Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Grand Slam de Marcelo Tas

Do Blog do Tas, Marcelo Tas, pesquei este post.

Pela terceira vez sou detido por Karl Marx

Oh, céus, não é possível que vai acontecer mais uma vez... Sim, aconteceu. Estávamos gravando na Praça da Paz Celestial, célebre palco da repressão chinesa a estudantes em 1989. O guardinha falou no radinho. Apareceram outros guardinhas. Finalmente um guardão gigante, com um radinho que parecia ainda maior que os dos seus coleguinhas. E pimba: você aí, repórter com essa ferramenta contra-revolucionária na mão, o microfone, teje preso!Já havia visto esse filme duas vezes: em Cuba e depois na falecida União Soviética. Na ilha de Fidel, um policial não gostou da entrevista que fazia com um garoto que sabia imitar Michael Jackson. Em São Petesburgo, a própria tradutora (traidora!) nos entregou para uns soldadinhos a quem pretendíamos perguntar candidamente: qual a próxima revolução soviética? Azar o deles que não queriam ouvir a pergunta que na verdade era um alerta. Poucos anos depois, o partido e a URSS veio abaixo. Portanto completei a tríplice aliança, garotada: sofri na pele a repressão à liberdade de expressão na Rússia, em Cuba e agora na China. Antes que alguém tente dizer que há cerceamento à liberdade de expressão em todo lugar, incluindo o Brasil, confirmo. Sim, a rigor, não existe liberdade absoluta de expressão em lugar algum. Mas não há comparação entre o controle existente em Cuba e na China, com a liberdade de expressão, conquistada a duras penas é bom lembrar, aqui no patropi. Além da pluralidade de veículos, de todos os tamanhos e paladares, resta ainda possibilidade do próprio cidadão publicar tudo, por conta própria, na internet. Na China, isso é impossível. Tentam controlar o incontrolável: blogs, o Google e até a Wikipedia. Para não falar do site da BBC, que é totalmente fechado e casos ainda mais doentes, como a revista The Economist, que invariavelmente, como no mes passado, foi às bancas em Pequim, com uma de suas páginas arrancada! Sim, os censores chineses se deram ao trabalho de arrancar, uma a uma, a página da revista que não lhes agradou. Muito feio para uma cidade que pretende ser a capital cosmopolita das Olimpíadas e do próximo império econômico mundial.Não posso deixar de comentar aqui a melancólica de Fidel, aquele que vai tarde. Antes tarde do que mais tarde, é claro, Mas vai muito tarde. Ficou no poder literalmente até não mais aguentar. Depois de libertar Cuba das garras dos norte-americanos que usavam e abusavam da ilha como uma espécie de bordel no Caribe, não soube libertar Cuba de sua própria mão pesada. Matou e censurou quem não compartilhava de suas idéias. Centralizou o poder de uma forma tão radical que não criou uma cultura política que fosse capaz de indicar um sucessor. Melancolicamente é substituído pelo próprio irmão. Visivelmente encabulado pela sombra e sina soturna de ser o irmão mais burro de Fidel Castro. É evidente.Well, de minha parte, resta-me apenas pedir a papai do céu, que esta, a experiência como soldado gigante com o radinho na Praça da Paz Celestial seja minha última experiência de uma quase prisão num país "comunista". Completei minha tríplice aliança, meu Grand Slam: Cuba, Rússia e China. Espero que agora, os vermelhos, maus leitores de Karl Marx, me deixem trabalhar em liberdade. E que descansem em paz.
Foto: Ivana Angioni PS: este não é o guardinha que nos censurou, e sim um tiozinho flanelinha, que tenta, sem sucesso, disciplinar os pedestres a atravessar na faixa em Pequim. Maiores informações na série de reportagens que a editoria de Esportes publica em Março aqui no UOL)

Angeli


O Brasil Deveria se Endividar Mais?


NA ÚLTIMA sexta-feira, a notícia de que o Brasil tornou-se credor líquido internacional foi recebida com júbilo. Meu colega no Fundo Monetário Internacional, Paulo Nogueira Batista Jr., chegou a afirmar, com razão, que nenhum economista de sua geração poderia imaginar presenciar esse fato. Já o presidente Lula saudou o momento, mas defendeu a polêmica idéia de que o país deveria voltar a endividar-se para financiar a crescente demanda por infra-estrutura e integração regional. Frente a essa declaração, fui questionado por alguns amigos se faz sentido endividar-se mais neste momento. Minha resposta tem sido sim. Por motivos distintos: puramente financeiros, de desenvolvimento econômico e mesmo para gerar uma economia menos vulnerável a crises financeiras externas no futuro. Gostaria de tentar aqui rapidamente explicar por quê. Do ponto de vista financeiro, o fato de estarmos em situação confortável nos possibilita barganhar melhores condições de financiamento (taxas de juros mais reduzidas e vencimentos mais alongados para o pagamento dos passivos). O leitor pode perguntar: mas isso é factível em um momento de crise financeira internacional? Sim, eu diria. Não há dúvida agora de que a crise afetará a liquidez financeira internacional, mas, ao contrário do que ocorreu com as crises anteriores, com epicentro em países em desenvolvimento, esta crise nasceu nos Estados Unidos, se alastra pela Europa e Japão. Nesse sentido, a "fuga para a qualidade", desta vez, poderá beneficiar países como o Brasil, que tem demonstrado resistência a crises financeiras e reconhecidamente tem melhorado muitíssimo seus indicadores macroeconômicos. Por outro lado, no que tange ao investimento estrangeiro produtivo, o fato de o Brasil ter um crescimento mais sólido e sustentável o torna também um ímã para quem foge das incertezas sobre o crescimento das economias nacionais. No tocante ao desenvolvimento econômico, dois dos principais gargalos para o crescimento sustentado do nosso país são uma infra-estrutura precária e um mercado doméstico relativamente reduzido para o potencial produtivo brasileiro. Os investimentos previstos pelo PAC são significativos, mas, para que alcancemos o salto necessário de melhoria, o setor privado tem de assumir uma posição de destaque nos investimentos em infra-estrutura. Entretanto, se as expectativas empresariais sobre o futuro do Brasil são positivas, a oferta de financiamento de longo prazo no país continua limitada, tanto em volume quanto em diversidade de instrumentos, ao BNDES. Este tem crescido de maneira impressionante, e, por isso mesmo, sua capacidade de expansão futura parece muito aquém das necessidades de financiamento para o setor privado. Por fim, como argumentou a ministra Dilma Rousseff recentemente ao defender os investimentos do PAC (numa situação financeira internacional em deterioração), uma economia real sólida com um mercado doméstico em expansão é menos vulnerável a oscilações financeiras ou de demanda externa. Não é preciso ser "cepalino" (mas ajudaria) para aceitar essa tese: basta acompanhar o debate atual sobre o possível "descasamento" da China e da Índia num contexto de retração da economia mundial. Todos que crêem que seja possível esse descasamento baseiam seus argumentos no potencial de expansão dos mercados domésticos. Por sinal, o Brasil tem condições ainda melhores do que China e Índia para seguir uma trajetória descasada da conjuntura de menor dinamismo da economia mundial, porque o crescimento de seu mercado interno tem sido calcado num salutar crescimento do consumo de massa e de expansão de crédito. Ou seja, endividar-se mais agora para financiar infra-estrutura pode paradoxalmente reduzir nossa vulnerabilidade a futuras turbulências dos mercados internacionais, financeiros e de comércio. Esse é um dos pilares do conceito de "mercado de consumo de massa", que muitos economistas progressistas defendem há muitos anos e que tem sido, corretamente, um dos vértices da política econômica brasileira nos últimos anos (por meio dos exitosos programas de inclusão social e econômica). Em suma, o presidente Lula acerta em dizer que o Brasil tem condições e deve aproveitar o momento para se endividar mais. Desta vez, deve fazê-lo de maneira mais seletiva (no que tange às condições de risco), de forma mais cautelosa e voltada principalmente para complementar as necessidades de financiamento de infra-estrutura e integração regional.

Artigo de Rogério Studart, 46, doutor em economia pela Universidade de Londres, é diretor-executivo do Banco Mundial para Brasil, Colômbia, Equador, Filipinas, Haiti, Panamá, Suriname e Trinidad e Tobago, publicado na Folha de hoje.
* foto de Claudia Andujar

Iotti


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O Poder da Ambivalência


A liberação de reféns depois de anos no cativeiro é cativante. Emociona, faz as pessoas chorarem. E é justamente esse tipo de sentimento que Chávez busca pelo motivo simples de ter boas relações com os sequestradores das Farc. Tudo é muito ambivalente, tudo é muito delicado. Por um lado, o sentimento dos sequestrados e dos familiares dos sequestrados que vêem -- e com razão -- em Chávez talvez a única solução para os seus problemas. E de outro lado, a guerra entre exército colombiano e as Farc. Ocorre que o governo Uribe está ganhando a guerra. As Farc estão encurraladas e não tem apoio popular e a alternativa que se vê envolvida é exatamente essa: a de entregar os reféns para Chávez, porque todos eles fazem parte do mesmo círculo bolivariano. De fora desse circo está Uribe -- que conta com a simpatia dos EUA que abastece de dinheiro o Plán Colómbia. Uribe e Chávez estão definitivamente de lados opostos. Um está ganhando a guerra contra as Farc e o outro está ganhando a guerra midiática com o poder da ambivalência.
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Obama, Tocqueville e a Ilusão Americana - Francisco Oliveira



