção social dos excluídos não tem volta. É isso o que o Brasil tem que fazer, como fizeram os países socialmente desenvolvidos. É só seguir determinadas linguagens, como investir maciçamente em educação. Mas tudo na vida é cíclico e a história - ao contrário do que dizem - não está determinada, nem pela religião e nem pela ideologia. A previsão de Fukuyama é equivocada. A história não acabou, ela continua, mas seu curso não pode ser determinado pela luta radical, porque o ser humano, por essência, é sensível, sensato e razoável.

Entre o Ser e o Nada eu fico com o Museu Iberê


Cara, eu me divirto lendo o diário gauche. Eu tinha absoluta certeza de que o gauche iria criticar a construção do Museu Iberê, realizado pelo Grupo Gerdau, por conta de incentivos fiscais... Iria dizer isso, isso e aquilo.


Batata, o gauche hoje lançou o seguinte post. Depois eu comento:


Cumprimentando com o chapéu alheio


Esse texto de Zero Hora, abre uma matéria sobre o pintor Iberê Camargo, falecido em 1994:
“Jorge Gerdau Johannpeter, 71 anos, é dos homens mais incomuns que se conhece, um dos mais respeitados do país e um dos mais invejados, líder empresarial de sucesso e projeção internacional. Comenta-se que o presidente Lula, desde o primeiro mandato, gostaria de tê-lo como ministro”.
Se o empresário Jorge Gerdau é diabético, hoje certamente passará mal com tanto açúcar. Mas e Iberê? Ora, Iberê. Quem mandou ser gauche na vida!
O negócio é usar recursos públicos para financiar um museu com nome de um "comunista" (como diziam) para satisfazer o ego narcísico da burguesia guasca. E que ainda vampirizam a obra de um artista que sempre repudiou (como classe) aqueles que interessadamente hoje o adulam.
Falando sério: o Museu Iberê Camargo de Porto Alegre, que estará aberto à visitação pública a partir de sábado, foi totalmente construído com recursos públicos.
Me explico: mais da metade dos recursos foram investidos pela estatal Petrobras, e o restante resulta de incentivos fiscais aproveitados pela iniciativa privada para investir em arte/cultura. Ou seja, o Estado faz uma renúncia fiscal com o objetivo de estimular o pseudo-mecenato de empresários como o senhor Jorge Gerdau Johannpeter, que nos olha sorrindo da capa de ZH (fac-símile), supondo que acreditemos na sua inexcedível generosidade.
Assim, se você – ilustre leitor, amável leitora – enxergar sábado em algum canto do museu uma lista de empresas privadas fazendo parte do rol de patrocinadores do projeto da construção do prédio projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza, saiba que esses recursos de patrocínio foram impostos não-pagos e não-recolhidos pelo Tesouro federal – portanto, objeto de renúncia fiscal, repetimos – e aplicados na edificação de cada molécula do Museu Iberê Camargo – um dos maiores artistas plásticos do Brasil, nascido em Restinga Seca (RS).
Jorge Gerdau – com diabetes ou sem diabetes – hoje está pingando narcisismo glicosado e nos saudando com o chapéu de cada contribuinte deste Estado.


Impossível ver essa bola picar e não dar um chute para o espaço.

Lá vou eu:


Porto Alegre vai ganhar um grande espaço. O projeto do português Alvaro Siza é muito interessante e está localizado em região privilegiada, onde antes não havia nada. Hoje existe algo. E tem gente que tem nostalgia do nada. Se não houvesse incentivos fiscais, o nada habitaria o local da Fundação Iberê. Entre o ser e o nada, como diria Sartre, eu fico com o ser. Em outras palavras: melhor assim do que assado. Melhor dinheiro público e privado para a construção de uma interessante obra cultural que vai trazer divisas, cultura, divertimento, fazer circular capital, atrair turismo e fotografias para concursos japoneses do que ver o dinheiro público indo para o ralo das operações Detran, Mensalão, CGTEE e outras picaretagens. Qualquer grande empreendimento cultural -- vejam o Gugenheim de Bilbao feito pelo Siza, como é que foi???? -- funciona exatamente como o Museu Iberê. O resto, o resto é preconceito de quem acha que capital é sempre ruim para a tosse.

Ignacio Ramonet - Um 'Intelectual' que Não é Sincero


Ignácio Ramonet foi editor do jornal Le Monde Diplomatique que enfrenta em seu país uma grave crise financeira. Por certo, o jornal está perdendo credibilidade, exatamente porque figuras como o pseudo intelectual Ignacio Ramonet continuam como membros ativos. Ramonet escreveu um livro sobre Fidel e é seu admirador. Sua visão sobre Cuba é absolutamente parcial, pura propaganda do sistema, e contrasta radicalmente com o que está dito pela Yoani Sanchez em seu Blog Generación Y. Entre Yoani e Ramonet, eu fico com Yoani.


Na coluna da Monica Bergamo da Folha está uma entrevista -- muito chata -- com Ramonet que este blogueiro - chato - resolveu copiar e colar aqui.



Os cubanos estão apegados ao sistema"



Ex-diretor do "Le Monde Diplomatique", publicação mensal francesa consagrada pela orientação de esquerda, o espanhol Ignacio Ramonet, 64, esteve em São Paulo para uma palestra no Instituto Cervantes sobre "Informação, Poder e Democracia". Autor do livro "Biografia a Duas Vozes", em que entrevistou Fidel Castro por mais de cem horas, o jornalista falou à coluna:


FOLHA - Como vê o futuro de Cuba pós-Fidel Castro?

IGNACIO RAMONET - Apesar de todas as análises pessimistas, não houve protestos, não houve um contexto de hostilidade ao sistema político [depois da retirada de Fidel]. Dezenas de milhares de pessoas estão participando de debates e o novo governo está adotando medidas saídas da base, como a permissão para o uso de celulares, a possibilidade de cubanos frequentarem hotéis, de terem DVD, de irem ao exterior. Raúl Castro está entregando terras a quem quer trabalhar. São mudanças na vida cotidiana.
FOLHA - Pode haver uma mudança radical no sistema?

RAMONET - Os cubanos não estão prontos para isso. Eu creio que estão apegados a seu sistema de igualdade.
FOLHA - O senhor falou sobre como certas notícias "sérias" são muito aborrecidas. O "Granma" (jornal oficial do Partido Comunista cubano) não é extremamente chato? RAMONET - O "Juventude Rebelde" (jornal do movimento juvenil cubano) já está mudando bastante. Cuba está formando milhões de profissionais de informática, os cubanos no futuro, creio, terão acesso amplo à internet.
FOLHA - Em entrevista recente, o escritor paquistanês Tariq Ali disse que Lula não pertence ao "Eixo do Bem" em que estão Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Corrêa (Equador).

RAMONET - O Tariq é muito radical. Eu penso que Lula é o melhor presidente que o Brasil teve em sua história. Vocês talvez não se dêem conta, mas a América Latina está vivendo sua verdadeira idade de ouro, com paz, democracia e crescimento, tudo junto.

Além de Troglodita Ele é Desonesto....


No mais recente livro de um ex-assessor de George W. Bush que faz denúncias graves somente depois de deixar o poder, o ex-porta-voz da Casa Branca Scott McClellan afirma que o presidente norte-americano não foi "franco" nem totalmente "honesto" sobre os motivos que levaram o mundo à Guerra do Iraque, em 2003.
Bush e sua equipe "gerenciaram a crise [pré-guerra] de tal modo que era quase uma garantia que o uso da força se tornaria a única opção factível", escreve o ex-secretário de imprensa em "What Happened - Inside the Bush White House and Washington's Culture of Deception" (O que aconteceu - por dentro da Casa Branca de Bush e da cultura do engano de Washington), a ser lançado na próxima terça, mas obtido pelo site Politico anteontem."Durante o verão de 2002, os principais assessores de Bush haviam planejado uma estratégia para orquestrar cuidadosamente a campanha vindoura para vender agressivamente a guerra. [...] Na era da campanha permanente, tudo se tratava de manipular fontes de opinião pública em benefício do presidente", diz McClellan. "O que eu sei é que uma guerra só deveria ser travada quando fosse necessário, e a Guerra do Iraque não era necessária."McClellan, 40, ocupou o cargo de julho de 2003 a abril de 2006, quando foi defenestrado. Considerado pela imprensa especializada um dos piores porta-vozes recentes por sua ingenuidade e despreparo, fazia parte da equipe de Bush desde seus tempos como governador do Texas, nos anos 90. Embora não seja original ao atirar após sair (o ex-czar antiterror Richard Clarke é outro exemplo), é o primeiro do chamado "Grupo do Texas" a fazê-lo.No livro de 341 páginas, o ex-secretário de imprensa ataca a atuação do governo após o furacão Katrina -"um dos piores desastres da história de nosso país virou um dos maiores desastres da Presidência de Bush"- e critica a atitude da imprensa norte-americana antes e durante os primeiros meses da guerra, que qualifica como "respeitadora em demasiado". "Nesse caso, a "mídia progressista" não fez jus a sua reputação. Se tivesse feito, o país estaria numa situação melhor."


