Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Nada de Novo no Mundo Globalizado


Angeli

Origens do risco no capitalismo global
Gilberto Dupas



Fala-se da crise atual como sistêmica e global. Mas as associações entre risco e globalização vêm de longe.No início do século 16, com a percepção do mapa-múndi, pela primeira vez nos situamos numa perspectiva planetária. As viagens sucessivas de Colombo, Magalhães e Elcano atestaram que vivíamos numa esfera e revolucionaram nossas percepções sociopolíticas. O filósofo Peter Sloterdijk localiza aí o início da globalização.
Um novo conceito espacial de poder havia se tornado indispensável para os vencedores, insuportável para os perdedores e inevitável para todos. Quem chegava a portos pátrios depois de uma circum-navegação terrestre não podia mais imaginar-se centro do mundo. A cidade natal passou a ser vista de fora dela.
Júlio Verne percebeu com clareza a ideia de modernidade como de um fluxo globalizado. O seu itinerário em "A Volta ao Mundo em 80 Dias" reverte o sinal histórico, com a supremacia das viagens marítimas sobre as terrestres.
Colombo desenhara para as majestades da Espanha um globo pequeno, basicamente sólido, com os oceanos restritos a um sétimo de sua superfície. Pouco depois se exigia dos europeus entender que a predominância de superfícies aquosas dava à Terra um nome inadequado. De fato, tratava-se de um mundo líquido, com três quartos de sua superfície de água.Essa foi a informação cartográfica fundamental da Idade Moderna. Sloterdijk lembra que, no pequeno globo Lenox, construído em 1510, a legendária ilha de Cipango (Japão) -mencionada por Marco Polo- aparecia muito próxima da costa ocidental da América do Norte.
A ideia do predomínio das massas continentais só acabou quando Pigafetta descreveu a Carlos 5º da Espanha sua viagem com Elcano, garantindo terem navegado três meses e 20 dias com ventos favoráveis através de um mar incomensurável e muito calmo, que chamaram de Pacífico, o que colocou a imensidão das águas em seu verdadeiro lugar. Agora, havia que pensar em termos oceânicos. Acabava, também, a adequação semântica de continentes, que já não continham mares; eram contidos por eles.
A partir daí, o fluxo de mercadorias e pessoas na Idade Média foi um costear, atravessar ou se esquivar dos mares. Os oceanos do mundo transformaram-se em suportes dos assuntos globais e meios naturais dos fluxos ampliados de capital. Só o mar passava a dar uma base para pensamentos universais. Estava inaugurada a globalização. A navegação europeia -civil, militar e corsária- foi o seu veículo principal até o auge das viagens aéreas, na segunda metade do século 20.Um dos primeiros que souberam extrair vantagens desses conhecimentos foi Carlos 5º. Ele viu na carta secreta de Pigafetta uma oportunidade. Pelo Tratado de Zaragoza, vendeu os direitos das ilhas Molucas à coroa portuguesa por 350 mil ducados, negócio excepcional, porque as medições do Tratado de Tordesilhas vieram a mostrar que elas pertenciam a Portugal.
Conhecimento já era poder.
Esse negócio internacional inaugurou a natureza eminentemente especulativa dos processos de globalização capitalista, sob os auspícios do risco e do oportunismo. Os capitais também se libertaram dos países. O império espanhol de ultramar foi construído com empréstimos de bancos flamengos e genoveses cujos donos, brinca Sloterdijk, faziam girar o mundo para construir os caminhos de ida e de volta dos juros. Isso não lembra os atuais fluxos globais?
Descobrimentos passaram a significar domínio de rotas e colônias que permitissem a patrocinadores reais ou burgueses realizar lucros sob forma de comércio, tributos e butins. Novos mapas e conhecimentos oceânicos eram protegidos como segredos de Estado; a coroa portuguesa proibia sua divulgação sob pena de morte.
A parelha globalização-descobrimento virou sinônimo de investimento e risco para reis e empresários que quisessem tentar fortuna. A sociedade capitalista em formação já se dava conta de que tinha de tomar crédito, planejar, inventar, arriscar, partilhar resultados e amargar quebras.
Acabava, então, a ideia da dívida como mancha moral, até porque, sem ela, não há capitalismo.Como vimos, a não ser na instantaneidade das informações, não há nada muito novo sob a luz do Sol. Um capitalismo mais selvagem? Nem isso, apenas muitíssimo veloz e causador de danos mais amplos.