TOCQUEVILLE ESTÁ entre os mais reputados teóricos da democracia, e seu livro clássico sobre a democracia na América em nada se parece com os tratados enfadonhos e formais sobre a forma de governo inventada pelo gregos da época clássica. Trata-se de investigação sobre os fundamentos, eu diria, sociológicos, da democracia nos EUA; nosso Sérgio Buarque de Holanda fez, com o também clássico "Raízes do Brasil", a explicação de por que a forma democrática é quase inviável em Pindorama. Mais de um século depois, o belicista Churchill cunhou outro paradoxo, plagiando Tocqueville: a democracia é o pior de todos os regimes, salvo todos os outros. O velho leão britânico somente aprenderia a não incentivar guerras coloniais -"remember" a Guerra dos Bôeres- depois que o nazismo ameaçou liquidar a velha Albion e submeter o mundo ocidental a uma nova idade das trevas. Barack Obama, parece, será o indicado pelos democratas para a disputa da Casa Branca, desbancando a chata da Hillary, coisa que talvez se defina logo no próximo dia 4. Para os leitores de Tocqueville, talvez sua eleição à mansão sem estilo da avenida Pensilvânia pareça realizar os prognósticos do nobre francês. Mas aqui entra o famoso paradoxo de Tocqueville, segundo o qual a ampla democratização torna banal a participação dos cidadãos e desinteressante a democracia. O forte absenteísmo dos próprios norte-americanos às suas eleições presidenciais confirmaria o pessimismo tocquevilleano. Em termos schmittianos, a democracia de massas é não-agônica, onde não se decide nada. Não falta ao paradoxo de Tocqueville, como é óbvio, um certo desdém aristocrático, que o autor francês disfarça todo o tempo. Uma crítica de direita se alinharia apressadamente ao paradoxo, desqualificando imediatamente a eleição do primeiro negro à Presidência dos EUA. Uma crítica pela esquerda vê o problema de outro ângulo: o paradoxo de Tocqueville não decorre da banalização da democracia pelo predomínio das massas, mas é um produto da colonização da política pela economia. Em outras palavras, o capitalismo, em sua fase globalitária, torna inútil a política e irrelevante a participação dos cidadãos. Nos EUA, é certo que decisões como a invasão do Iraque foram até mesmo planejadas no Salão Oval, mas antes o celerado Bush filho teve que pedir permissão a Alan Greenspan, o ex-todo-poderoso presidente do Fed; aliás, esse senhor atravessou os dois mandatos de Clinton e entrou pelo mandato de Bush adentro, somente renunciando um ano e meio atrás, e os norte-americanos nunca votaram nele para coisa alguma. E o Senado norte-americano, que ratifica as indicações presidenciais, faz-lhe uma argüição que é tão contestadora quanto os programas de Silvio Santos. Isso é a colonização da política pela economia. Entre nós, mesmo a própria democratização brasileira, de que o PT foi co-autor importante, é hoje irrelevante: em lugar da transformação prometida pelos longos anos da "invenção democrática", o PT e Lula transformaram-se em fiadores do capitalismo globalitário no Brasil. Vejam-se, como já se salientou aqui mesmo nesta Folha, os lucros do sistema bancário brasileiro e o tratamento do social: meros R$ 8 bilhões para o Bolsa Família, o ai-jesus de Lula e do lulo-petismo, e R$ 160 bilhões de juros da dívida pública interna. Ou em 2007, os R$ 20 bilhões do lucro dos quatro maiores bancos contra os R$ 21 bilhões de todo o Orçamento social de Lula (incluindo-se seguridade social, Bolsa Família et al). Tomara que Obama desminta o paradoxo de Tocqueville; tomara que suspenda imediatamente o odioso embargo contra Cuba, aproveitando inclusive a oportunidade da retirada de Fidel da linha de frente do governo cubano; tomara que retire as tropas do Iraque, terminando de vez com esse desastre anunciado; tomara que retome a linha de um Jimmy Carter, não apoiando as ditaduras e o descarado intervencionismo gringo; tomara que inaugure uma linha próxima do New Deal rooseveltiano e detenha o empobrecimento das classes populares norteamericanas e a crescente desigualdade; tomara que um desastre como o Katrina não possa outra vez expor a olho nu a produção desapiedada da pobreza, escondida no charme da outrora francesa Nova Orleans. Tomara. Mas que é improvável, é. Ele é tão parecido com a Hillary, com seu terninho correto que faz par com o tailleur da ex-primeira-dama, quanto o PT com o PSDB. Tocqueville ri na tumba?


Artigo de Chico Oliveira, publicado hoje na Folha


*imagem de Alexis de Tocqueville

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Rio Grande


As vozes que cantam
fazem cena
viram espetáculo
dizem luzes
lugares foscos
do maquiavélico maniqueísmo
tremenda chatice
Grande Rio Grande
berço da divisão
que gosta de beber o caldo
oco do discurso opaco.


Imagem: Iberê Camargo fotografado por Luiz Eduardo Achutti.

História da França em Imagens




Não existe história mais fascinante do que a da França do fim do século XVIII até o início do século XX. São inúmeros os acontecimentos: a revolução, o terror, a morte do rei e da rainha no cadafalso, Napoleão e seu império, a volta da monarquia, as revoltas populares, Napoleão III, a Comuna de Paris. É a história de monarquias, impérios, repúblicas, revoluções, utopias, golpes, eleições, sufrágios, guerra civil. E encontrei -- via blog sequencias parisienses do professor Luiz Felipe de Alencastro um site muito legal. É a história da França por imagem de 1789 até 1939. Recomendo. Pincei duas imagens (acima), a de Luiz XVI e sua família e o retorno à Paris depois da Comuna de 1871. Clique aqui.

Cruzando a Iugoslávia em 1985


Era maio de 1985 e estava farto do frio europeu. Havia passado seis meses em Berlim fazendo o curso do Instituto Goethe. Estava na hora de viajar. Arrumei minha mochila, saco de dormir e botas. Carimbei meu europass para viajar de trem por toda a Europa e fui, literalmente, para os trilhos. Sai da famosa Estação do Zoo de Berlim em direção à Grécia. O muro ainda não havia caído e era época de guerra fria. Visitei Vienna, Salzburg e me posicionei em direção à Iugoslávia. Era uma tarde fria quando embarquei na estação de Graz, ainda na Áustria, passando por Ljublianja (Eslovênia), Zagreb( Croacia), Belgrado (Sérvia), Pristina (Kosovo) e Skopje (Macedônia). Todas essas cidades e locais faziam parte da Iugoslávia do período pós Josip Broz Tito, falecido em 80 -- diziam ser o mais aberto dos regimes socialistas . O que pude constatar, naquele curto período, era que a imensa parte dos passageiros do trem era composta por jovens militares fardados que muito fumavam, muito bebiam e se divirtiam contando histórias e anedotas. Não percebi, naquele momento nenhum tipo de divergência entre povos. E foi essa a minha experiência iugoslava que durou cerca de 24 horas até o trêm desembarcar, finalmente, na fronteira grega, de onde parti para Tessalônica.
*Foto da estação central de Zagreb.

Três Vivas a Kosova


Sobre o Kosovo, muito bom o artigo do israelense Uri Avnery que pesquei do blog do Bourdoukan.


Um sérvio dirige pela estrada, na contra-mão, ouvindo rádio. De repente, o programa é interrompido, para uma notícia urgente: “Atenção! Cuidado! Há um motorista doido na estrada, dirigindo na contramão!”“Só um?!” exclama o sérvio. “Estão todos na contramão!”“Vejam só!” pensei eu, quando meu amigo sérvio contou-me esta piada, “os sérvios são parecidos com os israelenses.”


De fato, por mais diferentes que sejamos os israelenses e os sérvios, temos muito em comum. Israelenses e sérvios acreditam que “o mundo inteiro está contra nós”. E vivem convencidos de que estão completamente certos, mesmo quando o resto do mundo discorda.Como os israelenses, os sérvios vivem também imersos no passado. Para israelenses e sérvios, a história é mais importante que o presente. O futuro é refém do passado.


Há muitos séculos, os sérvios viveram no Kosovo. Para eles, aquela terra é o berço de sua nação. Ali, em junho de 1389, aconteceu o evento que definiu a história sérvia: a grande batalha contra os turcos otomanos. O fato de os sérvios terem sido decisivamente derrotados não muda nada. Tampouco altera alguma coisa que, depois, um povo vindo da Albânia tenha chegado e tenha deitado ali também suas raízes.


Aos olhos dos sérvios, quem não viva no Kosovo há muitos séculos é “estrangeiro”, o país é “patrimônio dos pais fundadores” e “nos pertence, porque nossa religião (Ortodoxa Ocidental) assim o diz”. Tudo isto soa muito familiar a ouvidos israelenses.


Na 2ª Guerra Mundial, cimentou-se o sentimento de solidariedade entre sérvios e judeus. Nosso coração, é claro, estava todo com os valentes partisans. Os judeus que conseguiram chegar as áreas libertadas por Tito foram salvos do Holocausto. Sérvios e judeus foram assassinados lado a lado, nos campos de concentração croatas, tão terríveis que até os oficiais da SS estremeciam ao visitá-los.A morte de Tito e o colapso de seu regime não matou o sentimento de solidariedade. Ao contrário. Os direitistas israelenses apaixonaram-se por Slobodan Milosevic. Ariel Sharon apoiou-o publicamente. Talvez tenha sido seduzido pela mistura de convicta autovitimização e a mais impiedosa brutalidade.Tudo isto explica a confusão de sentimentos que a independência da Kosova provocou nos israelenses.


TEMO QUE, também aqui, minhas idéias divirjam das de muitos israelenses.Meu coração está todo com as massas de albaneses kosovares que festejaram e dançaram, esta semana, nas ruas de Pristina.Lembraram-me as massas que celebraram nas ruas de Telavive há cerca de 60 anos, quando a Assembléia Geral da ONU decidiu criar um Estado israelense (também decidiu criar um Estado árabe-palestino, mas, disto, já ninguém lembra.)


Esta semana, o mundo inteiro discute uma única questão: os kosovares têm direito de ter seu próprio Estado – ou não? Especialistas analisam as leis internacionais, examinam-se possíveis precedentes, lembram-se e repetem-se argumentos a favor e contra.Tudo isto me parece irrelevante. Quando uma população decide ser uma nação, crê na nação e luta como nação – bem, neste caso há uma nação e os cidadãos têm direito ao seu Estado-nação.(Uma vez, eu disse isto a Golda Meir, no Parlamento. Ela negava, como sempre, a existência da nação palestina, repetindo o seu famoso "isto não existe”. “Senhora Primeira Ministra”, respondi eu, “talvez a senhora esteja certa, e os palestinos estejam errados ao acreditar que são uma nação. Mas quando milhões de pessoas crêem, mesmo que creiam errado, que são uma nação, vivam como nação e lutem como nação – então, bem, eles são uma nação.”)