Essas Imagens - Símbolo da Intifada - São Falsas




Um tribunal de recursos parisiense inocentou um francês acusado de difamação por ter qualificado como "falsa" e "encenada" uma das imagens mais emblemáticas da Segunda Intifada, a revolta palestina de 2000 que selou os rumos da atual situação na região.
Na prática, isso significa que a corte validou a acusação de manipulação feita por Philippe Karsenty, presidente de uma ONG de vigilância midiática pró-Israel, contra a TV estatal France 2.Há oito anos, o mundo inteiro viu a imagem de um pai, agachado junto a um muro, tentando proteger o filho de 12 anos com o próprio corpo, em meio a um intenso tiroteio numa rua de Gaza. O pai grita e gesticula, num aparente apelo por clemência. Segundos depois, uma nuvem de fumaça cobre a imagem. O pai aparece em seguida debruçado sobre o filho, aparentemente morto.Filmada por um cinegrafista palestino da France 2 em 30 de setembro de 2000, a gravação foi repassada a centenas de outras emissoras. As únicas informações sobre o episódio, incluindo o relato sobre a suposta autoria israelense dos disparos, foram fornecidas pelo próprio cinegrafista.
O incidente aconteceu dois meses depois do fracasso das negociações entre israelenses e palestinos patrocinadas pelo então presidente americano Bill Clinton e dois dias depois do ingresso do então premiê israelense, Ariel Sharon, na esplanada das Mesquitas, em Jerusalém -episódio que detonou a Segunda Intifada.O Egito deu o nome do menino, Mohamed al Duha, a uma rua, e homens-bomba, em seus vídeos de despedida, saudaram o garoto como mártir da causa palestina. Pressionado, Israel admitiu na época que os disparos "poderiam ter partido de posições israelenses" que estavam na área.
Em 2004, Karsenty avaliou em seu site que a reportagem da TV France 2 era uma farsa montada para servir à propaganda palestina. Karsenty apontou "incoerências" na filmagem, como a falta de sangue, e lembrou que a emissora se recusava a divulgar a íntegra da gravação original mostrando a suposta agonia do menino -imagens nunca exibidas.Os advogados da estatal abriram processo por difamação contra Karsenty, que passou de acusador a acusado. O processo se arrastou até a semana passada, quando um tribunal de Paris inocentou Karsenty e afirmou que suas ressalvas quanto à reportagem são "legítimas".Mas a corte não deixou claro se a TV francesa agiu de má-fé. Amparada por especialistas que negam que tenha havido manipulação das imagens, a emissora recorreu agora à mais alta corte de apelações do país. Até hoje, não se sabe o que houve de fato com o menino.

E Assim Caminha a Grande Mídia -Vendendo e Vendendo Bem


Não caia antes de ser empurrado

Antonio Athayde


Ainda outro dia recebi correspondência eletrônica com uma dezena de provérbios oriundos de várias culturas mundo afora. Com pequenas variações, nós aqui temos correspondentes para quase todos. Um deles, inglês, que está no título deste artigo, me fez pensar na situação pela qual passam hoje os jornais norte-americanos, que amargam resultados ruins, com perda de leitores e anúncios e, conseqüentemente, de valor de mercado. No Brasil, festejamos seguidos anos de crescimento de circulação, de faturamento e, o mais surpreendente, aumento da participação do nosso meio no chamado "bolo publicitário", a verba destinada pelos anunciantes aos diversos meios de comunicação. Surpreendente, sim, pois o crescimento da base de assinantes da TV paga e dos usuários da internet no Brasil fez com que analistas previssem que aconteceria aqui o mesmo fenômeno que preocupa acionistas e executivos da mídia impressa norte-americana. Uma rápida análise do que está acontecendo por aqui mostra o impressionante crescimento dos chamados "jornais populares", com preço baixo e conteúdo dirigido à classe C, já chamada a "classe dominante" no país. "Extra" (Rio), "Diário Gaúcho" (Rio Grande do Sul), "Super Notícia" (Minas Gerais), "Agora" e "Jornal da Tarde" (São Paulo) batem seguidos recordes de circulação. Iniciativas em Vitória (ES) e Campinas (SP) surpreendem os criadores de jornais populares por atingirem resultados muito superiores aos esperados nos seus planos de negócio.

Preço baixo, estratégia de distribuição, promoções e, sobretudo, matérias produzidas e apresentadas de acordo com o gosto do novo leitor fazem a receita desse enorme sucesso. Fica claro que estamos assistindo ao processo de formação de novos leitores que, em breve, procurarão análises mais refinadas, textos mais profundos e anúncios de produtos de maior valor agregado e migrarão para os jornais que ofereçam esse serviço. Os grandes jornais inovam com novos cadernos, reformas gráficas e revistas, além de terem feito reestruturações nas suas organizações de modo a ganhar agilidade na percepção das novas tendências do mercado leitor e do mercado publicitário. Ao mesmo tempo em que anunciam a revolução que a internet traz ao seu próprio negócio, os jornais têm seus cadernos de informática, que propagam as conquistas desse seu ferrenho concorrente. E assim também aconteceu quando da chegada da TV digital, quando foram servidos ao público cadernos especiais apresentando essa nova maneira de competição pelo tempo do consumidor. E assim se preparam para essa nova realidade, em que sua missão não é mais trazer novidades aos leitores, mas sim ajudá-los a compreender o mundo, mais complexo sob qualquer ponto de vista, inclusive apontando a melhor maneira de escolher e comprar um produto ou um serviço.


Mais aqui.


Folha de hoje - ANTONIO ATHAYDE, 62, engenheiro, é diretor-executivo da ANJ (Associação Nacional de Jornais). Foi executivo sênior da Rede Globo, Gobosat/NET Brasil, Globopar, Rede Bandeirantes e SBT. Trabalhou como consultor da Telefónica para projetos de TV na América Latina e para o Grupo Abril.


quarta-feira, 28 de maio de 2008

Sándor Márai


" Se deus existe, ele não pode ser cruel a ponto de oferecer vida eterna às pessoas."


" O lar, o de verdade, não está no mapa."


"Não há sábio capaz de dizer por que um homem e uma mulher se juntam e por que depois se separam."


" A civilização mecanizada produz também a solidão da linha de montagem."


" Não é verdade que o sofrimento nos purifica, nos faz melhores, mais sábios e compreensivos. Nós nos tornamos frios, iniciados e indiferentes. Quando compreendemos, pela primeira vez na vida, o destino, nos tornamos quase serenos. Serenos e solitários no mundo, de um modo singular e assustador."


Fonte: Livro De Verdade do escritor húngaro: Sándor Márai

O Desejo de Reparação do Caçador de Pipas


Finalmente, assisti ontem em DVD o Caçador de Pipas, do romance de Khaled Hosseini. É a história de uma reparação, de um sentimento de culpa e nesse sentido o filme tem muito a ver com Desejos e Reparação. Nos dois filmes, os personagens tentam -- de acordo com seus contextos e realidades -- arrumar, reparar equívocos que ocorreram no passado. Mas o tempo que não pára, também não volta. E a história passa, o tempo se vai, as pessoas assimilam, mas o sentimento fica e a consciência pesa. Cresce e alimenta aí o desejo de reparação.

O cenário é a impressionante, árida e paupérrima Cabul, no Afeganistão, onde vivem os meninos Amir e Hassan. Antes da invasão soviética, em 1989, eles são amigos e parceiros no jogo de cortar pipas. Amir é filho de um rico senhor de etnia paschta e Hassan é da etnia hazara. Eles moram na mesma grande casa do pai de Amir. Até que um dia Hassan é violentado por três meninos paschtas e Amir assiste a cena e não faz nada. Amir rejeita Hassan e simula que seu amigo roubo seu relógio. Hassan sai da casa onde eles moram e os dois nunca mais voltam a se encontrar. Com a invasão Russa ao Afeganistão, Amir e seu pai fogem e se exilam nos EUA. Lá começam uma nova vida. Amir se torna escritor e no ano 2000 fica sabendo que Hassan e sua esposa foram mortos pelo Taleban e que deixou um filho em um orfanato de Cabul. Amir volta ao Afeganistão para acertar as contas com o passado e com o firme propósito de conseguir a guarda do filho de Hassan.

E os malvados Talebans fazem sua parte de lobo mau que pegam e assustam as criancinhas para fazer mingau. E tem gente que tem pena desses malvadinhos que foram afastados da cadeira do poder pelas tropas do império do ocidente. Pois é, gente, o império liberta. Mas o Afeganistão de hoje é um país que sequer engatinha, não consegue andar por conta própria, porque constantemente ameaçado pelos lobos maus da vida, pelos interesses da heroina da papoula e pelos desvios da geopolítica mundial. É um filme triste e que causa impacto e, portanto, faz pensar.

The Dumbest Generation - A Geração Mais Estúpida


Foi lançado a duas semanas nos EUA um polêmico livro, chamado a Geração Mais Estúpida, The Dumbest Generation de Marck Bauerlein. Ele fala sobre a geração que nasceu nas últimas três décadas. É a chamada "geração digital" que nasceu em contato com a internet e todo o tipo de informação on line.

