Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Philip Glass



Philp Glass tocou para o público do Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre e depois recebeu Laurie Anderson em seu camarim.

Tem gente que não conhece Philip Glass. Tem gente que conhece, mas não gosta de Philip Glass, porque repetitivo e enjoativo. Eu conheci Philip Glass numa noite fria de 1983 em um cinema de bairro de Porto Alegre e que existia aos montes na cidade. Não lembro se foi no Bristol, no Baltimore ou no Cinema Um Sala Vogue, ali na Independência. Certos fragmentos da memória apontam que foi no Vogue, o cinema de arte da capital gaudéria. Assisti a Koyaaniskatsy, Life out of balance, documentário feito por Godfrey Reggio e com música de Philip Glass. Eu sentei na sala escura quase vazia e fiquei contemplando aquele festival de imagens fantásticas e com a musicalidade -- que diziam ser minimalista -- de Philip Glass. Foi ai que conheci Glass e gostei muito. Depois assisti alguns filmes com músicas dele como Kundum de Scorsese e As Horas que considero sua melhor trilha sonora. Coleciono alguns discos de vinil de Glass, como o próprio Koyaaniskatsi e o Solo Concert. Esses dois eu baixei em MP3 da Internet. Aliás, tenho várias músicas de Glass em MP3.

Pois ontem, no Fronteiras do Pensamento, fui assistir ao Philip Glass. Ele entrou e começou a falar sobre aquele assunto muito peculiar que é a música, sua relação com o compositor amigo dos cogumelos, John Cage, o próprio Godfrey Reggio e o poeta maldito Allen Ginsberg. Juro que foi interessante a palestra, apesar de ser muito específica em relação à música. Notei que o público se incomodou um pouco com o tema, mas isso faz parte. Depois, Glass foi para o piano e tocou uma parte do Einstein on the Beach que é uma opera que ele fez no circuito off Broadway e apresentou um curta de Godfrey Reggio chamado Evidence que mostra crianças assistindo televisão, ver abaixo.

Foi um bom programa, mas tem gente que não gostou. Paciência.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Um Bom Viajante Chamado Wim Wenders


Wim e Donata Wenders com Jorge Furtado, Gerbase e Giba Assis Brasil.

Ele tem cara de gringo. Tem roupa de gringo, Tem bota de gringo, Tem óculos de gringo. Cabelo de gringo. Ele é um gringo. Ele é um gringo alemão. Ele é Wim Wenders. Ele não é um turista, mas um viajante. Ele gosta de viajar por ai. Descobrir os universos além das fronteiras. Essas barreiras formadas pela etnia, pela política, pelo nacionalismo. Há de se cruzar as fronteiras e descobrir o que está ali dentro; o íntimo das civilizações, seus lados ocultos, é necessário ir sempre além. Sentir o cheiro da casa estrangeira, o modo de vida dos casebres das favelas, das casas médias e boas da Africa, da América Latina, da América, da Europa, da Ásia, da Oceania, de todos os lugares. Wim Wenders disse que não tem preconceitos, gosta de assistir a tudo, ele está sempre aberto, mas ele tem gosto e personalidade, of course. Ele disse que o cinema está além das fronteiras. Ele saiu da Alemanha e foi morar nos EUA, percorreu o mundo e voltou para a Alemanha. Essa necessária passagem e experiência foi um acerto de contas com o passado alemão, foi assim que ele redescobriu sua alma alemã. Hoje ele vive em Berlim. As vezes temos que ir muito longe para aprendermos o que está perto. Nos jornais das grandes cidades, na parte de cinema, estão os filmes em cartaz. Em São Paulo, em Berlim, em Nova York, em Bruxelas, os filmes que passam são os mesmos de todas as grandes cidades. O cinema é precursor da globalização. Faz muito tempo - muito tempo mesmo - que as imagens e as histórias contadas pelo cinema ultrapassam os limites das fronteiras, dos muros e das cercas. O bom viajante deve procurar o bom filme. Foi assim que Wenders descobriu o mundo através do cinema alternativo que não passa nos cinemas convencionais. O Brasil foi descoberto por Wenders através das lentes de Glauber Rocha. O rasil era uma invenção, um país metafórico. Por certo, ele não estava tão enganado assim. Wenders não tem o mínimo interesse em histórias e filmes que podem acontecer em qualquer lugar. São filmes que são feitos em terra de ninguém, que não tem o necessário e fundamental sentido do lugar. Apenas os viajantes, os bons viajantes podem detectar o sentido do lugar. São os viajantes que descobrem esse sentido. Os lugares têm suas próprias histórias para contar, os lugares têm memória. É necessário, portanto, respeitar as autonomias desses lugares. As memórias dos lugares são como dunas de areia, elas sempre se movimentam, mas não perdem a identidade. Na era da globalização esse sentido do lugar, da memória do lugar, da identidade do lugar está se perdendo. Os lugares estão se tornando iguais, mas os lugares são diferentes. Eis a diferença entre o turista e o viajante. O turista fica em casa ou passeia pelos lugares, tira suas fotos, produz seus filmes e vai embora. O viajante viaja, convive. O viajante tem identidade, vive em unidade consigo. A identidade é formada pelas fronteiras, é a identidade da pessoa com o lugar. A identidade é adquirida pela experiência. O viajante deve estar aberto ao outro, à vida. O viajante tem que ser curioso. Os filmes convencionais, os comerciais, não tem o necessário feed back, eles, simplesmente, não dão retorno. Eles são apenas entretenimento. Nada mais do que isso. É bom e divertido se entreter. Isso não é ruim, mas não traz conhecimento, não faz as pessoas refletirem. São histórias que não somam, não conseguem alimentar nossas almas. Os EUA são um país que conquistaram a identidade americana, o sonho americano e essa conquista ocorreu com o produto do cinema. Desde a década de 20 os americanos têm feito filmes e histórias sobre sua identidade, seus sonhos. As imagens são as maiores armas do século XXI. O cinema, como Homero, é um contador de histórias, mas há que se ter o sentido do contemporâneo, é fundamental entender os nossos tempos, respeitar as fronteiras, as identidades, os cheiros, as almas, a vida dos lugares, suas canções e culturas. Este, para Wenders, deve ser o caminho dos bons viajantes.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Bella