Este é o único teste decisivo. E os kosovares passaram pelo teste. Portanto, há uma nação kosovar, que tem direito de ser Estado kosovar. Vida longa, à República da Kosova!

Milosevic, o genocida, foi parteiro da República da Kosova. Quando decidiu pelo genocídio e expulsou milhões de kosovares da própria terra, ele mesmo assassinou o direito que a Sérvia tivesse sobre a Kosova. Provou o quanto Thomas Jefferson estava certo, quando exigiu, na Declaração de Independência dos EUA”, “respeito decente à opinião da humanidade ".Milosevic e Sharon, seu admirador Sharon, sempre desprezaram a opinião da humanidade. Sempre erraram, os dois, como Stálin também errou ao perguntar, arrogante: “Quantas divisões tem o Papa?" A declaração de independência da República da Kosova é o castigo de Milosevic, tanto quanto a criação de Israel foi uma vingança contra Adolf Hitler (embora tenha cabido aos palestinos pagar por ela).O genocídio monstruoso conduzido por Milosevic ultrajou a consciência da humanidade – e a humanidade, naquele momento tinha divisões ou, pelo menos, tinha esquadrões. A Força Aérea dos EUA bombardeou a Sérvia e obrigou Milosevic a suspender a horrenda expulsão dos kosovares. Os kosovares voltaram às suas casas. A partir de então, a independência foi só questão de tempo.(Muitos dos meus amigos ficaram chocados por eu, naquele momento, ter apoiado o bombardeio contra a Sérvia. Para eles, tudo que a OTAN ou os EUA fizessem era necessariamente errado. Argumentei que tenho alergia a genocídio; sou contra genocídio, mesmo que Deus decrete [o que, segundo a Bíblia, ele fez, contra os amalequitas, os canaaenses e os persas, no tempo de Ester]. Para combater genocidas, alio-me ao demônio.)A lição a aprender no capítulo Kosova é simples: desde a 2ª Guerra Mundial, já ninguém pode cometer genocídio sem levantar contra si a consciência do mundo e disparar a reação para contê-lo. Às vezes acontece tarde, ou chocantemente tarde demais; mas ao final, a vítima sempre se reerguerá sobre seus próprios pés.


ISRAEL DEVE reconhecer a independências dos kosovares?Esta semana, assisti a uma entrevista, pela televisão, com o deputado Arieh Eldad, da ultra-direita. Por um triz, não entrei em pânico: ele parecia defender a independência da Kosova. Mas já na sentença seguinte, relaxei. Não. Arieh Eldad é furiosamente contra que Israel reconheça o novo Estado da Kosova.A que ponto chegaremos?!, perguntava ele. Se a província do Kosovo separa-se do Estado sérvio, o que impedirá que a Galileia proclame-se independente do Estado de Israel? A maioria dos que vivem na Galileia são árabes e, amanhã, quererão um Estado árabe-galileu. Se os kosovares podem, por que não os palestinos?A comparação é, claro, absurda. Primeiro, porque os cidadãos árabes na galileia nem sonham com separatismos. Ao contrário, querem ser integrados a Israel. A prova é que quando outro deputado ultra-direitista, Avigdor Liberman, colega de Eldad, propôs que Israel desistisse das áreas nas quais os árabes são maioria, nenhum cidadão árabe o apoiou. Obviamente, querem continuar a ser cidadãos de Israel; reivindicam, isto sim, direitos iguais.Então, quem se pode comparar aos kosovares – israelenses ou palestinos? Depende do ponto de vista. Para os israelenses, Kosova é semelhante a Israel. Declarou a própria independência, unilateralmente, como fizemos em 1948. Mas os palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Ghazaa dirão que eles são como os kosovares e têm direito de ser independentes. De fato, um dos líderes da OLP, Yasser Abed-Rabbo, já disse exatamente isto. As duas comparações são espúrias – nem Israel nem Palestina são Kosova.E surge outra questão genérica: por que uma minoria nacional tem o direito de declarar-se independente e de estabelecer seu próprio Estado-nação? Se os kosovares podem, por que não os bascos na Espanha? Os corsos na França? Os tibetanos na China? Os tamils no Sri Lanka? Os curdos na Turquia, no Iraque, no Irã e na Síria? Os luos no Quênia? Os darfurianos no Sudão?Este é tema a ser deixado aos especialistas em ciências políticas. A realidade tem sua própria linguagem. Cada caso é um caso. Não há tribunal internacional que decida, por padrões estabelecidos, quem tem direito a ser Estado-nação e quem não tem. A coisa decide-se na prática: quando uma população decide alcançar a independência a qualquer custo, e se está disposta a lutar e a sacrificar-se para ser independente – então aqueles homens e mulheres têm direito de ser independentes.As aspirações das minorias dependem também da atitude das maiorias. Uma nação sábia o bastante para tratar com decência as minorias subnacionais, em condições de verdadeira igualdade, conseguirá manter intacto e integrado o Estado. Canadá e Bélgica, por exemplo, entenderam isto e dedicaram-se a impedir o fracionamento do Estado. Mas se o grupo dominante humilha e agride a minoria – como os sérvios fizeram no Kosovo e os russos estão fazendo na Chechênia – ele reforça a motivação, na minoria, para lutar pela independência.LEMBRO uma conversa que tive com Helmut Kohl, então Chanceler alemão, quando visitou Israel e convidou quatro israelenses que falavam alemão, para um jantar privado.Enquanto o corpulento Chanceler jantava (e reclamava, sem razão, por lhe terem servido pouca comida) tivemos discussão animada sobre a Bosnia-Herzegovina que, então, era o foco da atenção internacional. Disse-lhe que, na minha opinião, não havia alternativa além de dividir o país entres os sérvios da Bosnia e os Bosniaks (muçulmanos). Não se pode obrigar dois povos a viver juntos contra a vontade deles.“Não podemos ter dois Estados!”, Kohl respondeu com vigor. “As fronteiras da Europa são imutáveis! Se começar, não acabará nunca. E a fronteira Alemanha-Polônia? Ou Alemanha-Tchecoslováquia?”Pensei em responder que, com todo o respeito, aquela atitude não estava certa. Mas me contive. Afinal, ali estavam um chefe de governo e um simples ativista pela paz. Mas adiante, quando visitei a Bosnia, minha convicção fortaleceu-se. Em teoria, a Bosnia permaneceu, sim, “unida”; na prática, são dois Estados que se odeiam furiosamente. Vivem separados, sem qualquer contato real. Na prática, são dois Estados. A “unidade” é só formal.Agora, a própria Alemanha lidera o processo de mudar uma fronteira na Europa. A Alemanha está reconhecendo a nova Kosova.A IOGUSLÁVIA rachou, e agora também a Sérvia. A unidade do Canadá e da Bélgica é frágil. O Quênia explode em várias unidades étnicas, tribais. Em muitos pontos do mundo, povos minoritários sonham com seus novos Estados-nação.Aparentemente, é um paradoxo. Um Estado pequeno, mesmo um Estado de tamanho médio, não pode defender qualquer independência real num mundo que caminha inevitavelmente para a globalização. Estados como a Alemanha e a França são compelidos a ceder grandes parcelas de seus poderes soberanos para super-Estados supra-nacionais, como a União Européia. A economia francesa e o exército alemão são mais fortemente comandados por Bruxelas do que por Paris ou Berlim. Então, que sentido há em se criarem Estados ainda menores?A resposta está no poder do nacionalismo, que não está diminuindo, antes o contrário. Há cem ou 200 anos, a Córsega não podia defender-se. Para sua própria segurança, tinha de ser parte do reino francês. A terra natal dos bascos não podia manter economia independente e tinha de estar integrada a uma entidade econômica maior, como a Espanha. Hoje, quando Bruxelas decide, por que os corsos e os bascos não podem ter Estados autônomos, membros também da União Européia?Esta é a tendência, em todo o mundo. Não há união de nações, mas, ao contrário, Estados antes “unidos” e que agora se dividem em unidades nacionais. Quem creia que Israel e Palestina algum dia será um único Estado não vive no mundo real. Mais do que nunca, cresce hoje o significado do slogan "dois Estados para dois povos”.Portanto, Israel, hoje, ao se aproximar dos 60 anos de vida como Estado independente, deve reconhecer a República da Kosova e desejar-lhe sucesso e vida longa.


* URI AVNERY,Three Cheers for Kosova. Em Gush Shalom [“Grupo da Paz”], em http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1203196052/. Copyleft. Reprodução autorizada pelo autor e pela tradutora.[1][1] “Kosova” é a forma usada pela maioria albanesa, para designar o país. “Kosovo” é a forma usada pela minoria sérvia (Carta Capital n. 484, 27/2/2008, p. 40, “Para entender o Kosovo”.

Cid Campeador




Na entrevista publicada no livro "Biografia a Duas Vozes (editora Boitempo) Fidel diz que "o dia em que eu morrer de verdade ninguém vai acreditar. Poderia andar como Cid Campeador [referência a personagem do século 11], que mesmo morto era levado a cavalo para vencer as batalhas".




Ai, ai, caramba, o cara está delirando.

E Daí?

E daí? O Obama foi ao Quenia, terra natal de seu pai, e vestiu uma roupa típica que recebeu de presente de líderes tribais.
A foto foi publicada no Drudgereport" (www.drudgereport.com), blog político comandado por Matt Drudge que costuma dar tratamento sensacionalista a notícias e boatos -foi o que primeiro divulgou, em 1998, o caso do ex-presidente Bill Clinton, marido de Hillary, com Monica Lewinsky.

