Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Olhar Estrangeiro


O historiador inglês Simon Schama no Fronteiras do Pensamento em novembro em Porto Alegre.

O PARAÍSO INGLÊS
O historiador Simon Schama faz uma livre interpretação do Brasil a partir de suas passagens por Porto Alegre e São Paulo, no mês passado.

Metade de novembro. Estamos na primavera, portanto, ou pelo menos o Brasil está, e era lá que eu precisava estar para escapar do outono em Nova York: abóboras, o farfalhar lúgubre das folhas caindo, as conversas suburbanas alegres sobre o clima revigorante, enquanto eu continuo a lamentar o fim do verão nada revigorante, do calor denso e suarento que continua a ser meu clima ideal. E talvez fosse possível que eu tivesse dito absolutamente tudo que era capaz de dizer sobre Barack Obama (pelo menos por algum tempo), e portanto a hora não poderia ser melhor para mudar de ares e conversar com 800 brasileiros sobre Picasso e Goya. Bem, foram eles que pediram. Por "eles" quero dizer os benévolos promotores de um seminário universitário em Porto Alegre, perto da fronteira com o Uruguai e a Argentina, chamado "Fronteiras do Pensamento", que presumi estaríamos convidados a cruzar.

[A crítica] Camille Paglia, renomada exatamente pelas fronteiras atravessadas, havia estado lá no ano passado, para falar sobre sexo na arte e por duas horas e meia, disseram os organizadores. Eles me olharam com sinceridade ao contar sobre isso, e imagino que tenham feito uma careta diante da idéia de tanto sexo por parte da professora Paglia. Mas o meu tema era calamidade, e uma hora disso é mais que suficiente. Intensidade Eu havia visitado o Brasil dez anos antes para promover uma tradução de "Paisagem e Memória" [Companhia das Letras], e não foi muito difícil me encantar. Vislumbres de paraíso e de inferno surgiam constantemente: mulheres altas mais deslizavam do que andavam pelas ruas, como se estivessem caminhando com passos de samba; garças e garças-reais faziam ninhos em meio aos detritos e ao esgoto do canal [rio Tietê] que fica entre o aeroporto e São Paulo; a inocente intensidade dos jornalistas, que queriam que eu lhes falasse sobre a liberdade de imprensa no Reino Unido, em um momento em que os brasileiros ainda não haviam se acostumado à sua liberdade depois da ditadura militar [1964-85]; o abraço alegre e caloroso de um sujeito imenso, vestindo roupas enfeitadas por lantejoulas, que se apresentou como "sou Roberto, o rei da favela, e você precisa nos visitar". "Sim", eu respondi, confirmando, enquanto meu editor, um sujeito doce, mas dado a preocupações, abanava a cabeça negativamente e ao mesmo tempo virava os olhos de forma enfática (um feito notável até mesmo para um brasileiro), o que eu entendi como um sinal negativo.
Acabrunhado, Roberto me beijou na boca -algo inédito em qualquer das minhas visitas para promoção de livros-, mas nem isso bastou para que o editor revertesse sua decisão.

No Rio, em Ipanema, garotos de pernas longas jogavam bola na praia, e outros exigiam dinheiro quando você estacionava o carro, prometendo "tomar conta dele" -e certamente a alternativa era algo que não valia a pena contemplar.