Será mesmo que a era digital, onde o acesso de qualquer tipo de informação em qualquer lugar, a qualquer hora está embasbacando a chamada "geração digital"?

Nunca se pode generalizar, mas o assunto faz pensar. Que fatos da vida, novas tecnologias influenciam a vida de toda uma geração é inquestionável. Eu sou da geração que assistiu Tv preto e branco e que depois vibrou quando as imagens da Tv ficaram coloridas. Passava as tardes assistindo Rin Tim Tim, Jeannie é um Gênio, Perdidos nos Espaço, Tunel do Tempo, Terra de Gigantes e até mesmo uma novela triste, tristonha, que passava à tardinha: a pequena orfã. Tudo isso influenciou minha geração que agora está ingressando nas cadeiras do poder e que viveu calada o tempo da ditadura militar.


O autor do livro, Mark Bauerlein fala sobre a realidade americana. Segundo matéria da Folha de hoje: a nova geração americana praticamente não lê. "Com toda a informação disponível on-line, como nunca antes na história, eles preferem dedicar uma quantidade inacreditável de tempo a vasculhar vidas alheias e a expor as suas próprias em redes de relacionamento como o Facebook e o MySpace",."Nossa memória cultural está morrendo",


É uma opinião similar à do filósofo italiano Umberto Eco, que, em entrevista ao jornal espanhol "El País" (reproduzida no último dia 11 no caderno Mais!), afirmou que "a abundância de informações sobre o presente não permite refletir sobre o passado"."Recreações adolescentes""The Dumbest Generation" se levanta contra as "vozes pró-tecnologia" que defendem que a navegação na internet seja benéfica à cognição. "A realidade das práticas na web", escreve Bauerlein, "é só o que poderíamos esperar: expressões adolescentes e recreações adolescentes".O que ele enxerga como uma dificuldade de absorção de informações entre os jovens resultaria também da leitura não-linear que os sites estimulam. No livro, Bauerlein fundamenta tal opinião com estudos do instituto de pesquisas Nielsen, segundo os quais os usuários mais "escaneiam" com os olhos do que propriamente lêem as páginas à sua frente."Além disso, sabe-se que, na internet, quanto mais simples a linguagem, mais os leitores acessam as páginas. O que os jovens lêem na rede não lhes acrescenta nada em termos de gramática nem de capacidade de elaborar textos", diz.ReaçõesNos últimos dias, Bauerlein vem passando mais tempo que de costume em frente ao computador, para responder, um por um, aos e-mails "raivosos" que têm abarrotado a caixa de entrada do seu Outlook."Li recentemente um artigo no jornal "Boston Globe" sobre seu último livro e escrevo para lhe dizer que você é um imbecil. Você deve saber disso. Ninguém que escreva um livro inteiro baseado na idéia de que uma geração esteja se tornando idiota por causa da tecnologia pode ter noção da realidade."A experiência de ignorar os adjetivos e discutir as "questões substantivas" com os alvos de sua tese não tem surtido muito efeito. O autor aprova o debate mesmo assim. "É sinal de que os jovens se importam, de que têm valores a defender."O diálogo que a internet permite rendeu também páginas de comentários de leitores em sites como o da revista americana "Newsweek". No último fim de semana, a publicação esquentou o debate ao lembrar que os mais velhos têm o costume de lamentar a ignorância dos mais novos ao menos desde os tempos em que, na Grécia Antiga, "os admiradores de Sófocles e Ésquilo questionaram a popularidade de Aristófanes".As críticas mais freqüentes ao livro de Bauerlein citam os testes de Quociente de Inteligência. Desde o começo século 20, o QI de crianças e adolescentes aumenta a cada geração. O conceito de "estúpido" de Bauerlein, afirma a "Newsweek", não faz sentido se forem levados em conta aspectos como a habilidade de pensar criticamente e de fazer analogias."Eles [os críticos] não entenderam o ponto central da discussão", defende-se o autor, renegando o viés anacrônico do debate. "[A discussão] não é sobre as ferramentas da internet em si, mas sobre seu uso. Quando um cientista diz que a tecnologia desafia as mentes e torna as pessoas mais espertas, ele está falando do MySpace? Ele sabe que os adolescentes passam muito mais horas em redes sociais do que estudando?"Aos detratores Bauerlein costuma responder com dados oficiais, de órgãos como o Departamento de Educação americano e o Census Bureau.Em sites, em resposta aos críticos, despeja uma porção de números da realidade norte-americana, às vezes aleatoriamente: uma pesquisa de 2006 contabilizou nove horas semanais de adolescentes conectados a redes sociais; outra constatou que 55% deles dedicam menos de uma hora semanal aos estudos em casa; uma terceira dá conta de que apenas 6% dos estudantes são considerados "muito bem preparados para a escrita"...Quanto ao "estúpido" do título, esclarece Bauerlein, é pura provocação. "Eu sou professor. Sei que são discussões como essa que fazem os jovens pensarem..."

O Cachê de Chávez


O canal estatal VTV, que detém o monopólio na cobertura da maioria dos eventos do presidente venezuelano, Hugo Chávez, informou anteontem às emissoras privadas que passará a cobrar pela retransmissão de suas imagens, a um preço de R$ 335 mil por hora. Segundo o canal oposicionista Globovisión, a medida inviabiliza a cobertura de atos oficiais.Em carta dirigida às TVs privadas, a VTV afirma que, a partir de 1º de junho, cobrará o equivalente a R$ 93 por segundo de retransmissão de sua imagem.

Ou seja, uma entrevista coletiva de meia hora com um ministro de Chávez, por exemplo, custará R$ 167.500.

A única exceção fica por conta de "discursos, declarações públicas, atos oficiais e similares" feitos por Chávez, desde que as imagens sejam usadas "única e exclusivamente" em programas de notícias "claramente identificados". Ou seja, se forem usadas numa propaganda institucional ou num documentário, por exemplo, é necessário pagar.O comunicado da VTV afirma que o canal "se reserva o direito de proibir total ou parcialmente o uso e retransmissão de seu sinal a qualquer momento".

Até agora, as regras na Venezuela eram similares às do Brasil, onde os canais privados têm acesso gratuito e sem restrições às imagens de coberturas presidenciais da estatal TV Brasil.

Após o anúncio, o ministro da Comunicação, Andrés Izarra, pediu demissão porque disse ter tomado a decisão sobre a cobrança "sem consultar as demais instâncias do governo nacional", informou em breve fala a jornalistas.

A Folha procurou durante a tarde a direção da VTV, mas ninguém respondeu aos pedidos de entrevista.Para o diretor-geral da Globovisión, Alberto Federico Ravell, a cobrança impedirá seu canal de cobrir o governo. "As informações do setor oficial não poderão mais sair em nossa tela", disse ontem à Folha. "Não somos convocados a eventos oficiais. Se vamos, não nos deixam entrar. Nos atos populares do partido do governo, agridem nossos repórteres. Por isso, usamos o sinal da VTV, para que os telespectadores tenham a outra face da moeda. Mas não podemos pagar essa tarifa."Como exemplo, Ravell cita o "Alô, Presidente", programa dominical de Chávez, que pode durar até sete horas e não é tecnicamente um ato oficial. Caso seja retransmitido por cinco horas, por exemplo, o custo será de R$1,67 milhão.Ravell diz que a medida tem como alvo a propaganda institucional "Usted lo Vió" (você viu). Transmitida durante os intervalos, mostra declarações constrangedoras para o chavismo, geralmente usando imagens da VTV.

É o caso de um discurso de Chávez feito em 2004 na Colômbia no qual ele jura "por Deus e pela minha santa mãe que, se eu apoiasse a guerrilha [Farc], não teria cara para vir aqui a Cartagena"."Isso é o que mais incomoda o governo. Pegamos uma frase que alguém disse sem editá-la, sem modificá-la e a repetimos várias vezes. Os presidentes muitas vezes dizem coisas de que se arrependem. Então simplesmente colocamos "você viu pela Globovisión" e passamos várias vezes por dia. Parece que todos os tiros vão dirigidos a isso", disse Ravell.


As mudanças nas regras de retransmissão coincidiram com o primeiro aniversário da não-renovação da concessão da emissora RCTV, sob a justificativa de que ela participou da tentativa de golpe de Estado contra Chávez em 2002.Em entrevista coletiva, o presidente da emissora, Marcel Granier, disse ontem que, ao encerrar a concessão, "o presidente ficou nu em seu patético projeto totalitarista".


terça-feira, 27 de maio de 2008

Querem Derrubar Yeda



Dez entre nove postagens do blog rs urgente do jornalista Marco Antônio Weissheimer falam sobre o caso Detran - que não começou no governo Yeda - PSDB-RS.

Interessante que o mesmo Blog falava muito pouco e pouquíssimo comentava quando o assunto era o mensalão do PT e suas incríveis ligações com o Marcos Valério. Na verdade, o RS Urgente se somava a uma certa mídia que sempre se recusou a admitir que o PT não está construindo um Brasil decente e que qualquer movimento da grande mídia e de setores da sociedade contra o governo Lula é uma tentativa de golpismo.
Vejam a charge abaixo do Eugênio Neves que fala sobre os 40 indiciados do caso Detran-RS, mas Eugênio não fez nenhuma charge sobre o indiciamento da turma do mensalão que frequentava o Palácio do Planalto do PT.