GILBERTO DUPAS , 66, é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional (IRI-USP), presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e autor de vários livros, entre os quais "O Mito do Progresso" e o recente romance "O Incidente".

Publicado na Folha de hoje.

Gélida Realidade



Ilha da Fantasia

Kenneth Maxwell

Das gélidas vastidões invernais da América do Norte, apesar da crise, muita gente continua a fugir para o Caribe a cada inverno. Por alguns dias, essas pessoas desfrutam do sol e da areia em um belo ambiente tropical. Tudo parece muito distante da situação que deixam em casa, onde as notícias pioram a cada dia.No trimestre final de 2008, 1,5 milhão de empregos foram perdidos nos EUA. Em 25 de janeiro, 75 mil trabalhadores foram demitidos por empresas como Pfizer, GM, Sprint, Home Depot, Caterpillar, IBM e Texas Instruments. Pelo final de janeiro, havia 4,7 milhões de desempregados no país. Os especialistas já estão prevendo índices de desemprego da ordem de 9% a 10% neste ano.O presidente Obama pressionou o Congresso e defendeu vigorosamente diante do público o seu pacote econômico de US$ 819 bilhões. As medidas incluem US$ 365 bilhões em gastos com energia, redução de impostos e educação. E incluem US$ 30 bilhões em subsídios às pessoas que perderam seus planos de saúde, US$ 13,4 bilhões para bolsas de estudo e bilhões adicionais para projetos de infraestrutura em todo o país. Como parte do processo, ele tentou se aproximar do Partido Republicano e foi ao Congresso conversar com senadores e deputados republicanos a fim de explicar as medidas propostas e a sua urgência. Seus esforços não tiveram impacto. A votação do pacote na Câmara foi decidida em base estritamente partidária, com 244 votos a favor e 188 contrários.Os republicanos argumentaram que o pacote era vasto demais e que seria impossível fiscalizá-lo. É verdade que os democratas tendem a combinar propósitos elevados e práticas questionáveis. Mas essa espécie de queixa pesa pouco aos olhos do público diante das trapaças de Bernie Madoff, que custaram US$ 50 bilhões aos investidores, e à medida que escândalos financeiros emergem a cada dia.Um dos mais recentes envolve John Thain, antigo presidente do Merrill Lynch, um banco de investimento que sofreu US$ 15,3 bilhões em prejuízo. Ele aparentemente gastou US$ 1,2 milhão reformando seu escritório -incluindo um tapete de US$ 84.784 e US$ 89 mil em cortinas. A desistência do ex-senador Tom Daschle, confidente de Obama, à indicação para o cargo de secretário de Saúde e Serviços Humanos, após ter sido divulgado que ele deixara de pagar mais de US$ 100 mil em impostos, é um golpe significativo para um presidente que prometeu elevar padrões éticos.Havia uma velha série de TV chamada "Ilha da Fantasia". Os norte-americanos que estão passando férias nas praias do Caribe deixaram a dramática situação de seu país para trás, por enquanto. Mas, quando voltarem a Chicago, Nova York ou Boston, terão de enfrentar uma gélida realidade.

Artigo publicado na Folha de hoje.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Novamente - Keynes