Oh, sim, eu amo o Brasil, mas Porto Alegre foi diferente: menos tropical, mais -infelizmente- européia. Fala-se muito sobre os alemães e italianos que se radicaram lá, e um pelotão germânico formado por sujeitos bêbados na metade do dia se instalou no avião, ocupando os assentos que lhes parecessem mais convenientes, sem respeitar os lugares marcados; gritos estridentes de "Markus" e "Thomas" se faziam ouvir pelos corredores sem outro motivo que não a expressão de "kameradschaft" [camaradagem] no hemisfério Sul. O avião acompanhava a costa do Atlântico, e as ondas rolavam lá embaixo, enquanto os comissários de bordo fingiam que a cerveja tinha acabado.
Feijoada no Sul
Porto Alegre é uma cidade que encanta de imediato, um mar de jacarandás azuis floridos, repleta de cafés com mesas na calçada instalados entre as casas ao estilo colonial brasileiro, com empenas repletas de detalhes, como as costeletas de um gaúcho, e toques de tinta carmesim ou dourada. Era domingo, o que queria dizer feijoada no cardápio, até mesmo no Sheraton; uma ampla gama de carnes escuras, cozidas, acompanhadas de farinha de mandioca, que eu me lembro de ter amado na primeira visita e de ter voltado a apreciar na segunda: uma mistura de macio e crocante -que pode não parecer saborosa, mas termina sendo excelente. No parque, um menino puxou um violão e cantou um samba para impressionar, enquanto um círculo de capoeiristas praticava ao som surdo de um tambor. Havia uma feira de livros em curso -não do tipo que envolve eventos e as celebridades de sempre, mas uma praça bonita, à sombra, na qual 50 barracas exibiam as mercadorias dos livreiros e editores locais. Os organizadores estavam orgulhosos dos princípios igualitários do evento, e foi espantoso encontrar, em uma era na qual a morte da palavra impressa é anunciada prematuramente, uma cidade brasileira não muito grande na qual parece haver uma pequena editora a cada esquina. Charles Kiefer, o bem-apessoado professor com quem almoçamos, caminhou conosco até uma das barracas e nos mostrou os cerca de 30 volumes que contêm os trabalhos de ficção de seus alunos. A cada ano um volume novo, e o professor não poderia se sentir melhor. Caso a ficção brasileira esteja em perigo, certamente a culpa não é dele. Eu mesmo estava lendo "As Aventuras e Desventuras de Maqroll", uma coleção de contos do escritor colombiano Álvaro Mutis, um livro tão espetacularmente rico e sensual que o final de cada história causa raiva do autor. "Ah", disse Kiefer, "tão bom", como se estivesse saboreando um excelente vinho, e acrescentando, com um pequeno suspiro, que eu talvez pudesse apreciar uma exposição sobre Gilberto Freyre [1900-87] em um banco local [no Santander Cultural].

Este artigo foi publicado no Financial Times. Copiado do Caderno Mais da Folha.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Bob Wilson é Muiiiito Slowwww


Terminou ontem a edição do Fronteiras do Pensamento versão 2008. Dizem que tudo vai mudar em 2009. O que se verificou é que o público diminuiu consideravelmente nos últimos eventos. Por que será? Houve um certo desinteresse em relação aos palestrantes e os assuntos tratados, sobretudo os da parte estética. O marco divisor talvez tenha sido a complicada palestra do dramaturgo Gerald Thomas que mandou todos às favas e saiu do palco sem dizer boa noite. Na noite de encerramento de ontem, foi a vez de outro dramaturgo, o americano texano Robert Wilson.


Bob Wilson entra no palco olhando para baixo e fica estático por alguns bons minutos. A platéia fica ansiosa. De repente ele faz um gesto brusco com as mãos e grita, como se tudo aquilo fosse um horror. Assim iniciou a palestra de Bob. Ela teve altos e baixos. Os pontos nobres ficaram por conta de suas experiências pessoais, como adotou o menino negro e surdo chamado Raymond que mudou a vida de Bob. Raymond não sabe ler e nem o significado das palavras. A linguagem de Raymond são os gestos das pessoas, suas posturas e talvez até.... suas energias. Foi a partir desse contato que Bob teve com Raymond que ele começou a fazer suas peças de 4, 5, 7, 9 horas ou de 7 dias. É tudo muiiiiiito slow. É o que todos dizem sobre as peças de Bob Wilson. Tudo muiiiiito devagar. Quase nada acontece. As pessoas ficam ali estáticas num palco mudo e sem palavras.


Dizem que Bob Wilson vem a Porto Alegre para o próximo "Em Cena". As tratativas estão avançadas anunciou ontem o Luciano Alabarse que trata do assunto. Vamos ver quem aguenta ficar 7 horas num teatro assistindo a uma peça estática e very, very, very slowwwwww?