Quer conhecer Nova York sem glamour? Quer saber como é o universo da cultura rico-mex- metade porto-riquenha, metade mexicana - na Big Apple?
Corra, vivente, vá assistir o filme Bella, produção americana e mexicana, dirigida por Alexandro Monteverde.
O filme tem altos e baixos. É a história de José (Eduardo Verástegui) que é chef de próspero restaurante da família, administrado com rédea curta pelo irmão mais velho (Manny Perez).

José era jogador de futebol do MetroStars de Nova Jersey e quando estava no auge da carreira algo aconteceu. O filme vai e vem. Passado, presente e futuro se intercalam. Este episódio traumático fez José deixar a barba e o cabelo crescerem e ele se enclausurou num exílio pessoal. No restaurante, José encontra Nina(Tammy Blanchard), garçonete que perde o emprego. José resolve acompanhá-la durante esse dia que dura quase todo o filme. Ela desempregada, sozinha está grávida e não quer o bebê. O que fazer? Abortar, dar para a adoção, ter a criança?

É uma história de sentimentos, diálogos e belas e comoventes cenas. Não é um filmão, mas é um bom e sensível filme.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O Desejo de Reparação do Caçador de Pipas


Finalmente, assisti ontem em DVD o Caçador de Pipas, do romance de Khaled Hosseini. É a história de uma reparação, de um sentimento de culpa e nesse sentido o filme tem muito a ver com Desejos e Reparação. Nos dois filmes, os personagens tentam -- de acordo com seus contextos e realidades -- arrumar, reparar equívocos que ocorreram no passado. Mas o tempo que não pára, também não volta. E a história passa, o tempo se vai, as pessoas assimilam, mas o sentimento fica e a consciência pesa. Cresce e alimenta aí o desejo de reparação.

O cenário é a impressionante, árida e paupérrima Cabul, no Afeganistão, onde vivem os meninos Amir e Hassan. Antes da invasão soviética, em 1989, eles são amigos e parceiros no jogo de cortar pipas. Amir é filho de um rico senhor de etnia paschta e Hassan é da etnia hazara. Eles moram na mesma grande casa do pai de Amir. Até que um dia Hassan é violentado por três meninos paschtas e Amir assiste a cena e não faz nada. Amir rejeita Hassan e simula que seu amigo roubo seu relógio. Hassan sai da casa onde eles moram e os dois nunca mais voltam a se encontrar. Com a invasão Russa ao Afeganistão, Amir e seu pai fogem e se exilam nos EUA. Lá começam uma nova vida. Amir se torna escritor e no ano 2000 fica sabendo que Hassan e sua esposa foram mortos pelo Taleban e que deixou um filho em um orfanato de Cabul. Amir volta ao Afeganistão para acertar as contas com o passado e com o firme propósito de conseguir a guarda do filho de Hassan.