Keynes, de novo
Antonio Delfim Netto

Há duas semanas, publicamos nesta mesma coluna um "suelto" no qual reconhecíamos que o New Deal do presidente Roosevelt ajudou a superar os aspectos mais dramáticos da profunda recessão instalada em 1929 nos Estados Unidos, que era então, como é hoje, o coração do "capitalismo". Por outro lado, sugerimos que a "glamourização" do New Deal como uma política "keynesiana" era equivocada.
A singela "prova" que apresentamos foi a seguinte: em 1937, a receita pública cresceu em resposta às ações do New Deal, mas o nível do PIB estava longe do "equilíbrio", (a taxa de desemprego era de 15%) e a expansão monetária (juntamente com o "corporatismo" criado pelo New Deal) produziu uma inflação de 4,7% (com o nível dos preços muito abaixo dos de 1929). A resposta de Roosevelt foi produzir um superávit fiscal e (através do Fed) aumentar a taxa de juros, o que gerou uma nova recessão em 1938, quando o PIB caiu 4,6%!. Tudo claro, simples e aborrecidamente numérico! Felizmente, não. Fui honrado com meia dúzia de observações de leitores civilizados. Descobri que existe uma seita de adoradores do "keynesianismo hidráulico" tão desinformada sobre o papel do "mercado" (suas virtudes e problemas e sua relação com o Estado) quanto a seita dos "neoliberais", que, agora, depois da crise, tem um "ar de cachorro que caiu do caminhão de mudança"...Para tranquilizar mentes e corações dos keynesianos hidráulicos mais sanguíneos, gostaria de sugerir-lhes a leitura do artigo (hoje clássico) do grande economista E.C. Brown, "Política Fiscal nos Anos Trinta: uma Reavaliação" ("The American Economic Review", Vol. XLVI, December 1956: 857-879), cuja conclusão é clara e irrefutável: "A política fiscal (obviamente, a de inspiração keynesiana) nos anos 30 parece não ter sido bem sucedida, não porque não funcionou, mas porque não foi tentada". Vão gostar. Estão lá todos os velhos fantasmas que nos assombraram nos anos 50 do século passado.Para os detratores do poderoso Maynard, transcrevo frases (tradução livre) de uma carta que ele enviou a Roosevelt (1º de fevereiro de 1938): a política de 1937 "foi um erro de otimismo". Nela dá dois conselhos: 1º) "renovar os esforços no gasto público" e 2º) tentar cooptar o setor privado: "você pode fazer o que quiser com ele"... "mas, sem realinhá-lo no esforço comum, a recuperação não acontecerá". Este, aliás, é um bom conselho para certas autoridades brasileiras cujo autismo é manifesto.
Na Folha de hoje.

Obama Não é Guevara




O governo Obama: uma cartilha para estrangeiros

Bernard-Henri Lévy Do Le Point e New York Times

A grande notícia, desde a posse e de todo dia desde então, é que Barack Obama não é mais negro. Sim, é verdade. E os Estados Unidos seguem o mesmo caminho. Algumas pessoas votaram nele porque ele era negro e porque sua eleição seria um feito culminante da longa marcha que teve início com o "sonho" de Martin Luther King Jr., dois anos após o nascimento de Obama. Alguns votaram contra ele porque era negro e porque restavam, apesar da Revolução Cultural sem paralelo que o país realizou em meio século, resquícios de segregacionismo e racismo.
A batalha foi vencida. A era da segregação do Estado foi relegada ao passado. E Barack Obama é - como o slogan que ele lançou na Convenção Nacional Democrata de 2004 em Boston, na ocasião de seu primeiro "grande" discurso - o 44º presidente, não desta América, ou daquela América, mas dos Estados Unidos da América. A reestruturação do campo visível. O fim da política concebida como domínio da pigmentologia. Nem preto, nem branco, nem birracial: Obama.

A segunda coisa que nós europeus precisamos colocar rapidamente em nossas cabeças é que Barack Obama não está na "esquerda". Há de fato, ao contrário da crença popular deste lado do Atlântico, uma esquerda americana. Há uma ala à esquerda do Partido Democrata que de fato nunca apoiou Obama sem reticência ou resistência, que na época daquele discurso era apenas um jovem senador carismático de Illinois. Barack Obama não é um esquerdista. Barack Obama nomeou para postos chaves republicanos (Robert Gates, mantido em seu cargo como secretário da Defesa; o ex-deputado de Illinois, Ray LaHood, como secretário dos Transportes) e tecnocratas ultrapragmáticos (Timothy Geithner como secretário do Tesouro; Lawrence Summers como diretor do Conselho Econômico Nacional; Peter R. Orszag como diretor do Escritório de Administração e Orçamento) que, francamente, não têm muito a ver com o que nós na Europa chamamos de esquerda.

Barack Obama não é Che Guevara. Barack Obama não é um membro honorário do Partido Socialista francês. Barack Obama é o encontro no mesmo corpo, na mesa de dissecação da iconologia americana, das almas de King e John F. Kennedy.