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Liberskind - A Arquitetura de Cristal


De repente surge, no auditório lotado, o arquiteto Daniel Liberskind. É a primeira vez que ele aterrisa no Brasil. Ele é baixo e usa um óculos de estilo. Veste preto e usa bota preta com bico fino. Os americanos adoram bico fino. Liberskind não é americano. Ele é filho de judeus poloneses que sobreviveram ao holocausto. O arquiteto mora em Nova York desde os 13 anos e lembra sua chegada de navio ao porto de Nova York e a sensação que teve ao avistar a Estátua da Liberdade. Essa imagem que ele guardou serviu de inspiração para projetar a freedom tower, a torre maior do complexo de torres (Memory Foundation) onde existiu o World Trade Center.



Liberskind fala muito rápido. Ele é claro e objetivo. Quick Mind. Ele mostra seus projetos nos telões do Salão de Atos da UFRGS. No Museu Judaico de Berlim ele aproveita a forma de um prédio barroco e projeta um complexo de metal -- exatamente para dar a sensação de paradoxo.




Na Coréia do Sul, em Busan ele fez, na beira de um rio, a construção de incríveis espigões de cristal. Note-se que essa área é parecida com o Pontal do Estaleiro em Porto Alegre. Espigão ou verticalização não é necessariamente um mal, como pensam alguns.



Na decadente área portuária de Dublin, Irlanda, ele fez um interessante projeto de revitalização do porto, com a construção de uma espécie de "tapete vermelho".


Vejam as formas dos prédios desse complexo em Copenhagen, Dinamarca:

Ou desses prédios em Singapura:

Ou esse imenso complexo residencial, comercial e cultural em Milão, chamado Fiera.



No final da conferência perguntaram a Liberskind se ele não gostaria de fazer o projeto para revitalização do porto de Porto Alegre. Ele disse que adoraria.


Enquanto isso, Porto Alegre e o Brasil patinam.


Todas as fotos foram tiradas do site de Daniel Liberskind, que é muiiiito bom.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um Muçulmano e Um Marxista


O francês Sylvére Lotringer e o paquistanês Tariq Modood em entrevista coletiva antes do Fronteiras do Pensamento hoje em Porto Alegre.
Cheguei do trabalho e coloquei o sapatênis. Hoje é segunda, dia de palestra. A tarde estava linda. Fui a pé. Passei pelo Bonfim e cheguei a Redenção. Porto Alegre, certas horas, tem cara de cidade bonita. É bom esse horário de verão, mas tem gente que não gosta. A Reitoria da UFRGS está toda pichada. Até lá em cima onde ninguém alcança está pichada. Como é que os pichadores chegam até lá?

Tariq Modood é paquistanês, mas mora na Inglaterra. Ele fala sobre o assunto favorito dos imigrantes, multiculturalismo. É dificil ser estrangeiro e ser respeitado como tal na Europa Central. É difícil em todo o lugar. Ele é muçulmano e não está de acordo com aquela medida adotada pelo governo francês que proibe véus e crucifixos nas escolas públicas. É um atentado à liberdade e é uma forma unilateral e ocidental de refletir sobre o assunto. Em outras palavras, as meninas do islã tem que ter a liberdade de usar véu nas escolas.

A segunda conferência é do marxista francês Sylvère Lotringer, que é editor da revista Semiotext(e). Dizem, dizem e dizem que foi ele que levou para os Estados Unidos as idéias dos malditos pensadores franceses pós maio de 68: Michel Foucalt, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Jean Baudrillard e Paul Virillio. Lotringer começou sua palestra, como todo bom francês, destacando a importância de Maio de 68. O movimento que causou surpresa e, no fim, se diluiu. Porque no capitalismo -- que não é ideologia -- tudo se dilui, tudo se fragmenta, tudo se coisifica e os indivíduos se tornam "divíduos".

Lotringer, como todos os pensadores malditos franceses pós 68, detesta o capitalismo que deve ser superado. Mas como superá-lo?
Ora, bolas, navegando pela semiótica, pelo estruturalismo e pós-estruturalismo talvez possamos chegar a algum lugar. O capitalismo é um mundo de símbolos, de fetiches, de matrix que virou trilogia de Hollywood e foi inventada por Jean Baudrilhard, o pai do hiper estruturalismo. A crise atual dos papéis que não existem, que não valem ouro, que são meramente virtuais estão a demonstrar que vivemos mesmo num mundo hiper estrutural e que temos mesmo que buscar o sentido que está escondido nas senhas obscuras da matrix.