Segundo informou o blog, a foto está circulando entre colaboradores de Hillary, que recebeu ontem a notícia de que a candidatura de Obama se fortaleceu até em Ohio, que fará prévias decisivas em 4 de março.A campanha de Hillary negou ter circulado a fotografia, que em si não tem significado particular, já que muitos políticos usam roupas tradicionais nos países que visitam.

Informações da Folha.




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Os Difamadores Ideológicos de Cuba


O tempo das dinastias continua. Fidel passou o trono para Raul que vai continuar a ouvir Fidel. Nada de novo no front. Os atores e personagens continuam os mesmos. Os rumos também. E a mídia - de um lado e de outro - publica as notícias a favor e contra. A Veja diz uma coisa e a Carta Capital outra. As capas das duas revistas são praticamente iguais. Um diz: Já vai tarde e a outra: Cuba sem Fidel. Quem está com a razão? E os Blogs fazem os necessários alardes em seus microcosmos. O diário gauche acusa uma guerra contra Cuba. Fala de difamadores ideológicos de Cuba que insistem em criticar possíveis erros macroeconômicos na ilha, dizer que há atraso e falhas graves no sistema de trocas, etc. Pois esses detratores deveriam saber os motivos reais das dificuldades de um pequeno país que vive há mais de quarenta anos sob um pesado bloqueio comercial, financeiro e diplomático contra si, orientado e conduzido pelos diferentes governos dos EUA.
E toda a tribo reunida em dia de festa aplaude. Viva El Comandante. A culpa é sempre dos americanos. Quatro comentários foram lançados no gauche, todos no mesmo sentido. O fato foi comemorado pela Cláudia Cardoso, do blog dialógico:
Que coisa bem boa poder ler 4 comentários seguidos com argumentos que complementam o post publicado!!!Como leitora assídua do blog, senti necessidade de expressar meu contentamento.

E o dono deste empório não deixou a bola picar. Resolveu chutar:

Pois é, Cláudia, o importante é "complementar" o post publicado, sem questioná-lo ou criticá-lo. É como se fosse um jogral. Hoje, no Brasil, quem critica, questiona, coloca os pontos nos is é o chamado PIG. Quem diria, o Brasil viveu uma ditadura que calava a nossa voz hoje vivenciamos a ditadura do pensamento politicamente correto que não admite criticas ou questionamentos, mas apenas complementação. E Cuba, finalmente, se transformou numa dinastia. E, por incrível que pareça, tem gente que defende o regime. Favor, tirar o mofo do museu sem grandes novidades.
...
Difamadores ideológicos é ótimo. Gente, não se pode falar mal de Cuba, porque tudo que existe de errado na ilha prisão é culpa dos americanos. Aliás, gostei do Obama que - ao contrário de Hillary - disse que vai se encontrar com o Raul Castro, independentemente da questão dos direitos humanos. Obama é o cara e a melhor forma para acabar com a vergonhosa dinastia ditatorial cubana é revogar os embargos. A história já mostrou e provou que ditadura socialista não rima com pleno mercado, pois é este - e a conscientização que este agrega -- que ajuda a derrotar os regimes totalitários. Um povo que tem liberdade econômica não admite privações políticas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Semi-Aberto - Um Celeiro de Assaltantes


"Não estão recuperando ninguém"
Entrevista: Afif Jorge Simões Neto, juiz da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre

Afif Simões Neto, 48 anos, advogou durante oito anos em São Sepé, sua cidade natal, antes de ingressar no Judiciário, em 1984. Com passagens por varas cíveis e de família de Rosário do Sul e de Pelotas, e pela Corregedoria, Afif chegou em setembro ao 2º Juizado da Vara de Execuções Criminais da Capital, impondo um estilo menos liberal. Diferentemente de colegas, ele entende que é preciso rigor para a concessão da progressão de regime e defende o fim do semi-aberto. Abaixo trecho da entrevista em seu gabinete:



Zero Hora - Por que o senhor quer o fim do semi-aberto?


Afif Jorge Simões Neto - Até as pedrinhas da calçada já sabem que o semi-aberto é inócuo. E, se é assim, por que mantê-lo? Do jeito que estão, o aberto e o semi-aberto se confundem muito, são iguais. Então, extingue-se um deles.


ZH - Como o senhor define o semi-aberto?


Afif - Um celeiro de assaltantes. Os crimes com violência ocorridos na Capital são praticados por fugitivos do semi-aberto. São 3,2 mil foragidos só no complexo Porto Alegre/Charqueadas. ZH -


Qual a sua impressão ao visitar a CPA?

Afif - Me horrorizei. Os alojamentos se assemelham a um campo de concentração nazista. Não estão recuperando ninguém.


ZH - O que mais o revoltou?


Afif - Fiquei indignado que a comida que vai para a CPA sai do nosso bolso. Uns 10% do que os presos consomem de legumes, frutas e verduras são produzidos lá. É um latifúndio improdutivo. O máximo que tem lá é uma hortinha de temperinho verde. E laranjas, que já estavam lá. Mandar para lá alface, tomate, cebola, frutas, com uma área que existe lá? A sociedade tem de saber que está pagando legumes e verduras para apenados com terra para trabalhar e que não trabalham. Quando não estão dormindo, estão escutando música.


ZH - O governo já anunciou que pretende fechar a CPA...


Afif - Poderia terceirizar para quem saiba plantar. E a parte da colheita destinada ao Estado deveria ser distribuída aos presídios.


ZH - Do fechado, o preso deveria ir para o aberto ao completar um sexto da pena?Afif - Mas para isso tem de preencher totalmente os objetivos, o cumprimento do percentual do tempo de condenação e, principalmente, tem de ser aprovado em um exame subjetivo, o criminológico.


ZH - O exame não é mais obrigatório. Ele é necessário?Afif - Sim. Para autores de crimes hediondos, para os praticados com violência ou grave ameaça e para os condenados acima de oito anos. Há presos sem condições de ir para um regime mais brando sem que se faça um exame psicológico. E a lei deixou isso em aberto, fica a critério do juiz.


*Publicada na Zero Hora de hoje.

Ensinando e Aprendendo


O lado positivo do governo Lula é que ele está ensinando que corrupção, falcatruas e picaretagens ocorrem com pessoas de qualquer partido, de qualquer linha ideológica. E estamos aprendendo também que o povo brasileiro não considera certas picaretagens como graves, como esse história dos cartões. A popularidade de Lula está no 65% (considerando a seriedade das pesquisas do CNT - Sensus). O presidente está blindado. As falcatruas chegam a seus pés, mas não envolvem seu corpo. E se abrirem a caixa preta dos cartões corporativos da Presidência? Por que o governo resiste tanto a essa idéia? Inventaram que é questão de segurança nacional. Se o PT estivesse na oposição faria um barulho danado para abrir essa caixa preta, mas está sentado na poltrona do poder e acusa o Partido da Imprensa Golpista (PIG) de fabricar mentiras. E estamos aprendendo que parte considerável do povo acredita nessa história. Este é o Brasil que a gente aprende, mas não compreende.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Obama


Obama parece um tímido que deu certo. Ele é para dentro, mas muito fala para fora. Ele se comunica bem e é entendido por aqueles que se identificam com ele. É isso o que efetivamente importa para a política. Obama é um furacão que se alimenta das necessidades daqueles que pouco têm numa sociedade extremamente competitiva. E ele é um verdadeiro winner em todo esse contexto. Hillary parece -- e é -- uma ex primeira dama. Seu discurso é afinado com o politicamente correto. Ela disse hoje que a guerra do Iraque tem de acabar ( poderia ter dito que essa guerra tem de ser vencida). Mas ela tem uma arrogância que o Obama não tem. Ponto para Obama. Nas primárias de Wisconsin ambas as redes, CNN e Fox, apontam Obama como vencedor. A diferença é pequena, mas pesquisa é pesquisa. Hillary começou a falar na CNN e foi interrompida pelo discurso de Obama. Assim é que as coisas caminham. O vencedor sempre vence. E Obama parece ser o grande vencedor. Vamos escrever um novo capítulo na história americana, ele diz. E o povo delira. Yes, we can. Yes, we can.

Fascista é a Delinquência


O filme Tropa de Elite que conquistou a Berlinale trouxe uma realidade que está sendo vista por todos. E isso é muiiiito bom, porque este ângulo se alastrou. As pessoas - nacionais e internaticonais - estão adquirindo a importante consciência de que quando o poder público não entra em determinado lugar com suas escolas, seu posto de saúde e seu poder polícia, a marginalidade toma conta. E a marginalidade não é Robin Hood, ela é impiedosa, ela mata, ela aniquila, ela exige cumplicidade dos habitantes do local sob pena de ser punido com a perda da vida. E quem é ameaçada por essa zona toda é, sobretudo, a população de baixa renda alvo dos impiedosos traficantes e da violência polícial. Uma coisa - infelizmente - está vinculada a outra, numa relação para lá de viciada. A polícia dá armas aos bandidos que recebem grana de seus clientes para abastecer a polícia que faz vistas grossas para a venda de drogas. Um ciclo para lá de perfeito. E o soldadinho que não andar no passo certo e abrir a boca é punido com a perda da vida. E os corpos estão estendidos no chão. Dizem que o filme é fascista. Bobagem. O que é fascista é a realidade da ausência de Estado. Fascista é o crime, é a impunidade, a corrupção que têm de ser combatidos com o necessário e fundamental poder de polícia. Mas tudo tem os seus limites e suas razoabilidades.