E os malvados Talebans fazem sua parte de lobo mau que pegam e assustam as criancinhas para fazer mingau. E tem gente que tem pena desses malvadinhos que foram afastados da cadeira do poder pelas tropas do império do ocidente. Pois é, gente, o império liberta. Mas o Afeganistão de hoje é um país que sequer engatinha, não consegue andar por conta própria, porque constantemente ameaçado pelos lobos maus da vida, pelos interesses da heroina da papoula e pelos desvios da geopolítica mundial. É um filme triste e que causa impacto e, portanto, faz pensar.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Juno


A menina de 16 anos fica grávida. O que fazer? Esse é um grande dilema que atinge mais e mais mulheres. Talvez seja esse um dos grandes problemas do Brasil de nossos dias. As estatísticas demonstram que o número de mães adolescentes anda aumentando em doses geométricas. A menina moça que por ingenuidade se descuida e, pronto, fica grávida. Muitas escolhem ter a criança. Abre-se mão dos bons momentos da juventude, da adolescência, da mocidade para criar o filho que exige toda a atenção do mundo. Mas a realidade não funciona dessa forma. Muitas vezes essas crianças são criadas em lares sem estrutura econômica, emocional e de conforto e o destino é a própria sorte. Outra alternativa é fazer o aborto que é criminalizado neste Brasil que tem seus ranços feudais. Outra opção é ter o filho e entregar para a adoção.



Juno é uma menina de 16 anos da classe média baixa americana. Ela fica grávida de seu coleguinha de escola. Primeiro ela tenta fazer o aborto, mas desiste. Ela vai ter o filho e escolhe um casal para adotar, um casal de classe média alta, uns yuppies. E as estações do ano passam, a barriga aumenta, ela divide sua vida de adolescente porra louca com os cuidados da gravidez. Tudo parece dar certo e ela, apesar de tudo, está contente por deixar seu filho aos cuidados de um casal que parece saudável. Mas nem tudo é perfeito no mundo que aparenta ser. Existe sempre a pequena grande imperfeição. As pessoas são complicadas, egocêntricas, egoístas e infantis. Tem gente que não quer amadurescer e os problemas aparecem. A imagem do toque afetivo da futura mãe adotiva na barriga da mãe natural é a chave de tudo. É este -- sempre apesar de tudo -- o caminho da felicidade. E o filme termina com uma simpática canção de verão, a trilha sonora do filme. Enfim, a adolescência segue seu curso.


O roteiro é da surpreendente Diablo Cody que fez uma festinha a parte quando recebeu o Oscar de melhor roteiro original deste ano. Os diálogos são simples e ótimos. E a menina Ellen Page, a Juno, que fez aquele cult Menina Má (Hard Candy de 2005) sobre pedofilia está magnífica. Sabem de uma coisa? Eu recomendo este filme, mas tem gente que não gostou.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Batismo de Sangue


No diario gauche de hoje o seguinte post:


Programa de Cinema
A partir de segunda-feira próxima, dia 11/2, a sala de cinema do Santander Cultural vai exibir o filme Batismo de Sangue, sempre às 15 horas, mas é só até sábado essa barbada. Fica ali na praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre.
O filme foi dirigido por Helvécio Ratton, baseado no livro de Frei Betto sobre a luta político-revolucionária do frei dominicano Tito, durante a ditadura militar. Frei Tito e outros dominicanos estiveram envolvidos na morte de Marighella, onde teve participação ativa o ultra-torturador da repressão, delegado Fleury.
Eu quero finalmente poder ver esse filme, e anuncio-o aqui porque sei que muitos amigos e amigas também não conseguiram ver Batismo de Sangue.
As salas exibidoras no Brasil não passam de dois mil, se tanto, para cinco mil municípios, e 90% delas ficam 90% do tempo comprometidas com as grandes distribuidoras norte-americanas e seus filmes de megaprodução (que esperam megabilheterias). Por isso o grande problema do cinema tupinambá é o gargalo da exibição. A produção vai bem obrigado, mas a rosca é na hora de exibir para o grande público. O caso preciso do Batismo de Sangue.
Por isso, é importante aproveitar essas oportunidades únicas das salas alternativas, como essa do Santander (que tem incentivos do fisco brasileiro, de nós outros), para assistir produções nacionais.
Depois eu conto o que achei do filme.