Moral da história, estamos todos dominados pelo fetiche do capitalismo.

Dez horas da noite e a palestra terminou. Voltei a pé. Cheguei em casa pelas onze. A cidade está cheia de pessoas que dormem nas ruas, protegidas pelas marquises dos prédios que não têm grades.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Cordura e Loucura



Pedro Juan Gutiérrez e Fabrício Carpinejar, o encontro do escritor imaturo com o maduro.

Li a Trilogia Suja de Havana de Pedro Juan Gutiérrez e aquilo tudo me lembrou Bukowski e suas histórias do centro sujo da cidade grande. Pedro Juan estava ali parado assistindo a palestra de Fabrício Carpinejar que estava pilchado: bombachas, botas, lenço vermelhos e unhas da mão esquerda pintadas de marrom. Carpinejar falava sobre sua vida. Ele é teatral, mas imaturo. Ele disse: eu sou o gaúcho do Fronteiras e foi aplaudido pela menor platéia do evento, este ano.


Pedro Juan chegou sorrateiro. Se Carpinejar é imaturo, Gutiérrez é maduro. Ele se nega a falar sobre a situação política de Cuba. Bem que ele faz, pois seu assunto é a literatura.

Qual afinal o papel do escritor?

Ele responde:

"caminhar desesperadamente por dois caminhos que unem dois povos que se chamam cordura e loucura e levamos a vida sem saber a qual deles vamos e de qual estamos vindo. A resposta deve ser buscada na infância. O escritor é uma criança que continua sendo-o e portanto busca sempre compreender. Tenho uma menina de sete anos. Quando tinha quatro se aproximou da minha mesa de trabalho cheia de papéis e me disse: 'Eu quero saber tudo'. Ela tem sete, eu 58, e me acontece a mesma coisa. Onde eu chego quero saber tudo.O escritor é uma criança curiosa que nunca cresce. Escrevemos diários ocultos, ou vamos ao psicanalista ou inclusive escrevemos poemas que escondemos, como tentativas de explicação de nós mesmos. As tentativas descrevem nosso lado escuro, tudo o que precisamos ocultar. "O Pedro Juan Gutierrez mais interessante vocês nunca vão conhecer. Escondo o Pedro Juan que tem sonhos, planes, projetos pesadelos, medos. Ninguém deve saber que temos medo da noite ou queremos ter uma relação sexual desviada, ou que não agüentamos o vizinho. O escritor vence sua vergonha natural, se despoja da autoproteção e se põe a escrever sobre esse lado escuro, com descaro, mas são poucas as pessoas que escrevem sobre isso e com graça suficiente. A verdadeira história da literatura nunca se escreveu, a ninguém interessa, está feita a base de censura. Um escritor não pode esperar. Tem que ter capacidade de risco. Cada leitor faz sua leitura, ninguém lê o mesmo livro, ninguém vê o mesmo filme ou ouve a mesma música, cada um constrói seu próprio livro. Algumas pessoas vêem antropologia em meus livros, outros vêem política, outros vêem sexo. O escritor está obrigado a correr as fronteiras do silêncio. Em cada sociedade há uma fronteira de silêncio traçada pelas convenções e o escritor corre o risco de dizer algo que sua sociedade não quer ouvir. O oficio de escritor não é sempre agradável, porque ele se embarra com o que há dentro da sociedade e mostra a ela própria. Isso é o que tens dentro'. É um oficio terrível. Muitos dos escritores que levaram a sério o ofício terminaram loucos, bêbados ou suicidas. Quando nos aproximamos demasiado ao povo da loucura tentamos nos aproximar ao da cordura. O ofício de escritor não é recomendável, eu o recomendo só quando a vontade de escrever é maior que tudo.


fonte: Página do Fronteiras do Pensamento.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Philip Glass



Philp Glass tocou para o público do Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre e depois recebeu Laurie Anderson em seu camarim.