Fidel


Quem sempre segurou a onda da revolução em Cuba?
E quem vai segurar essa onda daqui para a frente?
O hermano Raul não chega aos pés e nem tem carisma para isso.
A renúncia de Fidel é um marco histórico para mudanças, que devem ser feitas - com urgência - na ilha.
Que Cuba se abra para o mundo e que os cubanos -- que não conhecem a miséria, mas são reféns perpétuos da pobreza -- tenham condições de viver uma vida melhor, além do mínimo (saúde e educação).
Que eles tenham direito à santa liberdade de opção política e econômica.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O Povo que Apoia o Lula


E o governo Lula recebeu um grande prêmio, uma notícia para lá de alvissareira. A popularidade está lá em cima, como mostra a última pesquisa CNT/Sensus. 66% da população brasileira apoia o governo Lula. Impressionante o Lula da Silva. Cada vez que uma crise atinge seu governo sua popularidade aumenta. Cartão corporativo, mensalão, conta do caseiro etc... o povão não leva em conta nada disso. São caprichos pequenos-burgueses do eleitorado classe média. O importante é que o presidente instituiu o Bolsa Família que faz circular capital nos grotões do Brasil. O povo que dá apoio ao Lula é o mesmo povo que votava no PDS e na Arena na época dos governos militares. É o povo carente de educação e que não tem, infelizmente, acesso a um sistema educacional e de saúde decente. Como o serviço público no Brasil é uma vergonha qualquer migalha que um governo concede é vista como uma imensa ajuda. Se dizia, na época do regime militar, que os milicos não tinham interesse em melhorar a situação do povo, porque poderia conscientizá-lo ou desaliená-lo. Será que o governo Lula tem interesse em melhorar a qualidade do ensino no Brasil que pode melhor conscientizar e desalienar o povo brasileiro? Será que o governo do PT tem interesse em inserir o povão no padrão classe média de vida?


* Foto de Andreas Heiniger

Cartões Corporativos







Recebi essa mensagem via e-mail e passo para o Blog. Dei boas risadas. O pessoal inventa cada uma.. E haja imaginação...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A Farra dos Cartões


Dirigentes regionais do PT estão entre os usuários de cartões corporativos do governo federal, incluindo três tesoureiros de diretórios estaduais.

Pelo menos mais sete integrantes de executivas ou diretórios petistas, além de um ex-prefeito e de três candidatos a deputado estadual em 2006, estão entre os encarregados por diversos ministérios de fazer saques e comprarem com os cartões. Um deles, candidato em Alagoas, sacou 41% do total do ano nas três semanas que antecederam a campanha.Levantamento feito pela Folha com base em dados do Siafi (sistema de acompanhamento de gastos do governo) pela assessoria de Orçamento do DEM identificou 46 petistas em cargos de confiança em oito ministérios e na Presidência que usaram cartões de 2005 a 2007. Neste período, gastaram R$ 719 mil -61,5% em compras e 38,5% em saques.O uso dos cartões por pessoas comprometidas com a política partidária não é ilegal, mas pode dar margem a conflitos de interesse. Um exemplo ocorre no Amazonas, onde o superintendente estadual da Secretaria da Pesca, Estevam Ferreira da Costa, usa cartão corporativo para cuidar das finanças da pasta de segunda a sexta, das 9h às 17h. Encerrado o expediente, Costa, tesoureiro estadual desde 2001, dirige-se ao diretório do PT em Manaus onde, das 18h às 19h, trata do dinheiro do partido. "Passo uma hora por dia trabalhando para o PT", diz ele, que sacou R$ 8.900 com cartão em 2007. A maior parte, segundo ele, para comprar combustível para barcos.Em Tocantins, o tesoureiro estadual do PT Leontino Pereira de Sousa usa intervalos no trabalho como delegado estadual do Ministério do Desenvolvimento Agrário para resolver problemas do partido. "Aproveito a hora do almoço para pagar contas do PT." Sousa gastou, em 2007, R$ 3.889 com cartão, 89% em saques.Em Goiás, a tesoureira do PT até dezembro era Laisy Moriere, a principal responsável na Secretaria de Políticas para Mulheres por organizar as viagens da ministra Nilcéa Freire. É ela quem paga hotéis e restaurantes, com o cartão.A dupla função é conseqüência do loteamento da administração federal. Conforme revelou a Folha no domingo, 44% dos cartões estão com funcionários comissionados, muitos deles, indicações políticas.A maioria dos militantes petistas ocupa gerências estaduais da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca, cujo titular, Altemir Gregolin, é um dos ministros que têm gastos com cartão investigados. Há também exemplos em Desenvolvimento Agrário, Minas e Energia, Trabalho, Agricultura, Integração Nacional e na Secretaria de Políticas para Mulheres.Além dos tesoureiros, há petistas com cartão em cargos como secretário de Formação Política, de Organização, de Assuntos Sindicais e de Assuntos Agrários -todas posições estratégicas. Nas eleições de 2006, ao menos três petistas com cartão corporativo tentaram a sorte para Assembléias. Apenas um se elegeu.


Matéria de Fábio Zanini, na Folha de hoje.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O Discurso Piegas de Frei Betto




No Blog do Carteiro do Poeta -- que depois de um período de calmaria resolveu andar de vento em popa -- leio um artigo do Frei Betto, sobre a escola ideal, sem competição, onde a igualdade e a fraternidade predominam e as pessoas são todas gentis, alegres, felizes. Pieguices e mais pieguices. Qual a diferença entre um artigo do Frei Betto e um porre de licor de ovos?




O artigo é o seguinte e depois eu volto.




Na escola dos meus sonhos, os alunos aprendem a cozinhar, costurar, consertar eletrodomésticos, a fazer pequenos reparos de eletricidade e de instalações hidráulicas, a conhecer mecânica de automóvel e de geladeira e algo de construção civil. Trabalham em horta, marcenaria e oficinas de escultura, desenho, pintura e música. Cantam no coro e tocam na orquestra. Uma semana ao ano integram-se, na cidade, ao trabalho de lixeiros, enfermeiras, carteiros, guardas de trânsito, policiais, repórteres, feirantes e cozinheiros profissionais. Assim aprendem como a cidade se articula por baixo, mergulhando em suas conexões que, à superfície, nos asseguram limpeza urbana, socorro de saúde, segurança, informação e alimentação.Não há temas tabus. Todas as situações-limite da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, falência, parto, morte, enfermidade, sexualidade e espiritualidade. Ali os alunos aprendem o texto dentro do contexto: a Matemática busca exemplos na corrupção dos precatórios e nos leilões das privatizações; o Português, na fala dos apresentadores de TV e nos textos de jornais; a Geografia, nos suplementos de turismo e nos conflitos internacionais; a Física, nas corridas de Fórmula-1 e nas pesquisas do supertelescópio Huble; a Química, na qualidade dos cosméticos e na culinária; a História, na violência de policiais contra cidadãos, para mostrar os antecedentes na relação colonizadores - índios, senhores - escravos, Exército - Canudos, etc.Na escola dos meus sonhos, a interdisciplinaridade permite que os professores de Biologia e de Educação Física se complementem; a multidisciplinaridade faz com que a História do livro seja estudada a partir da análise de textos bíblicos; a transdisciplinaridade introduz aulas de meditação e dança e associa a história da arte à história das ideologias e das expressões litúrgicas. Se a escola for laica, o ensino religioso é plural: o rabino fala do judaísmo, o pai-de-santo, do candomblé; o padre, do catolicismo; o médium, do espiritismo; o pastor, do protestantismo; o guru, do budismo, etc. Se for católica, há periódicos retiros espirituais e adequação do currículo ao calendário litúrgico da Igreja. Na escola dos meus sonhos, os professores são obrigados a fazer periódicos treinamentos e cursos de capacitação e só são admitidos se, além da competência, comungam os princípios fundamentais da proposta pedagógica e didática. Porque é uma escola com ideologia, visão de mundo e perfil definido do que sejam democracia e cidadania. Essa escola não forma consumidores, mas cidadãos.Ela não briga com a TV, mas leva-a para a sala de aula: são exibidos vídeos de anúncios e programas e, em seguida, analisados criticamente. A publicidade do iogurte é debatida; o produto adquirido; sua química, analisada e comparada com a fórmula declarada pelo fabricante; as incompatibilidades denunciadas, bem como os fatores porventura nocivos à saúde. O programa de auditório de domingo é destrinchado: a proposta de vida subjacente, a visão de felicidade, a relação animador-platéia, os tabus e preconceitos reforçados, etc. Em suma, não se fecham os olhos à realidade, muda-se a ótica de encará-la. Há uma integração entre escola, família e sociedade. A Política, com P maiúsculo, é disciplina obrigatória. As eleições para o grêmio ou diretório estudantil são levadas a sério e, um mês por ano, setores não vitais da instituição são administrados pelos próprios alunos. Os políticos e candidatos são convidados para debates e seus discursos analisados e comparados às suas práticas.Não há provas baseadas no prodígio da memória nem na sorte da múltipla escolha. Como fazia meu velho mestre Geraldo França de Lima, professor de História (hoje romancista e membro da Academia Brasileira de Letras), no dia da prova sobre a Independência do Brasil, os alunos traziam para a classe a bibliografia pertinente e, dadas as questões, consultavam os textos, aprendendo a pesquisar. Não há coincidência entre o calendário gregoriano e o curricular. João pode cursar a 5ª série em seis meses ou em seis anos, dependendo de sua disponibilidade, aptidão e seus recursos. É mais importante educar do que instruir; formar pessoas que profissionais; ensinar a mudar o mundo que ascender à elite. Dentro de uma concepção holística, ali a ecologia vai do meio ambiente aos cuidados com nossa unidade corpo-espírito e o enfoque curricular estabelece conexões com o noticiário da mídia.Na escola dos meus sonhos, os professores são bem pagos e não precisam pular de colégio em colégio para se poderem manter. Pois é a escola de uma sociedade em que educação não é privilégio, mas direito universal, e o acesso a ela, dever obrigatório.

Voltei:

Frei Betto é um beneditino, mas tem uma boa dose de franciscanice em seus textos. Ou seja, o mundo ideal para Frei Betto é o mundo franciscano. Mas esse mundo não existe, não é nem uma utopia. É o mundo da pseudo igualdade, onde dizem não existir elite e nem competição. Freud já descascou em cima dessa surrada tese no magnífico, excelente e vibrante Mal Estar na Civilização, capítulo V, quando ele afirmou que do ponto de vista psíquico a sociedade marxista, sem competição, da pura igualdade é uma imensa fraude. Frei Betto é uma imensa fraude. Sorry por pensar assim.