A terceira nulidade da qual alguém gostaria de ser poupado durante esta avalanche inicial de comentários: Barack Obama não é, e nem será, o presidente do "declínio do império americano". Ele ordenou o fechamento do campo de detenção de Guantánamo, naturalmente. Ele deixará o Iraque antes do final de 2011 como prometeu. É provável que ele romperá com a ideologia "messiânica" e "inevitável" do governo Bush em relação à exportação dos ideais democráticos. E ele empregará, em suas relações com seus aliados, uma retórica impregnada do multilateralismo tão dolorosamente ausente em seu antecessor. Mas os europeus não devem contar com que ele admita a culpa dos Estados Unidos ou capitule para Chávez ou Ahmadinejad, ou mesmo busque correndo o advento do mundo multipolar com que russos e chineses sonham.

Os Estados Unidos permanecerão os Estados Unidos. Os Estados Unidos não fornecerão ao antiamericanismo planetário novas varas para que apanhem. Quer gostemos ou não, a América liderada por Obama fará o que puder para permanecer a principal potência econômica, política e militar no mundo.

E qual a mudança, então? Na política doméstica, ele ocorrerá em três áreas principais. A reforma do sistema de saúde que exclui 46 milhões de americanos e com o qual todos os presidentes dos Estados Unidos até Obama (inclusive Bill Clinton) lidaram e então desistiram. Um New Deal neo-keynesiano visando a reconstrução da infraestrutura da nação (estradas, pontes, diques em Nova Orleans, bairros abandonados em Detroit, Cleveland, Los Angeles e Buffalo, Nova York) que, em algumas áreas, se compara a dos países mais abandonados do Terceiro Mundo. E então a reforma do sistema financeiro: antes desta crise, seus observadores mais atentos - Nouriel Roubini, professor de economia da Universidade de Nova York, Harry Markopolos, uma ex-autoridade de investimento que tentou alertar a Comissão de Valores Mobiliários de que Bernard Madoff era uma fraude; Nassim Nicholas Taleb, um autor premonitório de "A Lógica do Cisne Negro: O Impacto do Altamente Improvável" - gritavam que o mundo estava sendo conduzido para a catástrofe, mas a ideologia de desregulamentação predominante os abafava.

Que Obama se limite a estas três tarefas, que abra esta frente tripla de trabalho sem demora; isto representa, na América atual, mais do que uma mudança de curso. É uma revolução.E quanto à política externa: finalmente, o que se sabe sobre as convicções, declarações ou mesmo objetivos ocultos do novo presidente me levam a crer que a política externa de seu governo inclui, além do Iraque, dois pontos principais de reorientação. Já no caso do Oriente Médio, ele não aguardará até o final do seu segundo mandato, como Clinton e Bush, para se informar da urgência do conflito entre israelenses e palestinos e então se lançar em uma corrida final e patética para obter um acordo impossível entre as duas partes.A questão das relações com o Paquistão: ele manterá a aliança, talvez até mesmo a fortalecerá, mas romperá com a incondicionalidade que foi habitual sob os últimos três governos, e que tornou a "terra dos puros" o país mais perigoso do planeta.




Em outras palavras, ele apresentará condições associadas à sinceridade da luta do governo paquistanês contra os agentes da Al Qaeda que se infiltraram nos serviços secretos do país, condições baseadas no controle do governo de seu arsenal nuclear, que ninguém pode garantir que será mantido longe das mãos dos jihadistas. E por esses dois motivos, também, a presidência de Obama representa uma chance para o mundo.




Bernard-Henri Lévy é filósofo e jornalista. Considerado um dos principais escritores franceses da atualidade, é autor de obras como "Quem Matou Daniel Pearl?" e "American Vertigo".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Não Importa a Cor do Gato, Basta Que Cace Ratos


Detalhes dos sapatos de palestrantes do Forum Econômico de Davos



A mudança já chegou na montanha mágica de Davos

Francisco G. Basterra
El Pais

Estão acontecendo coisas extraordinárias. Apenas dez dias depois de iniciada a presidência de Obama, os primeiros indícios da mudança que conduzirá a um novo cenário já ocorreram. Vejamos alguns deles. A montanha mágica de Thomas Mann, em Davos (Suíça), ponto de encontro tradicional em janeiro para celebrar o festim do liberalismo financeiro pelos já ex-donos do universo, foi nacionalizada. A intervenção do Estado, maciça e imediata, para alimentar o apagado motor de arranque da economia mundial é lei. Esqueçamos a ideologia do "laissez faire, laissez passer" para voltar a dois personagens clássicos: John Maynard Keynes e Deng Xiao Ping.