Tem gente que não conhece Philip Glass. Tem gente que conhece, mas não gosta de Philip Glass, porque repetitivo e enjoativo. Eu conheci Philip Glass numa noite fria de 1983 em um cinema de bairro de Porto Alegre e que existia aos montes na cidade. Não lembro se foi no Bristol, no Baltimore ou no Cinema Um Sala Vogue, ali na Independência. Certos fragmentos da memória apontam que foi no Vogue, o cinema de arte da capital gaudéria. Assisti a Koyaaniskatsy, Life out of balance, documentário feito por Godfrey Reggio e com música de Philip Glass. Eu sentei na sala escura quase vazia e fiquei contemplando aquele festival de imagens fantásticas e com a musicalidade -- que diziam ser minimalista -- de Philip Glass. Foi ai que conheci Glass e gostei muito. Depois assisti alguns filmes com músicas dele como Kundum de Scorsese e As Horas que considero sua melhor trilha sonora. Coleciono alguns discos de vinil de Glass, como o próprio Koyaaniskatsi e o Solo Concert. Esses dois eu baixei em MP3 da Internet. Aliás, tenho várias músicas de Glass em MP3.

Pois ontem, no Fronteiras do Pensamento, fui assistir ao Philip Glass. Ele entrou e começou a falar sobre aquele assunto muito peculiar que é a música, sua relação com o compositor amigo dos cogumelos, John Cage, o próprio Godfrey Reggio e o poeta maldito Allen Ginsberg. Juro que foi interessante a palestra, apesar de ser muito específica em relação à música. Notei que o público se incomodou um pouco com o tema, mas isso faz parte. Depois, Glass foi para o piano e tocou uma parte do Einstein on the Beach que é uma opera que ele fez no circuito off Broadway e apresentou um curta de Godfrey Reggio chamado Evidence que mostra crianças assistindo televisão, ver abaixo.

Foi um bom programa, mas tem gente que não gostou. Paciência.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Um Bom Viajante Chamado Wim Wenders


Wim e Donata Wenders com Jorge Furtado, Gerbase e Giba Assis Brasil.

Ele tem cara de gringo. Tem roupa de gringo, Tem bota de gringo, Tem óculos de gringo. Cabelo de gringo. Ele é um gringo. Ele é um gringo alemão. Ele é Wim Wenders. Ele não é um turista, mas um viajante. Ele gosta de viajar por ai. Descobrir os universos além das fronteiras. Essas barreiras formadas pela etnia, pela política, pelo nacionalismo. Há de se cruzar as fronteiras e descobrir o que está ali dentro; o íntimo das civilizações, seus lados ocultos, é necessário ir sempre além. Sentir o cheiro da casa estrangeira, o modo de vida dos casebres das favelas, das casas médias e boas da Africa, da América Latina, da América, da Europa, da Ásia, da Oceania, de todos os lugares. Wim Wenders disse que não tem preconceitos, gosta de assistir a tudo, ele está sempre aberto, mas ele tem gosto e personalidade, of course. Ele disse que o cinema está além das fronteiras. Ele saiu da Alemanha e foi morar nos EUA, percorreu o mundo e voltou para a Alemanha. Essa necessária passagem e experiência foi um acerto de contas com o passado alemão, foi assim que ele redescobriu sua alma alemã. Hoje ele vive em Berlim. As vezes temos que ir muito longe para aprendermos o que está perto. Nos jornais das grandes cidades, na parte de cinema, estão os filmes em cartaz. Em São Paulo, em Berlim, em Nova York, em Bruxelas, os filmes que passam são os mesmos de todas as grandes cidades. O cinema é precursor da globalização. Faz muito tempo - muito tempo mesmo - que as imagens e as histórias contadas pelo cinema ultrapassam os limites das fronteiras, dos muros e das cercas. O bom viajante deve procurar o bom filme. Foi assim que Wenders descobriu o mundo através do cinema alternativo que não passa nos cinemas convencionais. O Brasil foi descoberto por Wenders através das lentes de Glauber Rocha. O rasil era uma invenção, um país metafórico. Por certo, ele não estava tão enganado assim. Wenders não tem o mínimo interesse em histórias e filmes que podem acontecer em qualquer lugar. São filmes que são feitos em terra de ninguém, que não tem o necessário e fundamental sentido do lugar. Apenas os viajantes, os bons viajantes podem detectar o sentido do lugar. São os viajantes que descobrem esse sentido. Os lugares têm suas próprias histórias para contar, os lugares têm memória. É necessário, portanto, respeitar as autonomias desses lugares. As memórias dos lugares são como dunas de areia, elas sempre se movimentam, mas não perdem a identidade. Na era da globalização esse sentido do lugar, da memória do lugar, da identidade do lugar está se perdendo. Os lugares estão se tornando iguais, mas os lugares são diferentes. Eis a diferença entre o turista e o viajante. O turista fica em casa ou passeia pelos lugares, tira suas fotos, produz seus filmes e vai embora. O viajante viaja, convive. O viajante tem identidade, vive em unidade consigo. A identidade é formada pelas fronteiras, é a identidade da pessoa com o lugar. A identidade é adquirida pela experiência. O viajante deve estar aberto ao outro, à vida. O viajante tem que ser curioso. Os filmes convencionais, os comerciais, não tem o necessário feed back, eles, simplesmente, não dão retorno. Eles são apenas entretenimento. Nada mais do que isso. É bom e divertido se entreter. Isso não é ruim, mas não traz conhecimento, não faz as pessoas refletirem. São histórias que não somam, não conseguem alimentar nossas almas. Os EUA são um país que conquistaram a identidade americana, o sonho americano e essa conquista ocorreu com o produto do cinema. Desde a década de 20 os americanos têm feito filmes e histórias sobre sua identidade, seus sonhos. As imagens são as maiores armas do século XXI. O cinema, como Homero, é um contador de histórias, mas há que se ter o sentido do contemporâneo, é fundamental entender os nossos tempos, respeitar as fronteiras, as identidades, os cheiros, as almas, a vida dos lugares, suas canções e culturas. Este, para Wenders, deve ser o caminho dos bons viajantes.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