*foto de Gustavo Lacerda

O Detran sob o Bigode do Olívio


O PT do RS muito alarde fez -- e continua a fazer com certa razão -- sobre as denúncias (quase comprovadas) de corrupção no Detran durante as gestões dos governos Rigotto (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB). 40 milhões desviados dos cofres públicos, realmente um absurdo. Mas quem diria, o Detran tinha problemas ( e graves) no próprio governo Olívio do PT. E quem afirma isso não é o PIG, a grande mídia, os exploradores internacionais, mas o Ministério Público que ingressou na Justiça com ação contra diretores do Detran na época do governo Olívio por atos de improbidade administrativa. E os bens desses ex dirigentes da época do governo petista foram bloqueados pela Justiça. A notícia é da Zero Hora de hoje.



Bens de ex-diretores do Detran são bloqueados


Ministério Público ingressou com ação civil pública contra ex-presidente do Departamento de Trânsito no governo Olívio e outros cinco envolvidos em suspeita de irregularidade com convênio

Dois ex-dirigentes do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) no governo Olívio Dutra e o diretor de uma organização não-governamental (ONG) estão com os bens bloqueados pela Justiça por suspeita de irregularidades envolvendo um convênio da autarquia. Além do bloqueio de bens dos três, os seis supostos envolvidos também tiveram o sigilo bancário e fiscal quebrados por decisão da Justiça. A ação que levou ao bloqueio foi remetida pelo Ministério Público (MP) à Justiça em 26 de dezembro e veio a público agora, na esteira do escândalo que envolve as últimas administrações do Detran. O MP ingressou com ação civil pública por atos de improbidade administrativa e para o ressarcimento do erário contra os ex-diretores do Detran e da ONG e outros três suspeitos relacionados ao convênio, firmado em 2 de abril de 2002 entre o Detran e a ONG Instituto da Mobilidade Sustentável - Ruaviva, localizado em Belo Horizonte. O acordo teria burlado a exigência de licitação para beneficiar empresas que teriam sido subcontratadas e pertenciam a sócios da própria ONG. O convênio visava à estruturação dos comitês regionais do Movimento Gaúcho pelo Trânsito Seguro. Atualizado, o valor total repassado pelo Detran ao Ruaviva em 2002 é de R$ 637,5 mil.Dentre os processados estão o ex-diretor-presidente do Detran (2001 e 2002) Mauri Cruz, o ex-diretor Administrativo e Financeiro da autarquia Flávio Sanches Maia e o ex-secretário municipal de Transportes de Porto Alegre (1993-1994) Nazareno Sposito Neto Stanislau Affonso, que à época do negócio era presidente da ONG. Nazareno Affonso confirmou ontem a Zero Hora que teve pelo menos uma conta bancária bloqueada.Detran realizou sindicância para apurar suspeitasAs supostas irregularidades foram levantadas inicialmente por uma sindicância instaurada pelo Detran na administração de Carlos Ubiratan dos Santos (2003-2006). O caso foi encaminhado à Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público, que aprofundou a investigação e propôs a ação em dezembro. O processo tramita na 4ª Vara da Fazenda Pública contra os dois ex-agentes públicos, Affonso, Liane Nunes Born, Eduardo Araújo Junqueira Reis e João Luiz da Silva, que são integrantes do Ruaviva, e contra duas empresas (pessoas jurídicas).

Tropa em Berlim


Tropa de Choque está no Berlinale, o famoso festival de cinema. O capitão Nascimento está conhecendo o ursinho da charmosa e cosmopolita Berlim e está causando polêmica, como se lê da matéria de Silvana Arantes publicada na Folha de hoje.


O concorrente brasileiro ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, "Tropa de Elite", de José Padilha, exibido anteontem, teve uma recepção da crítica dividida entre amores e ódios. Mais ódios do que amores.A revista norte-americana "Variety", que recentemente incluiu Padilha numa restrita lista de dez diretores em quem se deve prestar atenção, foi especialmente dura com o filme.Em resenha assinada por Jay Weissberg, a "Variety" atribui a "Tropa de Elite" um "estilo Rambo" e sustenta que ele faz "uma monótona celebração da violência gratuita que funciona como um filme de recrutamento de seguidores fascistas".Weissberg afirma ainda que, segundo o filme, "só o Bope pode salvar a cidade [do Rio], mas isso requer, antes, a remoção cirúrgica de qualquer coisa que se pareça com um coração".Leitores brasileiros da versão online da revista escreveram no site mensagens de protesto e atacaram o autor da crítica.A "Hollywood Reporter" publicou entrevista e reportagem sobre o filme, com destaque em sua capa da edição de ontem, mas chamou-o de "um filme constrangedor sobre policiais assassinos".A crítica afirma que "o pressuposto básico do roteiro escrito por Padilha, Rodrigo Pimentel e Bráulio Mantovani é que todo mundo no Rio é corrupto, especialmente as autoridades".A revista inglesa "Screen", por sua vez, deu ao filme a nota máxima -quatro estrelas, correspondente a "excelente"- , numa crítica farta de elogios."A montagem corajosa, a incansável câmera na mão e essa espécie de tom quente e realista conhecido desde "Cidade de Deus" e "Amores Brutos" produzem uma mistura que é mais funcional do que inovadora, embora seja eficiente".A crítica do jornal francês "Le Monde", publicada no blog de cinema do diário, acusa o filme de fazer apologia da tortura: ""Tropa de Elite" é feito segundo a receita do neoconservadorismo hollywoodiano -montagem frenética, câmera epiléptica, narrativa que não deixa nenhum espaço à ambivalência. Não é preciso ser hipersensível para ver no filme uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais", afirma o crítico Thomas Sotinel.A reação da imprensa alemã foi desigual. O jornal "Berliner Zeitung" avaliou o filme como "excitante e original", disse que ele apresenta "os diversos lados da questão" e o faz com bom "equilíbrio entre os aspectos ficcional e documental".Já o "Der Tagesspiegel" disse que, no retrato do "mundo pavoroso e sem lei" que o filme faz, "não há zonas brancas e negras; tudo é escuro". Os dois jornais, no entanto, ressaltaram que "Tropa de Elite" não é fascista. "E nisso [fascismo], como você sabe, somos especialistas", comentou o jornalista alemão.Padilha acredita que os críticos estrangeiros que atribuíram ao filme um caráter fascista foram influenciados por colegas brasileiros que reprovam "Tropa de Elite" desde a sua estréia no Brasil.Sobre as resenhas publicadas ontem, o diretor afirmou: "Uns nos acharam inteligentes, outros fascistas. Na verdade, não me preocupo com isso".

Angeli


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Últimas Fotos de Benazir Bhutto




Essas são as últimas fotos de Benazir Buhtto tiradas pelo fotografo John Moore da Getty Images.

Foto do Ano

A foto de um homem no fim da linha

Essa foto é de Tim Hetherington e foi vencedora do prêmio WORLD PRESS PHOTO.
A imagem mostra a fadiga, a depressão, a exaustão de um soldado americano numa trincheira no Afeganistão.

Li no fotosite que para os jurados a fotografia merece todo o mérito por mostrar “a exaustão de um homem e a exaustão de uma nação”. Para Gary Knight, celebrado fotógrafo e presidente do júri, “é uma foto de um homem no fim da linha”. Ao todo foram premiados 59 fotógrafos provenientes de 23 nacionalidades. A Getty Images ficou com cinco prêmios, incluindo um por conta da foto que exibe a morte de Benazir Bhutto, líder oposicionista paquistanesa, recentemente assassinada.

Glauco

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Barack Obama Video

Governos Eletrônicos


Este blogueiro não é contra o uso de cartões eletrônicos. Muito pelo contrário, eles racionalizam os débitos, mostram exatamente as despesas realizadas, mas tudo isso deve estar on line e a sociedade deve ficar de olho. É sempre importante saber como funcionam os cartões eletrônicos em outros lugares e a entrevista do diretor do curso de economia de São Paulo da FGV, Marcos Fernandes Gonçalves diz, em entrevista hoje na Folha, que os cartões corporativos são parte de uma "doença mais grave", que é a falta de fiscalização e de informação sobre o Estado brasileiro. O autor de "Ética e Economia" (Campus) e "A Economia Política da Corrupção do Brasil" (Senac) estuda "governos eletrônicos". Por isso avalia o uso dos cartões no mundo.


FOLHA - Cartão corporativo é ruim?



MARCOS FERNANDES GONÇALVES - Não. Cartão corporativo é bom, seja numa empresa ou no governo. É muito mais fácil executar pagamentos menores por meio de cartão de crédito. Além disso, gera mais transparência. Anos atrás, dois executivos ingleses de uma empresa gastaram uma quantidade enorme num jantar. Foram demitidos assim que o gasto foi apontado. Eu vejo o escândalo dos cartões como uma manifestação epidérmica de uma doença mais grave, que é o fato de o Estado brasileiro estar fora de controle, pela falta de fiscalização e informações. A "viúva", o Tesouro Nacional, é a última a saber. Por outro lado, esse escândalo mostra confusões que brotaram na opinião pública.


FOLHA - Quais?

GONÇALVES - O cartão corporativo não é culpado pela fraude, ele é a solução para combater esse tipo de corrupção, porque gera automaticamente a transparência e acaba com essa história de nota, recibo etc. Todo mundo sabe que é fácil pegar, por exemplo, um recibo superfaturado em um táxi, uma prática imoral. Se é cartão de crédito, aparece onde gastou e o valor exato. Ao surgir uma conta estranha, fiscaliza-se. Não por acaso, o escândalo só veio à tona porque os gastos ficaram registrados. Mostrou a importância de um instrumento como o Portal da Transparência. Mas há confusão sobre o que é um escândalo e o que não é. No caso de um jantar com uma comitiva chinesa, por exemplo, gastar R$ 500 ou R$ 1.000 é normal. Você está recebendo pessoas que representam um governo estrangeiro. O ponto crítico é o gasto na mesa de bilhar, os saques altíssimos, os gastos sigilosos que ninguém tem idéia do que foi feito ou ter um só cartão gastando R$ 500 mil por ano. Aí é que estão os absurdos. Os saques são um ponto crucial, porque, nesse caso, o cartão pode ser fonte para caixa dois. De grão em grão a galinha enche o papo, de dez em dez reais se faz 1 milhão.