O político chinês por aquele "não importa a cor do gato, basta que cace ratos". Em Pequim, brinca-se ultimamente sobre o extraordinário exemplo da economia socialista americana com características chinesas. Os políticos se apoderaram do fórum de Davos, deixando em segundo plano os banqueiros, atacados por uma onda mundial de irritação que não entende sua resistência a dar créditos. Desgosto refletido nos rostos dos cem espanhóis que perguntavam na segunda-feira ao primeiro-ministro na TVE, e a extrema dificuldade de ZP [José Luis Rodríguez Zapatero, o primeiro-ministro espanhol] para explicar com tecnicismos que "não estamos injetando dinheiro nos bancos". Se o programa "Tenho uma Pergunta para Você" é o último estágio da democracia pós-moderna, apague a luz e vamos embora.

A Big-Brotherização da política via tubo catódico. Tudo é um "reality show". Tinha razão Giovanni Sartori em seu livro "Homo Videns - La Sociedad Teledirigida": a videopolítica manda nesta teledemocracia.

A necessidade de criar um grande xerife ou supervisor global do sistema financeiro quase não é mais contestada. Algo impensável até muito pouco tempo atrás. Bernanke, o presidente do Federal Reserve dos EUA, explica que "o mundo está muito interconectado para que os países vão cada um para seu lado em suas políticas econômicas, financeiras e regulatórias". Dois banqueiros espanhóis estão em Davos, exatamente os que nesta semana anunciaram os maiores lucros do banco europeu e quase mundial: € 14 bilhões. Outro sinal incompreensível para o cidadão comum ou o pequeno empresário feridos pela falta de liquidez. A esta altura parece claro que a decisão já foi tomada: salvar os bancos acima de tudo, recapitalizá-los, sanear seus balanços, nacionalizá-los se necessário, inclusive criar, como sugere Almunia [Joaquín, comissário europeu de Assuntos Econômicos e Monetários], um banco "ruim" financiado pelo contribuinte, preenchê-lo com os ativos tóxicos de todos os bancos.O FMI anuncia que o valor dos ativos bancários contaminados chega a € 1,65 bilhão. Os bancos não vão emprestar porque sabem que precisarão de mais capital para aguentar esse buraco negro. E a economia parada. E, como no Titanic, os banqueiros, como se fossem mulheres e crianças, são os primeiros a saltar para os botes e o resto dos mortais espera a bordo enquanto escuta a última valsa da orquestra.Mas ao que parece somos todos culpados, porque nós particulares guardamos a poupança na meia doméstica, assim como os bancos em suas caixas-fortes. Já nos disse Zapatero para confiar - em quem ou em quê? - e consumir, depois de seu ministro da Indústria recomendar uma surpreendente volta à autarquia.O único economista que, já em janeiro de 2008, disse em Davos que a economia mundial se dirigia para uma aterrissagem catastrófica, Nouriel Roubini, professor na Universidade de Nova York, afirma agora que o banco americano está quebrado por insolvência. E o mesmo se pode dizer dos bancos europeus. Por sua vez, Nassim Taleb, autor do interessante livro "El Cisne Negro: el Impacto de lo Altamente Improbable" [O cisne negro - o impacto do altamente improvável], subiu aos Alpes para afirmar que a nacionalização dos bancos é absolutamente necessária. "Sabem que vamos resgatá-los e nos têm presos como reféns". Obama denunciou a "sem-vergonhice" dos executivos financeiros de Wall Street que continuam recebendo suculentos salários enquanto recolhem as abundantes ajudas do governo.O insólito apelo de Obama ao mundo muçulmano, através da televisão Al Arabiya, para entabular um diálogo respeitoso em que os EUA reconhecem que não devem impor nada, é outro dos acontecimentos extraordinários de que falei no começo. O presidente declarou concluída a longa guerra contra o terrorismo de Bush, prometendo escutar porque com frequência, admitiu, os EUA começam ditando. Barack Husein, metade negro do Quênia e metade branco do Kansas, que viveu na muçulmana Indonésia, e com parentes africanos, muçulmanos e até um rabino judeu, está melhor aparelhado que qualquer outro líder internacional para entender o mundo diversificado e estabelecer essa nova relação.Também representa um novo EUA que estão deixando de ser "brancos" em grande velocidade. Em 2042 os latinos, negros e asiáticos serão majoritários. Mas em 2023 isso já ocorrerá se contarmos só os americanos menores de 18 anos. Muitos membros da nova Casa Branca nasceram ou viveram fora dos EUA. Dado significativo em um país em que ainda somente 22% da população têm passaporte.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Museu das Velhas Novidades