As Opções Éticas e a Vida de Narrativas

Contardo Calligaris em conferência em Porto Alegre ontem

Muito boas as conferências do Fronteira do Pensamento de ontem. O assunto é a psicanálise. Os palestrantes Contardo Calligaris e Jurandir Freire Costa.


Jurandir trouxe a obra de dois autores de ficção, Graham Greene e Philip Dick (do Blade Runner) e a partir de seus trabalhos mostrou como as pessoas fazem suas opções éticas. Seriam exemplos de uma boa metáfora."Que critérios temos e expomos implícitos ou explícitos para colocar-nos como horizontes na construção de nossa identidade?". Greene está preso a uma certa moral própria da modernidade, a existência de Deus, o amor, a política. Dick, por outro lado, afirma que o mundo é o que está ai, os problemas são os que estão ai, pulverizados, banalizados, complexos. Mas entre Greene e Dick existem certas semelhanças: os suportes éticos são similares, somos todos filhos de uma moral grega, judaico e cristã.


Calligaris descreveu sua vida, seus sonos com as cortinas de madeira na itália, a luz verde marciana, por que os marcianos são verdes?, seu primeiro amor, sua primeira mentira que tem pernas curtas, ele tinha 14 mas disse que tinha 18 para encantar a mulher amada. É que a nossa vida é uma narrativa (juro que isso me causou um insight). Vivemos nosso próprio livro, nosso próprio filme e nos guiamos de acordo com os aspéctos estéticos, os quais cumprem suas finalidades. A sensação de que construímos um filme ruim, um livro medíocre, que vivemos uma vida pouco interessante pode ser a fonte de problemas para certas pessoas. Em entrevista coletiva, Calligaris disse: "Em qualquer pedido de terapia há a sensação de que no fundo a vida da pessoa não vale a pena ser contada, de que o que lhes acontece é completamente irrelevante . Na mesma entrevista ele disse: A adolescência passou a existir nos anos 1950. Os adultos a inventaram para realizar seus desejos frustrados. Mas a partir dos anos 80 os adultos se esforçaram para parecer os adolescentes que inventaram, não precisam mais da encenação. Então a adolescência acabou. Há um empobrecimento da capacidade de sonhar.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Ayaan Hirsi Ali e o Multiculturalismo


A somali Ayaan Hirsi Ali foi a estrela ontem do Fronteiras do Pensamento. O outro conferencista foi o psicanalista e filósofo Renato Mezan que, diga-se de passagem, se preparou e bem para essa conferência.