Voltei.


Li o Batismo de Sangue na época da primeira edição e sempre quando passava na frente do antigo cinema São João ali na Salgado Filho em POA eu lembrava da cena contada por Frei Betto. Lembro que na época dos fatos, final da década de 60, tinha aulas de catequese com o Padre Manuel da Igreja da Piedade, personagem do livro. Não vi o filme (vou ver em DVD quando sair) e nem comprei o disco. Dizem que o filme é batido e não entusiasma. A verdade é que Frei Betto virou o rei dos chatos e seu discurso monocórdio "politicamente correto" deu para a bola de quase todo mundo. O grande público pensa diferente e gosta de assistir o que é bom. Kant nos ensinou que existe o belo e os filmes tropa de elite e meu nome é Johnny estão ensinando ao Brasil, uma nova mensagem: certos coitadinhos também são vilões. O fato de Batismo de Sangue não ter tido sucesso de público não significa que o filme não seja bom: ele pode ser bom, apenas não cativou o público que assistiu e a crítica que tem mesmo que criticar.

A Cara ou Coroa dos Irmãos Coen




Os irmãos Joel e Ethan Coen fizeram o excelente Fargo que é um mix de violência com ingenuidade média americana. Em "Onde os Fracos Não Têm Vez" os irmãos Coen relembram Fargo, mas com gotas mais perversas da violência e com pitadas significativas do poder da força da grana que ergue e destroi coisas belas. Por que um homem comum resolve pegar uma maleta de dinheiro sujo e mudar totalmente o curso de sua vida, assumindo os grandes riscos do episódio? Por que as pessoas, certas pessoas, escolhem o caminho mais lucrativo e violento da vida mesmo sabendo e tendo a santa consciência de que o sonho dourado de uma vida certa, rotineira, longa e sadia pode ir para o espaço?

E a cidade pacata (e chata) do deserto do meio oeste americano, ali perto da fronteira com o México, onde a trilha sonora do vento bate forte, acorda para um dia anormal, porque foi sacudida com o barulho estridente e seco do tiro que a impiedosidade mata. Como é difícil para o americano médio mudar a sua rotina. Como é difícil para o homem branco comum responder perguntas diretas, pertinentes e desagradáveis. E no contexto disso tudo surge o grande vilão da história recente do cinema, Anton Chigurh (Javier Bardem), que lembra a morte do sétimo selo de Bergmann. A diferença é que o impiedoso do Chigurh não tem tempo para jogar xadrez, ele tem pressa e prefere jogar "cara ou coroa" e se o vivente a ser executado erra na aposta recebe o tiro seco e profundo da morte. Tudo na mesma hora, porque não importa - tempo é dinheiro.

O assassino frio não pertence aquele tempo e nem ao pitoresco lugar. Chigurh pertence a outras léguas e a outras épocas. Enquanto o homem médio de 1980 vai - ele já está voltando. Chigurh gosta de conversar sobre os assuntos banais da vida e faz perguntas secas sobre a rotina das pessoas e, por que elas agem dessa forma. A resposta não vem. A solução é jogar. Basta jogar o jogo da vida? Vale a pena o desafio? Você escolhe, cara ou coroa?
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A Velha Desculpa de Sempre


Leio no RS Urgente um texto que o jornalista Marco Weissheimer publicou para o site de esquerda CArta Maior acerca do filme O Caçador de Pipas, que está no cinema, mas que ainda não vi (cena do filme acima)


Não pretendo aqui falar de um filme que não vi, mas de um comentário que foi feito no texto do Weissheimer. Depois eu volto:


O filme “O Caçador de Pipas”, dirigido por Marc Foster, tem o mérito de apresentar um painel sobre a cultura, as tradições e a vida no Afeganistão, a partir do relato sobre a amizade de dois meninos afegãos. É uma obra de ficção mesclada com uma tentativa de painel histórico sobre um período da história do país que compreende a queda da monarquia nos anos 70, a invasão dos soviéticos e a ascensão dos talibãs ao poder. É aí, em seu pano de fundo histórico, que os méritos definham e os problemas florescem. O filme é uma adaptação do best-seller do médico Khaled Hosseini, nascido em 1965 em Cabul e que vive nos Estados Unidos desde 1980. O livro foi escrito inteiramente na Califórnia. Hosseini só voltou ao Afeganistão depois do livro ter sido lançado, 27 anos após ter deixado o país. Essa distância espacial e temporal ajuda a entender as omissões históricas e a visão generosa do autor com o papel dos EUA na destruição de sua terra natal.
Quando visitou o país, após a publicação de seu livro, Hosseini ficou chocado. “Infelizmente, o que vi por lá era pior do que aquilo que imaginei e narrei. A destruição do país é impressionante, muito triste”, declarou em entrevista à revista Época. No livro (e no filme), o escritor é grato pela acolhida que teve nos EUA. Ao imaginar como poderia ter sido a vida do personagem Hassan, caso tivesse conseguido fugir para a América, escreve que o amigo estaria vivendo em um país “onde ninguém se importa com o fato de ele ser um hazara”. Essa visão que é escancarada em todo o filme, mostra os soviéticos e os talibãs como seres monstruosos e pervertidos sexualmente, mas omite alguns “detalhes” históricos relacionados ao papel que os EUA tiveram no fortalecimento dos talibãs e na sua chegada ao poder. Assim como ocorreu com Saddam Hussein no Iraque (contra o Irã), os talibãs foram aliados dos EUA no Afeganistão (contra os soviéticos). O civilizada e laico Ocidente foi cúmplice direto dos terríveis crimes cometidos pelos talibãs.
Se Hosseini não tivesse escrito o livro inteiramente na Califórnia, baseado apenas em sua memória e imaginação, talvez tivesse produzido um relato um pouco mais equilibrado historicamente. Ao final do filme, do ponto de vista histórico, o que fica é o seguinte: a selvageria soviética e talibã, de um lado, e o papel salvador e civilizatório do Ocidente, do outro. Nenhuma referência sobre como países como EUA e Inglaterra – e seus aliados na região, como Paquistão e Arábia Saudita -contribuíram decisivamente para tornar o país um monte de ruínas. Clique
AQUI para ler mais.


Voltei.


É questionável que EUA e Inglaterra tenham contribuído decisivamente para tornar o Afeganistão um monte de ruinas. A desculpa parece ser sempre a mesma; ou seja os grandes culpados pelas mazelas e violência mundial vão ser sempre os EUA e os países europeus. E a história não é bem essa, porque todos os fatos têm os seus contextos. Os EUA apoiaram o Taliban no contexto da guerra fria. O muro de Berlim caiu e esse apoio foi para o espaço. E o regime Taliban foi sim um dos mais estúpidos, violentos e crueis que a humanidade já presenciou e foram exatamente os EUA quem libertaram o povo sofrido do Afeganistão das garras do Taliban. Se não fossem os EUA o Afeganistão estaria ainda escravo do Taliban. Contudo, o Afeganistão de hoje não é um mar de rosas (talvez seja de papoulas que geram heroinas), mas tudo tem o seu contexto e a história dos afegães, suas culturas, sua rígida religião, seus hábitos é muito mais complexa e por isso não pode ser explicada pela visão maniqueísta ideológica que a nossa esquerda brasileira tanto gosta de usar e abusar. Nada é tão simples assim.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Desejo e Reparação


Desejo e Reparação (Atonement) de Joe Wright adaptação do livro Reparação de Ian McEwan (Cia das Letras) é um filme fabuloso e encantador. Impossível não gostar. É a história de uma sacanagem, um equívoco premeditado que altera - e como altera - a vida das pessoas. E quando o estrago está feito, surge o desejo, a culpa da reparação. O crime e o castigo. Mas como reparar a pena já cumprida por aquele que é inocente?

A direção de arte do filme é magnífica e uma cena épica (foto acima) chama a atenção. As tropas inglesas estão em Dunkerque, na Bélgica, em 39 ou 40 e a câmera se move por aquela paisagem cheia de soldados cansados e deprimidos que tentam se divertir na beira do canal da mancha, num parque de diversões decadente. É uma cena que dura alguns bons minutos e ela se espalha por todo aquele clima. É como se o cinema estivesse lá.