Vejam a foto acima que pesquei na Folha de hoje. Fernando Collor cumprimento José Sarney pela eleição no Senado. Renan Calheiros está junto. Os líderes do Congresso Nacional não se renovam. São sempre os mesmos.

Angeli


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Que é Pior?




Pior do que ser explorado pelo capitalismo é não ser explorado pelo capitalismo.

Frases do Fórum Social Mundial


Pesquei da agência Carta Maior do artigo de Katarina Peixoto:

Frases dos cartazes da passeata de inauguração do FSM em Belém.

Aqui tem verde.

Lula, cadê a garantia do emprego?

Viva a Resistência do Povo Palestino.

Eu vim para trabalhar, não para morrer.

Un mondo diverso è possible.

PT contra a guerra.

Não às barragens de Belo Monte e do Xingu.

Vamos Amazonizar o mundo.

Regularização das terras quilombolas.

Trabalho escravo: vamos abolir de vez.

Sindicato pelo trabalho decente.

Abaixo a rede Globo.

Palestina Livre.

Samba, índios, samba.

Apresentação do documentário Mataram Irmã Dorothy.

Sem Intolerância.

Presença anglicana no Fórum.

Marcha da Maconha.

Trabalhadores não podem pagar pela crise.

Por espaços mais justos e sociedades mais humanas.

Italianos carregam bandeira da Palestina.

Pra lutar contra Lula e os patrões: construir uma nova central sindical.

Conlutas: todo apoio ao povo palestino.

Intoxicados da FUNASA – lutar pela vida é lutar pelos direitos humanos.

Economia Solidária: outra economia acontece.

Reforma Urbana.

Não à corrupção.

Povo na Rua, trabalho escravo nem pensar.

Caravana carbono neutro.

Movimento agroecológico América Latina e Caribe.

Coletivo contra Naturas: radicalidade lesbiana.

Virgem de Nazaré, na terra de direitos onde não está a justiça.

Rede da juventude pelo meio ambiente sustentável.

Respeitabilidade religiosa.www.rosalux.de

Los Derechos Humanos son para todas las personas.

Aldeia da paz.

Visión para um nuevo mundo.

A violência é apenas uma consequência da desigualdade social.

Sim, um outro mundo é possível, sem usinas termelétricas: não à U.T.E. da Vale.

Todo dia é dia de luta pela saúde.

Um mundo de direitos.www.amisrael.com.br

Resistentes e Teimosos na construção de outro mundo possível.

Movimento Nacional pela Moradia Popular.

The right to know, the right to live, government money is our money.

SOS Saúde Mental (bordado sobre pano verde).

Pela saúde pública e universal para todos os povos.

Crítica Radical: Fora Política, não vote.“Capitalismo é para morrer, não adianta o estado socorrer”.

Que crise é essa?

Não às fundações de direito privado.

VEM= Vegetarianos em Movimento.

Apocalipse 3:20.

AHE Belo Monte: energia para nossa gente.

Palestina livre e soberana.

Aborto é um direito.

MaMuMu.

Igualdade.

Chega de massacre e genocídio.

Liberdade de amar é um direito.

Kizomba: nosso planeta não está à venda.

Queremos o título definitivo.

Saneamento básico e segurança.

Escola de samba planetária.

Não à redução da maioridade penal.

Cachorro quente + suco = 1,50.

Socializar a riqueza para combater a desigualdade.

Por outra imagem da mulher na tevê.

Feministas contra o capital.

Feministas contra o racismo.

Pela vida das mulheres.

Direito ao nosso corpo, legalizar o aborto.

Cuidado, racismo mata.

Povos da bacia do rio Madeira no FSM 2009, não às empresas na amazônia.

Não há direitos humanos sem as mulheres.