Seguindo essa mesma ótica, pode-se também indagar se essa marcação cerrada de certos blogs e mídias de esquerda em relação ao governo Yeda, para enfraquecê-lo e fazer com que perca credibilidade e popularidade, também não é uma tentativa de golpismo?

E ontem a CPI do Detran ouviu o depoimento de Lair Ferst e esse depoimento parece ter isentado Yeda. Não existe e nunca existiu uma relação de amizade entre Yeda e Lair. Lair disse que nem era o arrecadador da campanha de Yeda. Há apenas uma afirmação do Delegado Tubino, a mesma pessoa (vejam que coincidência) que gravou a voz de Diógenes de Oliveira (esse sim amigo íntimo e assessor de Olívio Dutra), pedindo para a polícia não reprimir o crime organizado. Tudo bem, eles foram, na época, inocentados, mas o Collor também foi.

Tubino disse que ouviu dizer do pessoal da PF que Lair passou para Yeda valores arrecadados na campanha eleitoral. Tais valores serviram para comprar a casa onde Yeda mora. E por que a tão zelosa Polícia Federal ainda não se manifestou sobre esse fato. Será que ela está investigando esse crime eleitoral? Será mesmo que isso aconteceu ou aqueles que perderam a eleição no RS estão tentando colocar uma lenha na fogueira do golpismo?

Mas o assunto não está encerrado. A denúncia é grave e os governos e seus governantes têm que ter transparência, é isso o que o RS tem de exigir de Yeda e de seu governo, mas temos que estar atentos, também, ao golpismo da oposição que perdeu a eleição. Ou será que golpe é sempre contra o PT e certa esquerda?

A Ideologia da Esquerda Latino-Americana


Por Diogo Schelp, de Montevidéu, na Veja On Line

O Foro de São Paulo foi criado em 1990 como uma resposta de grupos de esquerda latino-americanos ao fim do comunismo – e agora, ao que tudo indica, está querendo ver seu renascimento. O tema da XIV edição do foro, que começou na quinta-feira, dia 22, e vai até domingo, dia 25, em Montevidéu, no Uruguai, é “A esquerda de América Latina e Caribe no Novo Tempo – A riqueza e a diversidade”. A cúpula do foro está convencida de que a esquerda da região venceu uma etapa – a de encontrar um lugar no mundo depois da derrocada da União Soviética.


Por isso, no documento de convocação para o evento em Montevidéu (que pode ser encontrado no site do PT) fala-se no “relançamento do foro”. O texto diz o seguinte: “Que as organizações integrantes do FSP que estão no governo em nível nacional ou regional façam um esforço para conceituar suas conquistas, coordenar suas ações em diferentes níveis, buscar objetivos comuns e transmitir em diferentes e permanentes formas suas experiências aos que lutam para ascender a funções governamentais.”
Essa diretriz fica mais clara quando se observa o sentimento geral que prevalece nas rodinhas de conversa nos corredores do encontro em Montevidéu. Os participantes estão extasiados com o fato de que as organizações políticas de que fazem parte estão no governo de quase metade dos países da América Latina. O objetivo para eles, agora, é dominar o resto. O assustador nesta meta é o tipo de esquerda que a cúpula do foro prefere ver no poder: a ênfase não está em administrações responsáveis como a da presidente chilena Michelle Bachelet (cujo partido também participa do evento), mas em regimes populistas e estatizantes como o de Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador.

Bastante revelador foi o discurso do secretário-geral do PT, José Eduardo Cardozo, na cerimônia de abertura do Foro de São Paulo, na noite de ontem, dia 23. Alguns trechos:
“O neoliberalismo perdeu espaço. Nós avançamos, estamos em outro patamar. O PT quer reafirmar seu compromisso com esse foro. Temos a mais absoluta clareza que nossos adversários tentarão nos desunir. Temos a mais absoluta clareza que nossos adversários ideológicos e políticos tentarão nos desintegrar, porque sabem a força do momento que estamos vivendo. Queremos reafirmar: eles não conseguirão nos desunir. Permaneceremos unidos, combatendo o neoliberalismo.”
“É preciso apoiar o governo Evo Morales, na Bolívia. Esse governo tem pela frente uma difícil jornada no referendo convocatório. E nós temos que estar juntos, lutando pela defesa desse governo. Toda solidariedade e todo apoio ao governo [do paraguaio Fernando] Lugo.”
“Temos que combater com muito rigor as iniciativas criminosas de privatização do petróleo no México. (...) O petróleo é dos mexicanos!”
“A solidariedade a Cuba, meus companheiros, é mais importante do que nunca. Não podemos perder a referência histórica e simbólica que representa Cuba para todos nós.”
O discurso de Cardozo, em sintonia com os dos outros oradores da noite, revela alguns dos principais elementos que definem o foro:

A obsessão com o neoliberalismo – Segundo os participantes do foro, a América Latina é o que é hoje – pobre e irrelevante para o resto do mundo – por culpa das políticas de privatizações e de responsabilidade fiscal implementadas na década de 90 e pela ingerência americana nos assuntos internos dos países da região (leia abaixo). O ódio ao neoliberalismo é um recurso cômodo para os ideólogos do foro porque serve para qualquer coisa, mas não vai no cerne da questão. Este seria, na visão do historiador peruano Álvaro Vargas Llosa, o seguinte: as reformas liberais fracassaram na América Latina simplesmente porque foram incompletas, não por estarem equivocadas a priori. Segundo Vargas Llosa, em alguns países, por exemplo, as privatizações foram mal feitas e apenas substituíram o monopólio estatal pelo privado.
O antiamericanismo – Para a cúpula do foro, seus verdadeiros adversários não são os partidos de direita, mas os Estados Unidos. A tese é de que, se não fosse pelo desinteresse político que os americanos demonstraram pela região após a queda da União Soviética, a esquerda jamais teria chegado ao poder em muitos países latino-americanos. Os participantes do foro também estão convencidos de que os Estados Unidos continuam sendo uma ameaça e que por isso a esquerda precisa se unir. Disse Carlos Gaviria, ex-candidato à presidência colombiana, em seu discurso na cerimônia de abertura: “Estamos diante do império mais poderoso que a humanidade conheceu”. Na entrevista a VEJA, na quinta-feira, o secretário-executivo do foro Valter Pomar disse que, para fazer frente a esse império, é preciso “integrar a região latino-americana entre si”, em vez de aliar-se (leia-se: assinar tratados comerciais) com os americanos. No documento de convocação, a falecida Alca (Área de Livre Comércio das Américas) é apresentada como uma “nova forma de colonização e predomínio estadunidense de norte a sul do continente”. Por todo o documento há referências críticas aos Estados Unidos. Alguns exemplos: “a extrema periculosidade do Plano Colômbia, que é parte do orçamento federal dos Estados Unidos”, “a agressão de Colômbia a Equador, efetuada com premeditação e aleivosia mediante elementos de alta tecnologia fornecidos pelos Estados Unidos” e “persistentes agressões imperialistas”.
A solidariedade à ditadura comunista cubana – O discurso de encerramento da cerimônia de abertura – e o mais longo, também – foi feito por Fernando Ramírez, secretário de relações internacionais do Partido Comunista cubano. Sua fala foi permeada por gritinhos entusiasmados vindos da platéia e terminou, sob aplausos, com um retumbante “Viva la revolución! Viva el socialismo! Hacia la vitória, siempre!”.
O foro é um espaço de influência do PT na América Latina – O que o PT tem a ver com as privatizações no México, mesmo? Fundador do Foro de São Paulo, o partido brasileiro desde o início o utilizou para ganhar projeção e influência regional. A estrutura do Grupo de Trabalho (uma espécie de cúpula ideológica do foro) reflete isso. Com a palavra, Valter Pomar: “O Foro de São Paulo não é um conjunto orgânico. Como o próprio nome diz, é um foro que se reúne uma vez ao ano. Temos um Grupo de Trabalho composto por partidos de dezesseis países – basicamente aqueles em que, ao longo dos últimos dezoito anos, a esquerda se consolidou mais ou já tinha alguma força antes. A instituição permanente do Foro de São Paulo, portanto, é o Grupo de Trabalho. Os partidos que o compõem mudaram ao longo dos anos, mas o PT e o Partido Comunista cubano sempre fizeram parte. O Grupo de Trabalho se reúne uma vez a cada quatro ou cinco meses. O Grupo de Trabalho, no segundo ou terceiro foro, não me lembro bem, resolveu constituir uma secretaria-executiva, que é ocupada desde o inicio pelo PT. E o PT convencionou que a função deve ficar a cargo do secretário de relações internacionais do partido.”
Os representantes do PT no foro não se preocupam em defender os interesses brasileiros no exterior – A referência a Evo Morales e a Fernando Lugo são claras. Ambos têm como bandeira o nacionalismo energético, contra os interesses brasileiros. O documento de convocação do foro vai além: “A oligarquia de Santa Cruz [na Bolívia] e outros departamentos limítrofes organizam febrilmente um referendo ilegal, de caráter abertamente separatista, que aponta à divisão do país e à perda de sua unidade territorial com o propósito de manter em suas mãos a riqueza em hidrocarbonetos e gás e a grande propriedade latifundiária.” Primeiro, há nesse trecho uma distorção da realidade. O referendo de Santa Cruz, em que ganhou o “sim”, pedia para o departamento uma autonomia administrativa semelhante à que os estados têm no Brasil. Não tem nada a ver com separatismo. Segundo, o texto demonstra o desprezo do foro pelos bem-sucedidos produtores rurais de Santa Cruz, a esmagadora maioria deles brasileiros.
A reunião é um saco de gatos – A preocupação de Cardozo com a desunião dos membros do foro faz sentido: além do ódio irracional ao neoliberalismo, do antiamericanismo e da solidariedade à ditadura cubana, não há muitas outras idéias que unam os participantes do encontro. Há, por exemplo, o caso do Chile, que tem no foro um partido que está no comando do país e outro que lhe faz oposição. O secretário-executivo do Foro de São Paulo, o petista Valter Pomar, chamou a isso de “pluralidade” na entrevista que concedeu a VEJA, no primeiro dia do evento: “Se você me perguntar: o Foro de São Paulo é socialista? Vou dizer: não. O Foro inclui partidos de esquerda, com certeza, e muitos deles são socialistas. Outros são progressistas, que não escrevem o socialismo como tal em sua sigla. A idéia é de nos agruparmos com muita pluralidade, com uma crítica muito forte do neoliberalismo e na busca por uma alternativa.”

Valter Pomar Manda Tirar Jornalista da Veja do Foro S.Paulo


Leio na Veja on Line que Diogo Schelp, jornalista da Veja, foi obrigado a se retirar numa das reuniões do Foro de S. Paulo. Quem deu a ordem foi Valter Pomar, secretário de relações internacionais do PT.

A matéria é a seguinte:

A reportagem de VEJA foi "convidada a se retirar" de uma das reuniões do Foro de São Paulo, nesta sexta, em Montevidéu. Tratava-se de uma das quatro oficinas com temáticas regionais que aconteciam simultaneamente na parte da manhã. A reportagem assistia à oficina "Andino Amazônica" – em que Ricardo Patiño, ministro de Coordenação Política do Equador, explicava que o ataque que matou o terrorista colombiano Raúl Reyes em território equatoriano havia sido feito com aviões americanos, e não colombianos, como divulgado –, quando um segurança abordou o jornalista e pediu que se retirasse do local.
Curiosamente, a abordagem aconteceu poucos segundos depois de Valter Pomar, secretário de relações internacionais do PT e secretário-geral do Foro de São Paulo, avistar o jornalista de VEJA na platéia. Em seguida, ele saiu da sala, provavelmente para avisar ao segurança. A justificativa é que a imprensa não poderia participar daquela oficina.
A regra, pelo visto, só valia para VEJA: nos corredores do Foro, a reportagem conversou depois com quatro jornalistas uruguaios e um mexicano e todos garantiram que entravam e saíam livremente das reuniões, sem serem importunados. Em algumas salas, equipes de TV da Telesur e de um canal local registravam os debates livremente. Os seguranças foram orientados a manter a reportagem de VEJA longe das salas em que ocorriam as oficinas. O Foro de São Paulo vai até domingo, dia 25, e reúne cerca de 500 representantes de organizações e partidos de esquerda da América Latina.

Beto Brant e José Padilha no Fronteiras


Assisti ontem ao debate entre os cineastas Beto Brant e José -Tropa de Elite - Padilha no Seminário Fronteiras do Pensamento, realizado no auditório da UFRGS em Porto Alegre.
Primeiro falou Beto Brant que discorreu sobre sua trajetória e filmografia, sua vida de diretor de cinema, sua infância no interior de S. Paulo e mostrou os trailers de seus filmes: os matadores, ação entre amigos, o invasor, crime delicado e cão sem dono.

Quando José Padilha pegou o microfone ele disse que não ia falar de sua vida, mas isso é praticamente impossível. Padilha procura impacto para gerar discussão na sociedade. Foi com essa receita que ele elaborou o processo de criação de seus dois filmes: Onibus 174 e Tropa de Elite. Padilha falou também de dois outros filmes: Notícias de uma Guerra Particular (de João Moreira Salles, 1999) e Cidade de Deus (de Fernando Meirelles, 2002) como exemplos de títulos que "transcendem o cinema, gerando discussões em toda a sociedade".

Fiquei realmente impressionado com a objetividade e inteligência de Padilha. Ele disse: se convencionou aqui no Brasil que o problema da violência está intimamente ligado a nossa miséria. Ou seja, o Brasil é um país violento, porque aqui existe miséria. Mas essa é uma falsa ótica, porque existem países muito, mas muito mais miseráveis do que o Brasil, mas não são violentos. Por que, então, no Brasil existe essa violência? Existe algo, algum fator, algum aspecto que torna o miserável um ser violento. E que fator é esse? É o Estado.

Exemplo, no filme Onibus 174 (este blogueiro ainda não viu, mas pretende, urgentemente, ver), cujos fatos foram totalmente televisionados pela Rede Globo ao vivo, a cores e direto para todo o Brasil, Padilha conta a história do evento trágico, ocorrido em 12 de junho de 2000, que teve como personagem central Sandro Barbosa do Nascimento, que viu e sentiu na pele a ação e a omissão do Estado.
Sandro Nascimento teve uma vida de grandes tragédias; aos seis anos viu sua mãe ser assassinada na favela onde morava no Rio, virou menino de rua e frequentava os arredores da Igreja da Candelária, onde recebia abrigo e comida e no dia 23 de julho de 1993 presenciou a morte de vários amigos no terrível massacre da Candelária. Sandro sobrevivia de pequenos furtos e se viciou em drogas (cocaína), chegou a ser preso e viu de perto a violência e a tortura do sistema carcerário brasileiro, até que um dia resolveu assaltar um ônibus e que gerou a tragédia filmada por Padilha, do Ônibus 174. Nascimento resolveu sair do ônibus levando a professora Geisa Firmo Gonçalves como escudo. Ela foi atingida por uma bala de um policial do BOPE, a tropa de elite e ele foi asfixiado e morto em um camburão da polícia militar.

Sandro Nascimento é mais um miserável do Brasil que se tornou violento, porque vítima direta da omissão do Estado -- morador de favela, sem oportunidades, sem ter acesso à educação, a saúde que viu sua mãe ser morta pela violência -- e da ação violenta e torturante do Estado.

No filme Tropa de Elite, Padilha muda o ângulo, o personagem central é o mesmo Nascimento, mas um Nascimento que é policial do BOPE. E este ângulo é mais amplo, porque ele navega entre o usuário de drogas, os traficantes, a polícia convencional e a polícia de elite. E atrás de tudo isso, sobre tudo isso, diante de tudo isso, está o Estado e as pessoas que controlam a máquina administrativa, os políticos plantonistas ou não.

O próximo filme de Padilha - e ele pretende encerrar uma trilogia -- vai ser exatamente sobre o Estado, seus agentes, seus políticos, seus financiadores, aqueles que são os responsáveis pelo Estado que transforma miséria em violência.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Toma-Lá-Dá-Cá


Enquanto isso, a Folha de hoje faz uma análise da contabilidade do incorruptível PT entregue á Justiça Eleitoral, no dia 30 de abril e comparou com os dados do Portal de Transparência do governo,http://www.transparencia.gov.br/) e constatou o seguinte:


Parte das 20 empresas que mais doaram dinheiro ao PT em 2007 recebeu no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pagamentos do governo federal que totalizam ao menos 54 vezes o valor repassado ao partido.


Mais informações, aqui.

Guerrilheiros Não Morrem de Velhice - Clóvis Rossi


Guerrilheiros não morrem de velhice



Joaquin Villalobos entende de guerrilha como poucos. Foi um dos principais dirigentes e ideólogos da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, de El Salvador, que conduziu a luta armada contra sucessivas ditaduras, até transitar para a vida política institucional.

Hoje, Villalobos é consultor para a solução de conflitos internacionais e, do alto dessas duas experiências, lembra: "Durante a guerra, não me preocupava tanto a possibilidade de morrer em combate como a de envelhecer como guerrilheiro". Cita, depois, em artigo recente para o jornal espanhol "El País", "as seis insurgências mais importantes" da América Latina, que tinham em comum duas coisas: eram "rebeliões de jovens que deram tudo de si e, nesse caminho, morreram e perderam ou venceram e transformaram, mas todas evitaram envelhecer como guerrilhas".

Manuel Marulanda, o "Tirofijo", envelheceu como guerrilheiro, a ponto de ser tratado ontem pelo jornal colombiano "El Tiempo" como "o guerrilheiro mais velho do mundo".É esse o seu fracasso -e o fracasso das Farc que ele liderava. Ambos passaram do ponto de morrer perdendo ou de ganhar transformando.A morte de Marulanda tem todo esse sentido simbólico, mas não quer dizer necessariamente que ela, por si só, represente o começo do fim das Farc. Primeiro, porque o líder era muito mais uma referência do que um agente operacional. Segundo porque "historicamente, as Farc têm sido uma organização com uma estrutura sólida, e não é de descartar que saibam adaptar-se às mudanças no cenário do conflito armado", como diz Markus Schultze-Kraft, diretor para a América Latina e o Caribe do International Crisis Group.

O problema é que a morte de Marulanda vem na seqüência de uma catarata de más notícias para as Farc. Perderam, incluindo o chefe máximo, três dos sete integrantes de seu secretariado, a cúpula do movimento armado.Nas bases, é a mesma coisa: 2.400 guerrilheiros deixaram a organização no ano passado. Entre a cúpula e as bases, caíram também comandantes de frentes e de operações importantes, como J.J., Martin Caballero e o "Negro Acácio", todos no ano passado, contabiliza Schultze-Kraft.O Comando Sul dos Estados Unidos, profundamente envolvido nas ações contra as Farc, informou, em março, que os efetivos do grupo estavam reduzidos a 9.000 pessoas, das 17 mil que chegaram a ter no início do século. Operam em aproximadamente um terço da Colômbia, principalmente nas selvas do Sul e do Leste.Adam Isacson, em seu blog para o Centro para Política Internacional, escreve que a guerrilha está em "crise estratégica" e "não pode mais contar com o apoio da população local, na medida em que muitos se voltaram contra ela devido a seus métodos violentos".

Condenação na esquerda

É sintomático a esse respeito que no Polo Democrático, o partido de esquerda que, em tese, teria mais simpatia ou menos distanciamento das Farc, uma importante liderança, o senador Gustavo Petro, condene duramente a suposta aproximação de companheiros seus com o grupo terrorista, conforme denúncia do governo colombiano com base nos documentos apreendidos no computador de Raúl Reyes, o segundo das Farc, morto no dia 1º de março."Se as provas forem fortes e realmente mostrarem um nexo entre militantes, e não qualquer militante, mas congressista do Polo, e as Farc, isso indubitavelmente constituiria uma ruptura do pacto político com que se criou o Polo", disse Petro ao jornal "El Tiempo".A suposta ou real crise estratégica não quer dizer, no entanto, que as Farc serão derrotadas militarmente. Envelheceram, de fato, perderam o tempo histórico, sim, mas mudaram de ramo: calcula-se que o grupo levante anualmente entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões, pelo menos a metade dos quais proveniente do tráfico de drogas. Sem contar outros crimes, como seqüestros, extorsões e a imposição do chamado "imposto revolucionário".

Cerca de 65 das 110 unidades operacionais das Farc estão envolvidas em algum aspecto do tráfico de drogas, segundo relatório do International Crisis Group. Acabar com as Farc exigiria, portanto, acabar com o tráfico de drogas. Cai-se, então, na situação descrita pelo escritor Germán Castro Caycedo ao jornal espanhol "El País", meses atrás: "Como acabará esta guerra? Dizem que quando os Estados Unidos permitirem que se legalize a droga, quando deixarem de estimular o consumo em seu próprio país. É o nariz dos norte-americanos que alimenta o conflito".

A Alegria do Cirque du Soleil


Em 2006, o Cirque du Soleil veio ao Brasil e apresentou o espetáculo Saltimbanco. O Ministério da Cultura do Gil liberou 9,4 milhões. Foi uma polêmica, muitos consideraram um escândalo.
Pois em 2007 e 2008 o Cirque du Soleil voltou novamente ao Brasil para apresentar o show Alegria, mas dessa vez, sem qualquer tipo de renúncia fiscal. O espetáculo Alegria não recebeu nenhum benefício ou incentivo da Lei Rouanet.
Assisti ontem esse magnífico espetáculo e valeu a pena. É bom ver Porto Alegre e o Brasil respirando os ares do primeiro mundo e o circo, o teatro, aquela imensa arena estava lotadíssima, apesar do elevado preço internacional dos ingressos. Definitivamente, Cirque du Soleil é cultura e é muito legal ver todos aqueles artistas jovens de diversos países do mundo trabalhando num espetáculo de bom gosto, com bom figurino, bem apresentado, com boa música, com bons músicos e excelentes artistas. Eu não tenho dúvida nenhuma, as duas chinesas que fazem um impressionante número de contorcionismo não são humanas. São alienígenas.

É claro, é óbvio, é evidente que é um espetáculo que somente parte da classe média brasileira tem condições econômicas, infelizmente, de assisitir. Mas todos os 2.500 lugares do circo estavam lotados e assim vem ocorrendo todos os dias em todas as sessões. Isso vem a demonstrar que a classe média brasileira que tem condições de pagar de R$ 130,00 a R$ 400,00 por ingresso para assistir Cirque Du Soleil não é tão pequeninha assim e - que bom para todos -- ela vai aumentar e vai aumentar muito nos próximos anos.

O Tempo e o Lugar

O ex-militante do MST, Genivaldo Vieira da Silva, protagoniza O Tempo e o Lugar, dirigido por Eduardo Escorel, que publicou, na Folha de hoje, o artigo abaixo.


Um raro tipo de herói


Eduardo Escorel


"O Tempo e o Lugar" é o documentário que resultou do encontro improvável entre um agricultor e um cineasta. Eles se conheceram há 12 anos e voltaram a se encontrar, no ano passado, para fazer o filme agora em exibição. Genivaldo Vieira da Silva, de 52 anos, é esse agricultor familiar da região semi-árida de Alagoas. O depoimento dele trata do seu período de militância e também da sua família, composta pela mulher, Lia, duas filhas e quatro filhos, o mais velho em conflito com o pai, por divergências políticas. Tendo atuado na Pastoral da Terra por dez anos, Genivaldo pregou a Bíblia, organizou mutirões, oficiou casamentos e batizados. Fez parte do MST por cinco anos, movimento do qual foi expulso, depois de ter liderado saques a supermercados e participado de ocupações de terra. Militou no PT, partido pelo qual foi candidato derrotado a prefeito e do qual também foi expulso por ter feito uma aliança com antigos adversários. Lançado no último festival "É Tudo Verdade", "O Tempo e o Lugar" tem provocado algumas reações recorrentes nos debates posteriores às projeções. Jovens espectadores, sempre sentados na primeira fila, fazem questão de se manifestarem antes dos demais, indignados com o que é dito sobre o MST. Assim, a discussão tende a se concentrar nesse tema, como se o documentário fosse sobre o MST ou pretendesse fazer uma avaliação genérica e atemporal a respeito da sua atuação. Qual o motivo dessa polarização? Por que há essa dificuldade de ouvir as críticas ao MST, feitas por um ex-militante? Em parte, essa situação resulta de uma falha de percepção bastante freqüente. Documentários costumam ser usados para tratar de temas externos a eles mesmos, sem levar em conta a forma narrativa. São vistos como mero pretexto para o debate de questões gerais que extrapolam os limites dos assuntos que abordam. "O Tempo e o Lugar", como o título sugere, trata de resgatar a trajetória de um agricultor específico, em uma época e região determinadas. Procura, dessa forma, salvar do esquecimento uma história incomum, pouco conhecida fora do âmbito regional. Genivaldo militou no MST em Alagoas, entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990. Durante os governos de José Sarney e Fernando Collor, portanto. Entre outras coisas, ele denuncia a subordinação às decisões tomadas no Sul do país por lideranças que desconheciam as condições específicas do seu Estado (no Nordeste), a falta de assistência dada pelo MST aos assentados, o propósito de sacrificar a própria vida dos militantes em nome da causa. As críticas que Genivaldo faz são duras. Tornadas públicas, ele e o documentário estão sujeitos a serem contestados. Quanto a isso, não há o que objetar. Quem tiver conhecimento e capacidade para fazer retificações, que as faça. Por enquanto, foram feitas apenas algumas suposições infundadas. Na tentativa de minar a credibilidade de Genivaldo, ele chegou até a ser criticado por confundir a localização exata da cidade em que recebeu treinamento de guerrilha. Não são essas, no entanto, as questões que têm dominado os debates. O que tem ocorrido é outra coisa: há uma recusa sistemática, um verdadeiro bloqueio, impedindo que se ouça e se reflita sobre o que é dito. Uma jovem, em São Paulo, chegou a questionar a conveniência de trazer a público a história de Genivaldo. Um rapaz disse que as críticas dele ao MST adquirem um peso maior por que "o documentário é bom". Fica claro que a visão desses debatedores é ofuscada por suas simpatias políticas. Rejeitando o depoimento de um ex-militante, demonstram a fragilidade das suas convicções. São incapazes de se interessar por uma experiência de vida concreta, pouco usual e extremamente reveladora. É sintomático que os simpatizantes do MST não sejam permeáveis ao relato feito por Genivaldo, preferindo que não fosse divulgado. Ao assumir essa atitude, o que estão propondo, no fundo, é um ato de omissão. Talvez preferissem que ele tivesse sido assassinado, como tantos agricultores e lideranças populares, e transformado em mártir. Mas, nesse caso, não foi o que ocorreu, e Genivaldo pôde se tornar um tipo raro de herói. Porque, à diferença dos heróis trágicos, como João Pedro Teixeira, personagem de "Cabra Marcado para Morrer", Genivaldo está vivo e é contraditório. Como todos nós.

Artigo de EDUARDO ESCOREL, 62, cineasta, produziu e dirigiu, entre outros filmes, o documentário "O Tempo e o Lugar". Como montador, atuou ao lado de diretores como Glauber Rocha ("Terra em Transe") e Eduardo Coutinho ("Cabra Marcado para Morrer"), entre outros.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

O Facão Indígena e as ONG´s Internacionais


A Globonews -- hoje de manhã -- mostrou imagens dos dirigentes do movimento "Xingu Vivo para Sempre" e de um padre comprando facões numa loja. No mesmo dia, os índios agrediram o engenheiro da Eletrobrás, Paulo Fernando Rezende.
Rezende havia sido convidado pelo movimento para falar sobre a controvertida Usina Hidrelétrica de Belos Montes.

Foi vaiado e agredido por facão pelos índios.

Reza o art. 4º do Código Civil Brasileiro que os índios são relativamente incapazes, mas essa capacidade vai ser regulada em lei especial, que ainda não foi editada. Enquanto essa lei não existir (haverá interesse para que ela exista?) Os índios continuam relativamente incapazes.

Será que os índios que agrediram o engenheiro sabiam efetivamente o que estavam fazendo? Sabem eles que facão corta e mata?

Alguém aqui duvida dessas respostas?

Por outro lado, verificando as ONG´s que patrocinam eventos em defesa do movimento Xingu Vivo Para Sempre se constata que a imensa maioria dessas ONG´s são internacionais, como se verifica da página do Movimento Por Atingidos pelas Barragens (MAB), em favor daquele movimento.

São elas:
Instituto Socioambiental (ISA), Amigos da Terra-Amazônia Brasileira, International Rivers - Brasil, WWF, FASE, Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam), Rainforest Foundation, Fundação Heinrich Boell, Survival International, Rainforest Concern, Indigenous People's Cultural Support Trust, Environmental Defense Fund, Suzuki Foundation.

Racismo Contra os Brancos


Não existe nada mais nojento, asqueroso e medieval do que o racismo. Questionar, julgar e colocar em dúvida a conduta, a inteligência, as habilidades e a moralidade de uma pessoa por causa de sua cor - qualquer cor - é conduta inadmissível, é barbárie. Mas racismo não é uma via de mão única. Infelizmente, se convencionou que racismo é apenas contra os negros, contra os índios, contras os oprimidos, contra os explorados, contra os tadinhos do mundo.

Não se pode nunca esquecer que qualquer manifestação contra qualquer raça é racismo.

Em diversos blogs alternativos de esquerda se culpa os problemas do Brasil por conta de uma elite branca 'bem nascida', sendo essa a exclusiva responsável pelo atraso brasileiro de 508 anos. A culpa é da elite branca e ponto final, porque esse é o que manda e determina o pensamento politicamente correto. Esse racismo contra os brancos já gerou grandes barbáries, sobretudo na África.

Recentemente conheci uma Angolana branca que morava com sua família em Luanda até meados da década de 70 e que me contou que foi obrigada a deixar Angola, quando ela se tornou independente de Portugal em 1975. Mas ela não era portuguesa, ela se considera angolana, mas teve de sair do país, porque sua cor é branca. E teve de sair do país porque morar em Angola sendo branco era completamente inseguro, pois alguns negros angolanos começaram a matar os brancos - qualquer branco, apenas por se branco - nas ruas das cidades. Essa mulher nunca mais voltou a Angola. Isso também não é uma forma de racismo?

Aliás, pesquisando a internet, através de seus blogs e páginas, se verifica que um dos principais problemas dos países africanos é o racismo contra os brancos como se verifica aqui.

Esse discurso recheado de ódio que se vê por ai contra a chamada elite branca não deixa, também, de ser racista, medieval, hipócrita e bárbaro. Até mesmo porque os problemas do Brasil, assim como os problemas da Àfrica não são causados apenas por um determinado grupo social, como se essa elite branca fosse completamente monolítica, uniforme e tivesse nos gens um componente genético explorador. Dividir a sociedade entre coitadinhos e malvados, explorados e exploradores é a forma mais simplória e infantil de discussão e que apenas alimentas ações equivocadas como essa de criticar e se expressar de forma violenta contra o outro apenas porque é negro, índio, amarelo ou branco.

Isso tem que acabar.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Essa tira do Maurício de Souza é Racista?


No Blog do Rovai pesquei a seguinte mensagem que achei interessante:


Uma amiga-leitora deste blogue me enviou a tira que segue do Maurício de Souza. Como o leitor poderá percebe, ela foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo deste domingo. Essa colega é namorada de um amigo jornalista e estava indignada com a piada. Repassei o email na redação e houve uma certa polêmica sobre se nesse caso há ou não um discuro racista. Estou compartilhando esse caso com você para saber sua opinião. Mas adianto que nunca assinaria tal piada, até porque editei um livro cujo título é Preto e Branco, a Importância da Cor da Pele, de autoria do meu amigo e jornalista Marco Frenette e um dos momentos mais tocantes do seu trabalho é quando ele aborda o problema do preconceito na infância das crianças negras. E em especial no caso das meninas, que sofrem por demais por viverem numa sociedade branca onde o escovar o cabelo é algo tão especial.

Função Social do Banrisul?


A única função social do Banrisul foi ter feito um acerto com a dupla Gre-Nal. Dirigentes do Grêmio e Inter firmaram contratos de financiamentos e que foram concedidos pela politicália do banco. Resultado, nem Grêmio e nem Inter pagaram essa conta.


No final das contas, se acertou que essas dívidas seriam pagas com publicidade. Até um determinado ano, a dupla vai vestir camisetas com o logotipo do Banrisul.


A história é a mesma e se repete. Diversas empresas e pessoas, como a dupla Gre-Nal, tiraram e se beneficiaram de empréstimos do Banrisul, muitos contratos foram realizados em desacordo com a boa prática bancária e sem lastro. Isso gerou um déficit enorme para o Banrisul, até que o governo FHC fez o PROER dos bancos estatais. A dívida do Banrisul desapareceu misteriosamente, foi para a conta do Estado.


Mas a politicagem ainda está no comando do Banrisul... Até quando?

Vale a Pena Manter o Banrisul como Banco Público?


No início até que fui contra, mas depois de muito pensar e lendo as notícias da grande mídia e dos meios alternativos de comunicação resolvi pensar melhor sobre o assunto e todas as respostas passavam pela seguinte pergunta:


Será que vale a pena o Estado do Rio Grande do Sul manter o Banrisul como banco público?


O governo Britto tentou desestatizar o Banrisul. Foi uma gritaria geral. O PT chiou e chiou muito, lançava outdoors e avisos nas rádios e nas TVs e reclamava contra a privatização do NOSSO Banrisul, como se verifica da imagem acima, do Sindicato dos Bancários. Será mesmo que o Banrisul é patrimônio dos gaúchos?


Esse pessoal conseguiu até inserir um dispositivo constitucional na Constituição do Estado -- e haja demagogia nisso -- para se fazer um plebiscito popular para desestatizar o Banrisul.


Afinal, que vantagem tem o povo gaúcho de ter um banco estadual estatal?


Se os juros do Banrisul fossem inferiores aos juros dos outros bancos, se o Banrisul concedesse crédito a pessoas que não tivessem acesso a outros bancos, seriam razões para se manter o banco público. Mas os juros do Banrisul são os mesmos dos grandes bancos privados brasileiros e já existem bancos, como a Caixa Econômica Federal, que dão crédito à população de baixa renda.


Realmente, não há motivo para se manter o Banrisul como banco do Estado do Rio Grande do Sul.


E hoje está nos jornais denúncias do vice-governador do RS, Paulo Feijó que desde criancinha sempre foi favorável à privatização do Banrisul, dizendo que contratos do banco com terceirizadas podem estar super faturados.


É exatamente para isso, na realidade, que serve um banco estatal nos moldes do Banrisul: beneficiar o político de plantão (de qualquer partido) e seus satélites que flutuam ao redor.


Lanço, portanto, aqui uma campanha. Que o Estado do Rio Grande do Sul tenha a santa e boa coragem de levar adiante o processo de desestatização do Banrisul.


Muito melhor, mas muito melhor mesmo é o falido Estado do Rio Grande do Sul embolsar um belo dinheirinho com a desestatização do banco, e essa receita extraordinária deve servir para bancar despesa extraordinária. Que se faça uma boa estrada, que se traga um bom investimento, como foi a GM em Gravataí (bancada pela privatização da CRT e de parte da CEEE) , que se gere, com esse recurso, mais e mais empregos e receitas para o Estado.

Olívio na Comemoração da GM


Chamou a atenção ontem na comemoração da marca de um milhão de veículos produzidos na fábrica da GM em Gravataí a presença do ex governador Olívio Dutra.

Aliás, o único ex governador presente na comemoração.

Antônio Britto trouxe a GM ao Estado.

Rigotto fez duplicar a montadora.