Ela é negra, alta e magra e tem corpo de maratonista. Nasceu em 1969 em Mogadíscio na Somália. Sua história é mais ou menos uma síntese das mulheres oprimidas pela ignorância dos valores religiosos. Aos 5 anos Ayaan sofreu infibulação do clitóris numa cerimônia organizada pela avó. Aos 6 anos sua família deixou a Somália e passou a morar na Arábia Saudita, Etiópia e Quênia. Em 1992 ela chega a Holanda e trabalha como faxineira e tradutora. Ayaan se interessa pela situação das mulheres refugiadas e sua complicada integração nos países ocidentais. Ela se elege deputada em 2003. Em 2004 ela fez o filme "Submissão" com o cineasta Theo Van Gogh que trata da opressão das mulheres no islã e onde aparece uma cena de uma mulher semi-nua com o corpo estampado com trechos do Alcorão. Foi a sentença de morte. Theo Van Gogh foi morto na Holanda por um islâmico radical e em seu corpo havia uma carta avisando que a próxima vítima seria Ayaan.

E ela foi para os Estados Unidos e atualmente reside em Washington. Em todo lugar que ela passa, os seguranças a acompanham. Aconteceu ontem em Porto Alegre.

O tema da conferência foi o multiculturalismo e o auditório estava cheio. Ayaan conta a complicada história de uma familia somali refugiada que se estabelece na Holanda.

E ela avisa: é uma distorção da liberdade permitir a opressão de mulheres em nome do diversidade cultural ou religiosa"."Se o respeito pela tradição e ou religião conflita com os direitos humanos, o indivíduo deve sempre vir antes", "A doutrina do multiculturalismo [de preservar a identidade dos imigrantes] é uma ilusão cruel. E arremata: " o islã incompatível com a democracia."É claro que há muçulmanos bem integrados em sociedades democráticas", ponderou, ressalvando a distinção entre o indivíduo e o arcabouço moral islâmico. "Mas o islã como doutrina e sobretudo como política é incompatível com a herança iluminista e a teoria democrática secular".

Na verdade, essa tese da Ayaan vai contra aquele velho pensamento "politicamente correto" de se respeitar a identidade e a tradição dos imigrantes. Isso tem que ter algum limite, como ponderou Renato Mezan, por exemplo, não é possível permitir, numa sociedade moderna, que um grupo de imigrantes venha negociar escravos. Um país socialmente desenvolvido não pode permitir que uma avó - em nome da religião - faça mutilações em suas netas ou seja omisso em relação aos maus tratos que algumas mulheres e crianças muçulmanas cotidianamente recebem de seus maridos.


terça-feira, 27 de maio de 2008

Beto Brant e José Padilha no Fronteiras


Assisti ontem ao debate entre os cineastas Beto Brant e José -Tropa de Elite - Padilha no Seminário Fronteiras do Pensamento, realizado no auditório da UFRGS em Porto Alegre.
Primeiro falou Beto Brant que discorreu sobre sua trajetória e filmografia, sua vida de diretor de cinema, sua infância no interior de S. Paulo e mostrou os trailers de seus filmes: os matadores, ação entre amigos, o invasor, crime delicado e cão sem dono.

Quando José Padilha pegou o microfone ele disse que não ia falar de sua vida, mas isso é praticamente impossível. Padilha procura impacto para gerar discussão na sociedade. Foi com essa receita que ele elaborou o processo de criação de seus dois filmes: Onibus 174 e Tropa de Elite. Padilha falou também de dois outros filmes: Notícias de uma Guerra Particular (de João Moreira Salles, 1999) e Cidade de Deus (de Fernando Meirelles, 2002) como exemplos de títulos que "transcendem o cinema, gerando discussões em toda a sociedade".

Fiquei realmente impressionado com a objetividade e inteligência de Padilha. Ele disse: se convencionou aqui no Brasil que o problema da violência está intimamente ligado a nossa miséria. Ou seja, o Brasil é um país violento, porque aqui existe miséria. Mas essa é uma falsa ótica, porque existem países muito, mas muito mais miseráveis do que o Brasil, mas não são violentos. Por que, então, no Brasil existe essa violência? Existe algo, algum fator, algum aspecto que torna o miserável um ser violento. E que fator é esse? É o Estado.