São culpados pela crise: BID, Banco Mundial, FMI.

O mundo discute suas diversidades – Conselho Municipal de Saúde de Manaus.

Outro mundo amazônico é possível.

O Maranhão exige respeito. Sarney Nunca Mais.

“Ni guerra que nos destruya, ni paz que nos oprima”.

“Segura, segura imperialista, a América Latina vai ser toda socialista!”

Onde Foram Parar os Antiglobalistas?



Manifestantes antiglobalização em Seattle em 1999.


Em Belém, os antiglobalistas se reorganizam em torno do combate ecológico

Laurence Caramel do Le Monde

Onde foram parar os antiglobalistas? Apesar de a crise financeira ter abalado as certezas dos liberais mais fervorosos, aqueles que há quase dez anos se impunham como uma força ascendente de oposição à globalização liberal, no estardalhaço do primeiro fracasso da OMC em Seattle (EUA), estão ausentes dos debates sobre a reforma do capitalismo, que faz parte da agenda das grandes potências e principalmente do Fórum de Davos, que acontece esta semana.

Oito anos após sua primeira edição em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial (FSM) foi aberto na terça-feira (27 de janeiro) para cinco dias em Belém, às portas da Amazônia, voltando para o Brasil após desvios pela Ásia e pela África e um ano "em branco" em 2008, durante o qual o Fórum deu lugar a uma jornada de ação mundial que passou praticamente despercebida.


Quase 100 mil pessoas são esperadas na capital do Estado do Pará, sinal da atração que esse espaço único de encontros e debates continua a exercer sobre os movimentos da sociedade civil. Os antiglobalistas ficaram de fora? "O Fórum Social Mundial é movimentado por uma renovação permanente de organizações que querem se juntar novamente ao processo", garante Catherine Gaudard, do Comitê Católico contra a Fome e pelo Desenvolvimento (CCFD), ao mesmo tempo em que reconhece que o movimento perdeu visibilidade.Nem todos compartilham desse otimismo.

"O movimento se difundiu na América Latina, pois coincidiu ali com uma onda progressista; na Europa, ele logo perdeu o fôlego, e em outros lugares ele não pegou", considera Gustavo Marin, da Fundação para o Progresso Humano, que além disso julga severamente a "produção" do FSM: "Na prática, ela se resume a três documentos""."Os mais pobres são as primeiras vítimas do desajuste climático"

De fato, para que a reunião não se limitasse a um grande grito de protesto, em 2005 foram redigidos cadernos de propostas. Mas a iniciativa não foi em frente. "Não haverá uma única voz antiglobalização que nos dê um novo modelo ideal de sociedade. A crise atual nos faz ver com mais clareza o absurdo de certos mecanismos perversos do capitalismo. Mas o outro mundo no qual acreditamos se construirá na diversidade", explica o brasileiro Chico Whitaker, um dos fundadores do Fórum. Ele lembra que a regulamentação mais rígida dos mercados e o controle dos paraísos fiscais são ideias que foram trazidas pelos antiglobalistas.


Se a crise financeira está no centro dos debates, o Fórum 2009 assume, entretanto, uma coloração nova, com a posição concedida à mudança climática e à crise ecológica. "Esse sinal é muito importante. A mudança climática não é simplesmente uma questão ambiental, é com urgência que os movimentos sociais devem tomar conta dela. As populações mais pobres serão as primeiras vítimas do desajuste climático", explica Kátia Maia, da Oxfam International, que vê ali uma oportunidade de reforçar os laços entre ONG de proteção ambiental e movimentos sociais.É o que também espera Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase): "Aqueles que quiserem preservar o ambiente deverão levar em conta o destino das populações". Luta contra o aquecimento, agrocombustíveis e segurança alimentar, acesso aos recursos naturais, dívida ecológica... Não faltam assuntos onde se cruzam o meio ambiente e as lutas sociais. A Amazônia é o melhor símbolo disso, e o Fórum realmente espera ter um peso no debate internacional.Belém também será a ocasião para se fazerem ouvir milhares de indígenas, representantes desses povos nativos tão pouco considerados nas discussões internacionais. A sobrevivência deles depende de decisões que os Estados tomarão ou não para preservar os grandes ecossistemas planetários.



Tradução: Lana Lim