Por fim, duas grandes interpretações: de James McAvoy (que fez o médico no excelente O Último Rei da Escócia) e a menina Saoirse Ronan que faz a pequena Briony Tallis.
Recomendo o filme e a leitura do artigo de Contardo Calligaris publicado na Folha do dia 17 de janeiro.

ESTREOU NA sexta passada "Desejo e Reparação", de Joe Wright -uma adaptação, essencialmente fiel, da obra-prima de Ian McEwan, "Reparação" (ed. Companhia das Letras).O filme recebeu o Globo de Ouro para melhor drama e será certamente um sucesso de público. O livro de Ian McEwan é já um clássico e um best-seller. Por quê? Certo, Joe Wright fez um filme maravilhoso, e McEwan é um dos melhores escritores do momento. Mas não é só isso. Acontece que, na tela ou nas páginas, a história contada revela e ilustra um canto ao mesmo tempo escuro e familiar da subjetividade de todos nós, ou melhor, como se diz em psicologia, um mecanismo psíquico que governa nossa vida muito além do que a gente pensa. Resumindo: uma menina, dotada de uma certa predisposição artística e inspirada por uma paixão amorosa e pelo ciúme inconfessável que essa paixão produz, faz uma sacanagem que estraga radicalmente a vida da irmã assim como a do jovem que ama essa irmã e é amado por ela. A menina, ao crescer, tenta expiar sua culpa e descobre que ela poderá remir-se escrevendo não tanto a verdade do que aconteceu, mas uma história, um romance. É de uma vida dedicada à literatura que ela esperará a redenção: um romance reparará, enfim, o ato funesto que ela cometeu. Os distribuidores brasileiros do filme mudaram o título de McEwan. Acrescentando "desejo" a "reparação", eles fizeram uma escolha aceitável. Evitaram, em particular, a tentação de optar por algo como "Culpa e Reparação", termos ligados por uma implicação óbvia: a gente faz uma besteira, sente-se culpado e tenta acalmar a culpa reparando os danos -às vezes, trata-se de uma decisão consciente, outras vezes, nossa vida inteira se organiza ao redor de um projeto reparador sem que a gente saiba direito por quê (afinal, somos sempre culpados de alguma coisa, não é?). Claro, a culpa pode exigir reparação, mas talvez a vontade de reparar os tortos não seja apenas a conseqüência das culpas que nos tocam por causa de nossos malfeitos. Talvez essa vontade seja algo mais radical, mais originário. Foi uma grande psicanalista, Melanie Klein, que introduziu a "reparação" entre os conceitos da psicanálise. A idéia básica é a seguinte: um belo dia, o bebê se dá conta de que os objetos de seu amor são pessoas inteiras (por exemplo, ele descobre que não gosta apenas do seio que o alimenta, das mãos que cuidam dele etc., mas da mãe como um todo). Logo, nosso bebê começa a sentir a necessidade de "reparar" os "danos" que sua visão anterior do mundo teria causado -em suma, de reconstituir o corpo materno que ele havia consumido aos pedaços. Isso pode parecer bastante exótico aos olhos do leigo. Mas, para entender, basta considerar que nunca paramos de oscilar entre a vontade de despedaçar o outro e a vontade de reparar os estragos. Como assim? É simples e está no título do filme ("Desejo e Reparação"). No desejo sexual, em geral dilaceramos o outro desejado. Por exemplo, o desejo, sempre um pouco fetichista, prefere os pedaços: o decote, a voz, um olhar, a perna cortada pela cinta-liga, a queda dos rins, a forma dos lábios e por aí vai. Quando amamos a quem desejamos, o amor nos ajuda a reparar os efeitos do estilo carniceiro do nosso desejo: idealizamos o amado e a amada para que a beleza que neles enxergamos os preserve de nossa própria crueldade. Falando em beleza, justamente, Melanie Klein e seus primeiros alunos já pensavam que talvez a vontade ou a necessidade de reparar o mundo (despedaçado por nosso próprio desejo) fosse a força que anima nossas ambições estéticas. A incrível persistência humana na tentativa de criar algo bonito lhes parecia ser o jeito que inventamos para compensar a violência de nossa cobiça (não só sexual, aliás). Ou seja, os danos produzidos pela brutalidade de nosso querer nos dariam vontade de arrumar o mundo, de embelezá-lo, de fazê-lo ficar "bom de novo", como dizia Klein. Em suma, talvez nossa capacidade de criar algo misteriosa e extraordinariamente "bonito" (como o livro de McEwan e o filme de Wright) seja a maneira que encontramos para proteger aos outros, a nós mesmos e ao mundo contra a "loucura" de nossos desejos. Nota: é bem possível que nossa paixão ecológica de hoje tenha uma origem parecida. Afinal, ela tenta preservar e restaurar o que não sabemos deixar de destruir.