Exemplo, no filme Onibus 174 (este blogueiro ainda não viu, mas pretende, urgentemente, ver), cujos fatos foram totalmente televisionados pela Rede Globo ao vivo, a cores e direto para todo o Brasil, Padilha conta a história do evento trágico, ocorrido em 12 de junho de 2000, que teve como personagem central Sandro Barbosa do Nascimento, que viu e sentiu na pele a ação e a omissão do Estado.
Sandro Nascimento teve uma vida de grandes tragédias; aos seis anos viu sua mãe ser assassinada na favela onde morava no Rio, virou menino de rua e frequentava os arredores da Igreja da Candelária, onde recebia abrigo e comida e no dia 23 de julho de 1993 presenciou a morte de vários amigos no terrível massacre da Candelária. Sandro sobrevivia de pequenos furtos e se viciou em drogas (cocaína), chegou a ser preso e viu de perto a violência e a tortura do sistema carcerário brasileiro, até que um dia resolveu assaltar um ônibus e que gerou a tragédia filmada por Padilha, do Ônibus 174. Nascimento resolveu sair do ônibus levando a professora Geisa Firmo Gonçalves como escudo. Ela foi atingida por uma bala de um policial do BOPE, a tropa de elite e ele foi asfixiado e morto em um camburão da polícia militar.

Sandro Nascimento é mais um miserável do Brasil que se tornou violento, porque vítima direta da omissão do Estado -- morador de favela, sem oportunidades, sem ter acesso à educação, a saúde que viu sua mãe ser morta pela violência -- e da ação violenta e torturante do Estado.

No filme Tropa de Elite, Padilha muda o ângulo, o personagem central é o mesmo Nascimento, mas um Nascimento que é policial do BOPE. E este ângulo é mais amplo, porque ele navega entre o usuário de drogas, os traficantes, a polícia convencional e a polícia de elite. E atrás de tudo isso, sobre tudo isso, diante de tudo isso, está o Estado e as pessoas que controlam a máquina administrativa, os políticos plantonistas ou não.

O próximo filme de Padilha - e ele pretende encerrar uma trilogia -- vai ser exatamente sobre o Estado, seus agentes, seus políticos, seus financiadores, aqueles que são os responsáveis pelo Estado que transforma miséria em violência.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Edgar Morin - Ambivalências e Esperanças



Lá pelas tantas apareceu Morin. Edgar tem hoje 87 anos e já foi gauche na vida, participou da resistência contra o nazismo, lutou contra os totalitarismos e se desiludiu com as utopias. Morin estava ali - ontem - falando para uma imensa platéia no curso de altos estudos Fronteiras do Pensamento, no auditório da UFRGS em Porto Alegre. O marco inicial é maio de 68 e o termo final é a incerteza da nossa época. Que futuro, afinal, virá ? Quais serão os caminhos da história ? Ele se diz ser um resistente da barbárie, qualquer tipo de barbárie, científica, ideológica, do mercado e que acredita na metamorfose e que é possível sim mudar a sociedade a partir de seus erros, seus equívocos, sua barbáries. Os ideais de Maio de 68 eram de esperança, o questionamento do poder das autoridades, as minorias, a contracultura, a imaginação no poder, mas esse sonho dourado acabou, a esperança foi embora e a ambivalência da realidade se mostrou exacerbadamente impiedosa. O sonho socialista da igualdade, da sociedade perfeita, ruiu com as barbáries totalitárias feitas em nome da religião da ideologia que culminou com a queda do muro de Berlim, em 1989. É o fim do século XX. O fim da utopia não significa o fim da história, como proclamou Fukuyama, porque tudo é muito ambivalente. O livre mercado pode ser o sonho da liberdade, mas gera, também, graves desigualdades. A história continua, mas construída cotidianamente de fins e começos, de metamorfoses, de ambivalências, de esperanças e desencantos, de crises, conflitos e reestruturações e vamos dia-a-dia demolindo, construíndo e reconstruindo o nosso incerto destino. Como disse o poeta T.S. Elliot: "meu fim é meu começo". Tudo, tudo, tudo é muito ambivalente.