O que Olívio fez?

Como disse o jornalista Diego Casagrande no seu programa matinal, hoje, na Band News:

Olívio impediu a concorrência da Ford.

Iotti


terça-feira, 20 de maio de 2008

68 foi um Movimento que se Standardizou


Copio do diario gauche, inclusive a foto acima, que copiou da Folha de hoje. Aquele carinha, com cara de muito louco, sentado ali na garupa do motorista (Peter Fonda) da moto é o Jack Nicholson. Comento depois.

Road movie 1968
"Sem Destino", de Dennis Hopper, é o símbolo do road movie, o filme pé na estrada, na sua versão 68. Entre muitas coisas, porque mostrou que o esperanto dos 1960 - a música - podia virar imagem sem perder demais em força explosiva.
O seu conflito fundamental era entre um mundo fixo e imóvel e o peregrino que não cabia nele. Um mundo de profissões com perfis nítidos, de família e residências fixas, de empregos estáveis. Em meio a guerras, revoluções e conflito de superpotências, essa era pelo menos a imagem de uma estabilidade prometida.Nesse mundo, o outsider 68 era um rebelde simplesmente porque não parava quieto no lugar. Não tinha rumo, ponto fixo, família, trabalho ou profissão determinada.
Hoje, a mobilidade constante e a comunicação instantânea são trivialidades do cotidiano. O desemprego é crônico, e as denominações profissionais perderam sua nitidez. Famílias se decompõem e se recompõem das mais diversas maneiras.
Um filme como "Onde os Fracos não Têm Vez", dos irmãos Coen, conta como começou esse declínio.Retoma muito do road movie 68, mas não é por acaso que não tem trilha musical e que seu peregrino é um assassino profissional. Já o título do filme de Sean Penn ("Into the Wild", "Na Natureza Selvagem") é uma resposta à canção de abertura de "Sem Destino", "Born to Be Wild" ("Nascido para Ser Selvagem"). A natureza selvagem está dentro de nós. E a trilha de Eddie Vedder tenta reatualizar a união de música e imagem dos 1960 para dizer isso. Mas seu sentido é outro.
A rebeldia não é desafio direto ao mundo estabelecido, mas busca de um "si mesmo" obscurecido pelo tumulto da vida. A rebeldia não está em mudar o mundo, mas em mudar a si mesmo contra um mundo que impõe padrões predeterminados para se levar a vida.
Como a maior dessas imposições, o trabalho é cada vez menos realização pessoal e cada vez mais um meio para "se virar" e cuidar das coisas que realmente importam. O que quer que isso signifique para cada pessoa.
É fácil dizer que essa nova idéia de rebeldia é apenas ilusão porque não altera as estruturas. Isso é certamente verdade: as pessoas são tão móveis e flexíveis quanto o capital. Mas também desconfiam de grandes transformações tanto quanto do próprio capital.
É fácil dizer que essa rebeldia é apenas expressão de um individualismo extremado. Isso também é verdade: cada qual vem antes de todo mundo. Mas se mudança vier, virá com esse novo indivíduo e não contra ele.
Reencenar 1968 como se nada tivesse acontecido de lá para cá é simplesmente reacionário.
Artigo de Marcos Nobre, professor do Departamento de Filosofia da Unicamp, publicado hoje na Folha.


Meu comentário: A rebeldia de 68 foi fundamental para as mudanças comportamentais que explicam o mundo ocidental de hoje. É salutar que isso tenha ocorrido, mas o outsider de ontem virou o insider de hoje. Tudo se sistematizou, ingressou dentro do sistema, da estrutura, se padronizou, se adequou. São mudanças que foram assimiladas pelo contexto e pela padronização. 68 foi um movimento que se standardizou.

Um Torturador na Via Pública


O delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury, o torturador mais notório da ditadura militar, é nome de rua em São Carlos, no interior de São Paulo. Saindo da universidade federal, a UFSCar, a via é a primeira da zona urbana. “Ninguém precisa ser carbonário para se horrorizar com essa homenagem”, diz o professor de filosofia Bento Prado Neto, filho de Bento Prado Júnior, falecido professor emérito da universidade, cassado pelo regime no qual Fleury foi peça-chave. Com duas quadras de asfalto gasto, a rua tem pouco mais de 200 metros. O delegado, que também criou o esquadrão da morte paulistano, nos anos 60, está em duas placas. Deve-se o tributo ao prefeito Antônio Massei, que ocupou o cargo por três vezes e baixou o decreto-lei em maio de 1980, um ano depois de Fleury morrer afogado em Ilhabela, no litoral norte paulista. Com numeração irregular, a rua Fleury tem quinze imóveis térreos, três dos quais estão fechados, um deles com uma placa de aluguel. Soma pouco mais de vinte moradores, incluídos os universitários que alugam quitinetes em duas repúblicas. Pela lei do município, só a Câmara Municipal pode mudar o seu nome. Para tanto, é obrigatório que 75% dos moradores concordem com a troca. Lineu Navarro, um ex-trotskista de 50 anos que militou na corrente estudantil Libelu e é formado em história, está no terceiro mandato como vereador do PT. Ele só atentou para o nome da rua no início do ano, quando o professor e escritor Deonísio da Silva publicou na internet um protesto. Navarro promete apresentar em breve um projeto de mudança. “Não será tão fácil quanto parece”, avalia. Em março, entregou uma carta, de porta em porta, com o seguinte texto: “O delegado Fleury foi um dos mais cruéis torturadores que atuaram em São Paulo durante a ditadura militar. Comandava o temido Dops e participava pessoalmente das bárbaras sessões de tortura a presos políticos. Hoje não faz sentido homenagear um torturador que simbolizou um período sombrio da história.” Em São Carlos, também é nome de rua uma vítima direta do delegado Fleury: o comunista Carlos Marighella, um dos líderes da esquerda terrorista, assassinado em 1969, em São Paulo, numa operação comandada pelo delegado. É uma rua de terra malcuidada, na periferia, que nem placa tem. O aposentado David Ribeiro da Silva, de 57 anos, é dono da casa de número 49 da Fleury, uma ampla construção térrea de cor rosa-flamingo, com vaga para dois carros na garagem. Mora ali há 25 anos. Num sábado à tarde, de bermuda e camiseta na porta de casa, ele disse: “O nome da rua nunca me incomodou. Mudar agora vai causar transtorno, vai ter que alterar o registro do cartório, a correspondência, o cartão de crédito.” Ele define Fleury como “um cara aproveitador do sistema, que foi do esquadrão da morte e fazia o que bem entendia”. Silva toparia a mudança do nome se fosse “para homenagear alguém de São Carlos”. E quem poderia substituir o torturador nas placas? “O meu pai, Osvaldo Ribeiro da Silva, que pintou o forro da igreja matriz e fundou a banda da cidade”, respondeu ele. No número 20, uma casa de fachada verde, vive há mais de três décadas Josefina Casarini Godoy. Ela está com 59 anos e mora com a filha. Achava que o nome da rua era homenagem a algum parente do ex-governador de São Paulo Luiz Antônio Fleury Filho. Soube que era o outro pela carta distribuída por Navarro. “Essa discussão é uma bobeira, uma perda de tempo”, afirma. Quando lhe perguntam se é contra ou a favor da mudança, contenta-se em responder: “Para mim, tanto faz.” Numa das esquinas, o amarelo berrante das paredes chama a atenção para o bar e mercearia São João, vulgo “Primeiro Gole”, estabelecimento plantado ali há trinta anos. O filho da proprietária, Luiz Roberto Ferreira, lê, atento, um Dicionário Bíblico Universal. “Ouvi falar que esse Fleury era um ditador, mas não conheço”, diz. “Se for atrapalhar o inventário do meu pai, sou contra a mudança.” Dona Orlanda, a viúva, tem 80 anos e compartilha a opinião. Bem-disposta, é ela quem dirige o bar: “Esse Fleury já fez, já aconteceu. Deixa ele pagar onde estiver.” Por enquanto, entre os proprietários, o vereador Navarro só conta efetivamente com o aposentado João Graciolli, de 69 anos. “Mesmo que dê despesa com a papelada, temos que tirar o nome do torturador”, ele acha. Nos fundos de seu terreno, Graciolli construiu duas casinhas de um cômodo e banheiro, e as aluga para estudantes por 250 reais ao mês. Um dos inquilinos é Julio Cesar Bastoni. Aos 21 anos, alto e barbudo, matriculado no curso de letras da UFSCar, confessa que não sabia quem batizava a rua quando foi morar lá, em 2004. Descobriu no ano seguinte, ao editar um livro sobre a ditadura militar. “Eu fiquei louco”, conta. “Esse Fleury foi um canalha.” Bastoni diz que lutará ao lado de Navarro pela derrubada do nome. Além de exibir clássicos da literatura – as obras completas de Émile Zola e Aluísio de Azevedo –, a biblioteca de Bastoni está repleta de livros de Marx, Engels e Lênin. A quitinete em que mora, pequena e desarrumada, lembra um aparelho das antigas, como aqueles que o delegado Fleury adorava invadir.
Pescado integralmente da última edição da Revista Piaui.