FOLHA - O que outros países que usam cartão podem ensinar?

GONÇALVES - A primeira questão é fazer um manual claro sobre como usar o cartão. Depois, obrigar os funcionários que vão usar a assinar um termo de compromisso onde está dito que eles vão obedecer o que está no código e que sabem que, se não cumprirem, podem ser processados judicialmente. Também é preciso esclarecer os usos e, para isso, aulas são dadas a quem tem o cartão. Se fosse assim no Brasil, ninguém poderia dizer que não sabia, que não leu o manual. Mas o governo não tem ainda um manual. Há países onde códigos de conduta detalham como usar o cartão. Os melhores exemplos são Austrália e Nova Zelândia, que estão anos-luz à frente.


FOLHA - Por quê?

GONÇALVES - Nos anos 90, eles fizeram grandes reformas no setor público, informatizando praticamente tudo, o que gerou um subproduto fundamental, mais transparência e controle sobre todos os níveis do governo. O mais importante é ver como os gastos são executados. Eles criaram governos eletrônicos. Na Austrália, todos os protocolos do governo são informatizados, os processos do Judiciário circulam virtualmente de departamento para departamento. Há até mesmo informações dizendo se o funcionário público está aparecendo no trabalho. Isso gera democracia eletrônica, que não é só apertar um número na urna, mas democracia como melhor sistema de controle sobre os burocratas e os políticos.


FOLHA - Isso ocorre nos cartões?

GONÇALVES - Sim. As faturas são públicas e on-line. A compra do funcionário vai automaticamente para a internet. Nesses países, quem tem cartão está no primeiro e no segundo escalão, ou seja, ministros, assessores, mas também o equivalente a governadores e alguns burocratas de ministérios que podem fazer compras específicas. O manual de conduta deixa claro como e onde pode ser usado: viagens, jantares, alimentação, combustível e gastos inesperados. Só que existem tetos fixados para gastos e para saques em dinheiro, que varia entre regiões. Outro ponto é que os gastos inesperados ou pequenos gastos não dão problema, pois o funcionário é obrigado a provar imediatamente por que o gasto foi inesperado e isso também é publicado na internet. Quebrou um carro? Prove. Teve problema de saúde? Prove.


FOLHA - Por que o mecanismo é eficiente na Austrália?

GONÇALVES - Porque o superior é obrigado a ficar de olho. Um funcionário que responde ao superior só pode realizar saques com cartão se autorizado. Mais do que isso, se um subordinado faz um gasto indevido, o superior também é culpado. Uma regra onde o chefe é o direto responsável pelas ações do chefiado cria incentivos naturais ao controle. Nesses países, está na lei que o chefe é o imediato responsável juridicamente pelos gastos. No ministério australiano, se um chefe-de-gabinete faz um gasto indevido, o responsável é o ministro. O burocrata abaixo do chefe-de-gabinete faz gasto indevido? O responsável é o chefe-de-gabinete. É claro que o subalterno também é punido, mas, no limite, gastos pouco razoáveis de um ministro podem derrubar até mesmo o primeiro-ministro. Como resultado, o superior fica no cangote do funcionário; está todo mundo com o rabo preso, no bom sentido.


FOLHA - Há outros países que estão mais avançados no uso do cartão ?

GONÇALVES - A experiência dos outros países é mais recente. A França tem um bom sistema, com manual e limite para saques e gastos. Os cartões estão nas mãos do presidente, do primeiro-ministro e dos ministros, além de alguns assessores. Mas não tem magia. Lá a informação é totalmente pública, na internet. A ex-primeira-dama Cecília Sarkozy abriu mão do cartão não porque fez gastos indecentes, mas porque a vida privada dela ficava explicitada. Ela fez uma escolha. Eu pesquisei cartões corporativos exaustivamente e podem até existir outros países que usem, mas não divulgam as informações na internet, um pressuposto básico do sistema.


FOLHA - Nos países citados, o controle como o feito pela CGU no Brasil é importante?

GONÇALVES - Sim, mas a questão é que não é o único controle. Austrália e Nova Zelândia têm auditoria anual das contas de todo o governo, mas os ministérios fazem auditorias internas muito sérias. O controle francês é feito por auditoria interna nos três Poderes e uma auditoria externa, feita por uma espécie de Tribunal de Contas. É interessante que Tribunal de Contas como conhecemos só existe no Brasil e é uma boa idéia, só que mal utilizada. Em São Paulo, é complicado o governador indicar conselheiros para o TCE. Agora, o Tribunal de Contas da União faz um trabalho sério.


FOLHA - Como controlar no Brasil?

GONÇALVES - Sou a favor de auditoria de empresas privadas no governo. No caso dos cartões, se quisesse, o governo poderia fazer um estudo para calcular quanto se gasta em média em uma viagem, com hotel, alimentação. Poderia fazer por cidade brasileira ou média nacional. Depois, um cálculo para regulamentar saques para gastos imprevistos, que nunca passa de 20% a 30% do total. Emergência pressupõe valores modestos. Assim, determina-se tetos e limites e, conseqüentemente, quem extrapola limites.


FOLHA - O que acha dos gastos sigilosos com cartões do governo?

GONÇALVES - Existem gastos que não podem ser mesmo publicados, como gastos em áreas estratégicas militares, exemplo do submarino nuclear brasileiro. Ou então questões geopolíticas. Mas, em qualquer país razoável, uma comissão bicameral, Câmara e Senado, analisa e acompanha tais gastos. Agora, confidencialidade com gasto em jantar, pagamento de hotel, compra de carne para o presidente não tem o menor cabimento. O problema central não é a carne para o presidente ser risco à segurança, mas gastos sem transparência.


FOLHA - Há diferença entre o cartão de débito usado em São Paulo e o cartão de crédito federal?

GONÇALVES - A diferença prática é financeira, porque no cartão de crédito você paga depois, enquanto o de débito é um cheque eletrônico e o dinheiro sai no ato da conta do governo. No governo de São Paulo há uma conta para esses gastos e há limite para gastos de cada cartão. Mas a rigor não há muita diferença. O mais importante é a transparência, essência do governo eletrônico. A sociedade ficou de olho nos cartões e isso ficará. Cartão de crédito do governo não era muito fiscalizado. E é fácil fiscalizar.


FOLHA - Governo eletrônico é caro?

GONÇALVES - Não! É barato, porque elimina papel, recibos, notas, diminui a oportunidade de corrupção e o custo da transação. Isso traz economia para o Estado. O pior (ou melhor) é que governo eletrônico é uma invenção brasileira, criada com o sistema de licitação eletrônico feito no governo Mario Covas em São Paulo. Isso foi levado depois para outros países.

* foto de uma cena do filme THX 1138

Iotti


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O Livre Pensar - Osmar Terra


Publico aqui no depósito o artigo do Osmar Terra, Secretário da Saúde do RS, sobre a polêmica pesquisa na área da neurociência nos jovens infratores da Fase (antiga Febem) no RS.


Este artigo foi publicado na Zero Hora de 2 de fevereiro.


O livre pensar, por Osmar Terra *

Em 1971, 10 pesquisadores brasileiros de renome, vinculados à Fiocruz, foram proibidos de pesquisar pelo governo militar. Seus laboratórios foram fechados e lacrados. Eram cientistas que faziam pesquisas importantes e que foram impedidos de realizá-las por serem ideologicamente de esquerda. Representavam, dentro de seus laboratórios, um "grande perigo" para o pensamento vigente. O episódio ficou conhecido como o "Massacre de Manguinhos" e teve enorme repercussão na comunidade científica mundial. Testemunhei o episódio porque estudava na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e estagiava no laboratório do professor Haiti Moussatché, um dos 10 atingidos pela intolerância absurda. Pensava então em ser pesquisador em Neurociências, mas devido àquelas circunstâncias adiei minha opção e fui trabalhar para mudar meu país.Ao retomar o antigo sonho de estudar neurociência fui novamente surpreendido pela intolerância, desta vez partindo de um grupo de pessoas que criticam publicamente um projeto de pesquisa, que é a base para vários trabalhos, inclusive o da minha tese de mestrado: as raízes da violência no desenvolvimento humano. Viram uma notícia sobre a proposta e, sem conhecer detalhes ou o seu texto, a condenaram a priori. Pior, alguns tentam impedi-la! Assim a motivação desse grupo fica parecida com aquela que testemunhei há 37 anos. Não toleram nada que possa contrariar suas crenças. No estilo, não vi, não sei direito, mas sou contra, fizeram abaixo-assinado com acusações estapafúrdias, agredindo cientistas respeitados que participam do trabalho.Fui motivado para o tema, pela vivência como coordenador do Programa Piá 2000, no governo Britto, quando trabalhamos com crianças e adolescentes em situação de risco. Também são extremamente motivadores os programas que coordeno hoje: o Primeira Infância Melhor e o Programa de Prevenção da Violência. Todos, de alguma forma, trabalham direto com as questões sociais que podem desencadear a violência, e me ajudaram a compreender que ela é um fenômeno de enorme complexidade tendo que ser considerado em todas as dimensões, inclusive na biológica e suas repercussões mentais. Comparar esse tipo de pesquisa com as teses decrépitas e pseudocientíficas de Lombroso, destruídas justamente pelo avanço das Neurociências, é ignorar a história do conhecimento. Mais ridículo ainda é relacionar a pesquisa genética com teorias nazistas de eugenia, ignorando que foi justamente o progresso da genética que desferiu o golpe mais poderoso nas teorias eugênicas, ao mostrar que não existem diferenças significativas entre as raças humanas, e que todos descendemos de uma Eva africana.Também não exporemos nosso projeto em site, como alguns estão propondo, para pedir permissão a quem quer que seja que não esteja envolvido nos trâmites acadêmicos e legais necessários para a sua realização. Não abriremos precedente para que a prática científica fique submetida à aprovação prévia de patrulhas de "iniciados", antes mesmo de existir. Para a ciência é vital o livre pensar!Quanto à pesquisa, posso dizer que ela tem um conteúdo rigorosamente ético, de profundo respeito aos direitos humanos, obedecendo a todas as instancias legais. É um trabalho de investigação sociológica, psicológica, e também biológica (por que não?), buscando um conhecimento maior sobre o comportamento violento. Envolve assistentes sociais, psicólogos, psiquiatras, geneticistas e neurologistas, numa amplitude rara em pesquisas sobre o assunto. Ao contrário de críticos do projeto, não consideramos o conhecimento sobre a gênese da violência completo. Não temos essa pretensão e é justamente por isso é que propomos cruzar um número maior de informações, comparando com outros trabalhos e buscando novos dados que ajudem tanto na prevenção quanto no atendimento de pessoas envolvidas em atos de violência.