As Confissões do Estrella


Não assisti, ainda, o filme "Meu nome não é Johnny sobre a vida de João Estrella que escreveu hoje um artigo na Folha.

Confissões
OI! POSSO me sentar? Desculpem-me, mas não pude deixar de ouvir a conversa... É que esse assunto muito me interessa. Como vocês sabem, negociei cocaína no Brasil e no exterior por seis anos, entre 1989 e 1995. Nesse período, consumi quantidades industriais de drogas -LSD, haxixe, cocaína, ecstasy, álcool, cigarros, cogumelos, maconha etc. Hoje, posso dizer com tranqüilidade que estou fora de tudo isso. Mas não foi fácil. Fui preso em 1995. Fiquei quatro meses na Polícia Federal da praça Mauá, no Rio de Janeiro, até sair o resultado do meu julgamento. Na sentença, a juíza me condenou a dois anos de internação em um manicômio judiciário no complexo Frei Caneca, também no Rio. As pessoas que lá nunca estiveram dizem que foi mole, que a sentença foi baixa etc. Mas não é assim. Basta olhar o nosso sistema prisional -há exemplos trágicos muito recentes- para entender que, no Brasil, nem mesmo um único dia na prisão é "mole". Aquela é uma realidade sobre a qual ninguém pode falar de fora. Fui condenado a quatro anos de prisão. Se fosse cumprir essa sentença, poderia sair em um ano e meio com bom comportamento. A juíza substituiu a pena para dois anos no manicômio. Lá, você tem que se recuperar, porque, se não tiver uma série de pareceres positivos, a sua pena é renovada tantas vezes quantas o juiz achar conveniente. São duas situações diferentes, na PF e no manicômio. Naquela, a vida com pessoas em constante crise de abstinência e com problemas de espaço e convivência. Neste, o convívio com pessoas que tinham graves problemas psicológicos e eram, em alguns casos, bastante violentas. Na primeira situação, em que não entravam drogas, as pancadarias eram constantes entre os presos e era quase impossível não se envolver. No manicômio, por sua vez, tive o "privilégio" de conviver na mesma cela com pessoas que haviam matado seus pais, assassinado o próprio filho com pauladas e até com psicopatas famosos, como um que matava crianças -foram 14- e comia seus órgãos depois que elas estavam mortas. Além da violência, algo que me impressionou foi que, pelo menos na época, o segredo de Justiça para quem fizesse denúncias -tipo delação premiada- não passava de promessa vazia. Na PF, fui colocado na cela de uma facção por (ainda bem!) não ter denunciado ninguém. Uma pessoa que tinha feito denúncias acabou sendo espancada -o depoimento do cara foi entregue na íntegra a mim e às pessoas que estavam na cela comigo. É, meu amigo, só quem não sabe nada da prisão é que pode dizer que minha sentença foi "mole". E só quem não sabe nada de criminalidade pode achar que apontar a classe média consumidora de drogas como responsável pela violência nos centros urbanos vai ajudar em alguma coisa. Sei que "Tropa de Elite" ajudou a levantar essa questão; mas, segundo consta, foi de forma não intencional. Será que alguém tem alguma dúvida de que os jovens não estão nem aí para essa culpa? Alguém tem a ilusão de que o consumidor de drogas possa estar preocupado se está ou não alimentando a violência? Eu negociei com muita gente de elite. É pura festa, meu amigo. Pura festa. Sabe, é fácil encontrar culpados, mas nós precisamos é de soluções. Se é para falar de culpa, bem, a sociedade como um todo tem responsabilidade por quem elege para administrar o dinheiro dos nossos impostos. Mas não é só neguinho da elite que não tá nem aí. O jovem pobre e criminoso também não está preocupado com isso -e tem lá os seus motivos. Ele faz parte de uma parcela da população que, além de ser massacrada pela miséria, ainda é esculachada pela polícia, enganada por políticos e jogada na marginalidade mesmo quando não é bandida, pois marginal é aquele que não participa da comunidade, aquele que é excluído. Esses cidadãos, que são os mais combatidos e que não têm direito a cela especial, são mais vítimas do que culpados. Sinceramente? A cocaína e o ecstasy são problemas, sim, mas não são os mais graves que temos neste país. Aliás, por falar em drogas, quer tomar um "drink"? Então... Temos o álcool, que, se não me engano, aparece em primeiro lugar na lista de destruição: homicídios, acidentes automobilísticos fatais, demolição familiar, violência doméstica... A cocaína aparece em quinto ou sexto lugar na lista de ocorrências com morte. Temos ainda a fome, a falta d'água, a falta de terra, a falta de vergonha na cara dessa corja que depena o país. A bem da verdade, quem dera nossos maiores problemas fossem os ecstasys que a rapaziada toma nas festas e que estão na mídia o tempo todo.
JOÃO GUILHERME ESTRELLA, 46, é cantor, compositor e produtor. Em sua história real foram baseados o livro e o filme "Meu Nome Não É Johnny".

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Leões e Cordeiros (Lions for Lambs)


Recomendo o filme Leões e Cordeiros (Lions for Lambs) por um motivo simples: é um filme inteligente, com bons diálogos, onde a sociedade americana faz uma auto análise do passado, do presente e do futuro sobre a guerra ao terror. Não estou equivocado em afirmar que Leões e Cordeiros está para os americanos hoje assim como Tropa de Elite está para os brasileiros.

Da mesma forma que o Capitão Nascimento afirma que não existe meio termo na luta contra o tráfico de drogas que comanda as favelas da periferia das grandes cidades brasileiras, o jovem senador republicano interpretado por Tom Cruise afirma a uma jornalista liberal (Meryl Streep) que na luta contra o terror não existe meio termo e qualquer vacilo, qualquer dúvida, qualquer notícia duvidosa vai servir como alimento para os inimigos. É a doutrina Bush posta em cheque. O passado está feito, realizado, seus acertos e graves equívocos definitivamente sepultados, o que importa é solucionar o presente e garantir um futuro mais seguro.

Leões e Cordeiros é uma gratificante conversa com vários e bons atores. O setentão Robert Redford é um professor universitário, veterano da guerra do Vietnã que conversa com seu mais inteligente aluno, que pouco assiste suas aulas, sobre estratégia e objetivos de vida. Faz uma oferta para seu aluno, ele não assiste mais as aulas e no fim do ano recebe um B. No mesmo tempo real da conversa outros dois alunos voluntários no Afeganistão participam de uma manobra estratégica para que os americanos tenham o comando das montanhas afegãs, onde estão as bases do Al Qaeda e do Taleban, sendo que o Irã se transformou num corredor de ofensiva inimiga entre o Iraque e o Afeganistão. É exatamente essa informação sigilosa e essa misão secreta, essa tarefa estratégica de montar uma base americana no alto das montanhas afegãs que o senador (Tom Cruise) informa à jornalista (Meryl Streep), tudo no mesmo tempo real. A jornalista liberal questiona: será mesmo que sunitas e xiitas vão mesmo abrir mão de séculos e séculos de divergência para lutar contra os EUA? Não seria mais fácil os EUA se retirarem do Iraque e Afeganistão? O senador responde: se os EUA fizerem isso será um massacre geral e todos -- que não são poucos -- aqueles que apoiaram e formaram os novos governos destes países correrão risco de vida.

O plano estratégico e secreto -- para variar -- não dá certo. E tudo - os diálogos e a tragédia - ocorre na mesma hora, em tempo real. Os inimigos estão armados e sempre atentos. Surgem as vítimas. Mas prevalece o tom arrogante e autoritário da doutrina Bush, que nunca admite a perda, porque se nega a enxergar o passado e, por isso, tem dificuldade em entender o presente. Prevalece o pensamento politicamente correto da jornalista liberal e sua complicada relação com seu patrão: a grande mídia. Prevalece os sábios ensinamentos do velho professor, veterano de guerra. Prevalecem as novas e velhas idéias das novas gerações. Prevalece o pensamento prático e alienado daqueles que frequentam as escolas da vida, as faculdades do cotidiano, apenas para passar com a mediocridade da nota C. Prevalece a fidelidade e a garra dos soldados leões que deixam suas vidas partir porque acreditaram nos vacilos, nas inseguranças e nas arrogâncias dos comandantes cordeiros.