* Médico, secretário estadual da Saúde e mestrando de Neurociências na PUCRS
*fotografia de Penna Prearo.

Batismo de Sangue


No diario gauche de hoje o seguinte post:


Programa de Cinema
A partir de segunda-feira próxima, dia 11/2, a sala de cinema do Santander Cultural vai exibir o filme Batismo de Sangue, sempre às 15 horas, mas é só até sábado essa barbada. Fica ali na praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre.
O filme foi dirigido por Helvécio Ratton, baseado no livro de Frei Betto sobre a luta político-revolucionária do frei dominicano Tito, durante a ditadura militar. Frei Tito e outros dominicanos estiveram envolvidos na morte de Marighella, onde teve participação ativa o ultra-torturador da repressão, delegado Fleury.
Eu quero finalmente poder ver esse filme, e anuncio-o aqui porque sei que muitos amigos e amigas também não conseguiram ver Batismo de Sangue.
As salas exibidoras no Brasil não passam de dois mil, se tanto, para cinco mil municípios, e 90% delas ficam 90% do tempo comprometidas com as grandes distribuidoras norte-americanas e seus filmes de megaprodução (que esperam megabilheterias). Por isso o grande problema do cinema tupinambá é o gargalo da exibição. A produção vai bem obrigado, mas a rosca é na hora de exibir para o grande público. O caso preciso do Batismo de Sangue.
Por isso, é importante aproveitar essas oportunidades únicas das salas alternativas, como essa do Santander (que tem incentivos do fisco brasileiro, de nós outros), para assistir produções nacionais.
Depois eu conto o que achei do filme.


Voltei.


Li o Batismo de Sangue na época da primeira edição e sempre quando passava na frente do antigo cinema São João ali na Salgado Filho em POA eu lembrava da cena contada por Frei Betto. Lembro que na época dos fatos, final da década de 60, tinha aulas de catequese com o Padre Manuel da Igreja da Piedade, personagem do livro. Não vi o filme (vou ver em DVD quando sair) e nem comprei o disco. Dizem que o filme é batido e não entusiasma. A verdade é que Frei Betto virou o rei dos chatos e seu discurso monocórdio "politicamente correto" deu para a bola de quase todo mundo. O grande público pensa diferente e gosta de assistir o que é bom. Kant nos ensinou que existe o belo e os filmes tropa de elite e meu nome é Johnny estão ensinando ao Brasil, uma nova mensagem: certos coitadinhos também são vilões. O fato de Batismo de Sangue não ter tido sucesso de público não significa que o filme não seja bom: ele pode ser bom, apenas não cativou o público que assistiu e a crítica que tem mesmo que criticar.

A Cara ou Coroa dos Irmãos Coen




Os irmãos Joel e Ethan Coen fizeram o excelente Fargo que é um mix de violência com ingenuidade média americana. Em "Onde os Fracos Não Têm Vez" os irmãos Coen relembram Fargo, mas com gotas mais perversas da violência e com pitadas significativas do poder da força da grana que ergue e destroi coisas belas. Por que um homem comum resolve pegar uma maleta de dinheiro sujo e mudar totalmente o curso de sua vida, assumindo os grandes riscos do episódio? Por que as pessoas, certas pessoas, escolhem o caminho mais lucrativo e violento da vida mesmo sabendo e tendo a santa consciência de que o sonho dourado de uma vida certa, rotineira, longa e sadia pode ir para o espaço?

E a cidade pacata (e chata) do deserto do meio oeste americano, ali perto da fronteira com o México, onde a trilha sonora do vento bate forte, acorda para um dia anormal, porque foi sacudida com o barulho estridente e seco do tiro que a impiedosidade mata. Como é difícil para o americano médio mudar a sua rotina. Como é difícil para o homem branco comum responder perguntas diretas, pertinentes e desagradáveis. E no contexto disso tudo surge o grande vilão da história recente do cinema, Anton Chigurh (Javier Bardem), que lembra a morte do sétimo selo de Bergmann. A diferença é que o impiedoso do Chigurh não tem tempo para jogar xadrez, ele tem pressa e prefere jogar "cara ou coroa" e se o vivente a ser executado erra na aposta recebe o tiro seco e profundo da morte. Tudo na mesma hora, porque não importa - tempo é dinheiro.

O assassino frio não pertence aquele tempo e nem ao pitoresco lugar. Chigurh pertence a outras léguas e a outras épocas. Enquanto o homem médio de 1980 vai - ele já está voltando. Chigurh gosta de conversar sobre os assuntos banais da vida e faz perguntas secas sobre a rotina das pessoas e, por que elas agem dessa forma. A resposta não vem. A solução é jogar. Basta jogar o jogo da vida? Vale a pena o desafio? Você escolhe, cara ou coroa?
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Angeli


Desenvolvimento e a Nova Propriedade - Márcio Pochmann




Muito bom o artigo publicado na Folha de hoje do polêmico Márcio Pochmann sobre a "propriedade social" .

O BRASIL que emergiu da Revolução de 30 caminhou no sentido da modificação importante do conceito tradicional da propriedade. Em vez do clássico entendimento que separa o proprietário do não-proprietário imobiliário (posse da terra) e de demais detentores das fontes de geração de renda e riqueza, passou a ganhar maior relevância a interpretação a respeito da propriedade social mediada pelo trabalho e diversos mecanismos de proteção e segurança social. Justamente em torno dos riscos relacionados ao pleno exercício do trabalho (acidente, doença, invalidez e morte, desemprego e instabilidade contratual, precocidade e envelhecimento, variabilidade e sub-remuneração, despreparo formativo, entre outros) conformou-se a propriedade social, operada, na maioria das vezes, por fundos públicos absorvedores de parcela do excedente econômico nacionalmente gerado pelo conjunto do país. Nesse sentido, deve-se reconhecer o papel pioneiro das ações estabelecidas em 1923, com a Lei Eloy Chaves (base da Previdência Social), e, em 1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho, que fundamentaram a propriedade social no Brasil. O financiamento da propriedade social ocorre de forma tanto contributiva (previdência social) como impositiva (tributos e taxas). O resultado final disso tem sido a geração de uma massa expressiva de recursos comprometida originalmente com a promoção e defesa do bem-estar social geral dos detentores da propriedade social. O brasileiro ampliou o tempo de vida para além do exercício exclusivo do trabalho na medida em que avançou a titularidade da propriedade social. Antes da existência da propriedade social, por exemplo, o trabalho comprometia dois terços do tempo de vida de cada cidadão. Por conta disso, o ingresso na vida laboral iniciava-se aos cinco ou aos seis anos de idade e se encerrava somente com a morte, geralmente próxima dos 35 anos, que representava a expectativa média de vida dos brasileiros do início do século 20. Ao se acrescentar ainda a ausência da regulação do tempo de trabalho (48 horas semanais, férias, descanso semanal, feriados) e de medidas de aposentadoria e pensão, o tempo de trabalho podia equivaler a mais de 5.500 horas de trabalho por ano. Com o desenvolvimento urbano e industrial protagonizado desde a década de 1930, parte dos ganhos de produtividade foi carreada para a nova propriedade social. Em conseqüência da difusão da titularidade dos novos proprietários, tornou-se possível reduzir o peso do trabalho heterônomo (realizado em troca de uma remuneração pela sobrevivência) para um quinto do tempo de vida. Isso porque o ingresso no mercado de trabalho foi postergado para os 15 anos de idade, após o acesso ao ensino básico, enquanto a saída para a inatividade se deu a partir da contribuição por 35 anos ao fundo previdenciário. Contando com a duplicação da longevidade da vida ao longo do século 20 (de 35 para 70 anos), percebe-se que o desenvolvimento nacional permitiu à propriedade social alargar o tempo de vida, bem como direcioná-lo à sociabilidade moderna, com mais educação, saúde, consumo e investimento humano. No limiar do século 21, com a perspectiva de elevação da longevidade de vida para acima dos cem anos de idade e a profunda ampliação da produtividade do trabalho, especialmente do trabalho imaterial, abrem-se oportunidades inéditas de o desenvolvimento fortalecer ainda mais a nova propriedade social. Seus detentores possuem cada vez maior influência sobre as decisões públicas e privadas nacionais, como no caso dos fundos de aposentadoria e pensão, FGTS, FAT, entre outros. Tudo isso motiva preparar, em novas bases, as ações estratégicas para o desenvolvimento brasileiro de longo prazo. Para quem vai viver cem anos, com a intensificação da produtividade, ampliam-se as possibilidades de ingresso no mercado de trabalho após os 25 anos de idade -conforme já ocorre para os filhos dos ricos no país-, assim como o tempo de trabalho em menor escala, contando com o seu exercício em diversas modalidades e cada vez mais distante do local de trabalho tradicional. Se, tecnicamente, já é possível, por que não convergir para as condições estruturais necessárias para que isso realmente venha a ocorrer? Somente com a promoção do desenvolvimento nacional os brasileiros universalizarão as possibilidades de acesso à nova propriedade social.


MARCIO POCHMANN, 45, economista, é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy).