Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


segunda-feira, 5 de maio de 2008

68 aos 40 - Peter Burke



Recomendo a leitura do artigo do historiador britânico Peter Burke na Folha de ontem, caderno Mais, sobre Maio 68.


Uma das datas da qual os membros da minha geração jamais vão se esquecer é 1968, graças a dois acontecimentos, um em Praga e o outro em Paris. O primeiro foi a chamada Primavera de Praga -em outras palavras, o "socialismo com face humana" incentivado por Alexander Dubcek, que se tornou primeiro secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia em janeiro daquele ano. O segundo acontecimento memorável ou, melhor dizendo, série de acontecimentos -"os acontecimentos", como os franceses os descreveram na época- se deu em Paris, dentro e em volta de duas universidades: Sorbonne, no centro da cidade, e Nanterre, em sua periferia. Os estudantes foram liderados por trotskistas (expulsos da União dos Estudantes Comunistas Franceses em 1965), maoístas e anarquistas (sobretudo o carismático Daniel Cohn-Bendit, que se tornaria um respeitável deputado no Parlamento Europeu). Os estudantes se revoltaram, hastearam bandeiras vermelhas, atiraram coquetéis Molotov, lutaram contra a polícia ou fugiram dela, arrancaram paralelepípedos das ruas, ergueram barricadas (pela primeira vez desde a Segunda Guerra), atacaram os escritórios da American Express e do banco Chase Manhattan em Paris e, no dia 10 de maio de 1968, ocuparam a Sorbonne, convertendo-a numa espécie de comuna estudantil. De Gaulle queria enviar o Exército para intervir, mas foi persuadido a não fazê-lo, já que os soldados, em sua maioria rapazes que cumpriam o serviço militar obrigatório, poderiam querer se confraternizar com os estudantes. As principais armas empregadas contra eles foram investidas com gás lacrimogêneo e cassetetes. Slogans e pichaçõesAs revoltas estudantis não costumam conquistar a simpatia do público, mas esses fatos o fizeram. Mesmo as pichações nos muros foram fotografadas e reproduzidas na imprensa, sendo imitadas em outras cidades, como Oxford. Algumas daquelas pichações são recordadas até hoje, especialmente "A imaginação ao poder!". Algumas delas seguiam a tradição das revoluções: "Abaixo o Estado", por exemplo, ou "Abolição da sociedade de classes!". Outras expressavam críticas à tradição revolucionária, exortando ao sexo em vez do trabalho e à espontaneidade em lugar da disciplina ("Aqui se "espontaneiza'"). Outras pichações, ainda, defendiam posturas francamente hedonistas ("Viver o presente" ou "Trabalhadores do país, divirtam-se!"), expressando um pouco do espírito carnavalesco dos próprios acontecimentos. Algumas pichações eram citações, reconhecidas ou não, de Bakunin, Nietzsche, Unamuno, Heráclito etc. Outras ofereciam epigramas originais, como "As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes" ou "A barricada fecha a rua, mas abre a via". Vistas em conjunto, essas inscrições transmitem de maneira vívida uma crítica veemente à religião, ao Estado (especialmente a polícia), ao sistema educacional e à sociedade de consumo ("A mercadoria é o ópio do povo"). A inspiração de muitas dessas pichações, assim como dos acontecimentos como um todo, veio do chamado "situacionista" Guy Debord, autor de "A Sociedade do Espetáculo" (1967), de intelectuais de esquerda como Henri Lefebvre, Louis Althusser, Cornelius Castoriadis e Claude Lefort, de Mao Tse-tung, tão popular entre a esquerda nos anos 1960, e, voltando mais atrás, de Marx, Lênin e Trótski. Alguma revoluçãoHoje, 40 anos depois, seria interessante que alguém entrevistasse os autores das pichações -se soubéssemos quem são!- para lhes perguntar o que pensam hoje das idéias e dos sentimentos que, na época, expressaram publicamente com tanta pungência. O que essas pichações tornam muito claro é o desejo ou a esperança de muitos de seus autores por alguma espécie de revolução política ou social, um novo 1789 ou, quem sabe, um novo 1848 ou mesmo uma revolução cultural como a que estava acontecendo na China, enquanto ocupavam a Sorbonne e eram elogiados por alguns intelectuais franceses, incluindo Jean-Luc Godard. Até que ponto essa revolução teve êxito? A pergunta era muito difícil de responder na época, mas hoje, passados 40 anos, algumas coisas já se tornaram mais claras. Os acontecimentos ajudaram a derrubar o presidente Charles de Gaulle, que renunciou ao cargo em abril de 1969. Por outro lado, De Gaulle foi sucedido por seu antigo primeiro-ministro, Georges Pompidou, que não era mais aberto que seu antecessor às idéias dos estudantes. Ganhos indiretosOs acontecimentos de 1968 instigaram o governo a empreender uma reforma das universidades, multiplicando o número de estudantes, mas não conseguindo ampliar a infra-estrutura acadêmica de modo a satisfazer as suas necessidades. É possível que as conseqüências mais duradouras do Maio de 1968 tenham sido indiretas, de natureza cultural, mais que estrutural. O exemplo dos estudantes parece ter encorajado o movimento feminista francês, além de aumentar a consciência política de alguns intelectuais, como foi o caso de Michel de Certeau [1925-86]. Num artigo publicado algumas semanas apenas após os acontecimentos, ele -com um entusiasmo talvez inesperado, em se tratando de um jesuíta de meia-idade- escreveu que "em maio de 1968, tomou-se a palavra como tomou-se a Bastilha em 1789". A interpretação que Certeau fez dos fatos do Maio de 1968 pode ser aplicada a ele próprio. Antes de 1968, ele era um historiador da espiritualidade que também se debruçava sobre a reforma da igreja. Depois de escrever esse célebre artigo sobre 1968, porém, Certeau foi projetado para sua segunda carreira, a de analista da sociedade contemporânea, discutindo e criticando as idéias de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, tendo escrito "A Cultura no Plural" (1974) e "A Invenção do Cotidiano" (1980), além de dar palestras nos EUA, no Brasil e em outros países. Em suma, como é o caso de revoluções em escala maior, os acontecimentos de 1968 incentivaram algumas pessoas a alimentar pensamentos novos, dando asas a sua criatividade. Para deixar a última palavra às pichações, "a revolução é uma iniciativa". "Criemos comitês de sonhos." "A ação não deve ser reação, mas criação." "Criem!"

Plano Marshall Brasileiro no Paraguai


Leio na Folha de S. Paulo de hoje que o chanceler Celso Amorim se encontrou com o vice-presidente eleito do Paraguai. É impressionante o poder que tem o Amorim que prometeu ao novo governo paraguaio uma espécie de Plano Marshall, tudo financiado pelo BNDES...


Uma perguntinha: quem é que vai pagar essa conta?



A portas fechadas com o chanceler Celso Amorim na última terça-feira, o vice-presidente eleito do Paraguai, Federico Franco, recebeu uma proposta de pacote de investimentos públicos no país vizinho, que vem sendo chamado pela diplomacia dos dois países de Plano Marshall brasileiro.O valor total ainda não foi fechado. O verdadeiro plano, de 1947, significou a ajuda financeira dos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados europeus depois da Segunda Guerra Mundial.Na versão tropical, o plano também serviria para reduzir a pressão dos paraguaios sobre a rediscussão do preço da tarifa de energia da usina binacional de Itaipu, tornando prático o discurso do governo brasileiro de auxiliar o desenvolvimento do Paraguai.Após a reunião com Amorim, Franco voltou a Assunção para discutir os temas com o presidente eleito, Fernando Lugo, que recebeu positivamente a idéia. Em contrapartida, Assunção poderia aprovar uma lei de proteção a investimentos estrangeiros, para alavancar sua economia.Segundo a Folha apurou, o plano prevê três vertentes: 1) financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para projetos de infra-estrutura e energia; 2) investimentos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) em cooperação agrícola; e 3) auxílio da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) às empresas instaladas no Paraguai.Há ainda a possibilidade de parceria com a Petrobras para a exploração de jazidas de gás natural na região do Chaco paraguaio. Havendo ou não participação da petroleira, o BNDES financiaria um gasoduto ligando o campo ao Brasil.Ao banco de desenvolvimento também caberia financiar a instalação de fábricas processadoras de soja, que o Paraguai não possui, e usinas de álcool para transformar em energia a cana-de-açúcar plantada no país vizinho. Além disso, os paraguaios querem investimentos em rodovias para um novo corredor de escoamento via oceano Pacífico.O pacote de investimentos surgiu como alternativa no governo brasileiro após a vitória do ex-bispo Fernando Lugo nas eleições presidenciais do mês passado. Primeiro político de fora do Partido Colorado a se eleger em mais de seis décadas, Lugo bateu forte nos preços da energia gerada pela binacional Itaipu, da qual o Paraguai é sócio com 50%.O governo brasileiro até aceita discutir a questão, mas dá maior importância a levar desenvolvimento ao Paraguai, com a instalação de fábricas e geração de empregos, em vez de apenas elevar o valor que o país vizinho recebe mensalmente pela energia da usina.A referência ao Plano Marshall tem relação com a Guerra do Paraguai (1864-1870), que matou 300 mil paraguaios. Após o conflito, mencionado repetidas vezes por políticos paraguaios, o país vizinho tornou-se um dos menos desenvolvidos do Cone Sul.A idéia inicial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do Itamaraty era negociar a instalação de uma linha de transmissão para levar mais energia de Itaipu para Assunção, mas o governo Lugo não dá prioridade ao tema. Na reunião com Amorim, Franco apresentou a idéia de uma licitação internacional para a construção de uma ponte com o Brasil exclusivamente para transporte de carga. Venceria a empresa que oferecesse o menor pedágio.A equipe de Lugo quer ainda debater com Brasil e Argentina o deslocamento das negociações de soja da Bolsa de Chicago para a nova Bovespa/ BM&F por conta da produção da commodity pelos três países.


sexta-feira, 2 de maio de 2008

Lá Não se Faz Escândalo


Na coluna da Mônica Bergamo de hoje sobre a farra do Ronaldo Nazário com os travestis:


"farras" com garotas de programa são comuns entre jogadores brasileiros que vivem no exterior. "A diferença é que, lá fora, prostitutas e travestis brasileiros são ilegais e jamais fariam escândalo como aconteceu aqui."

....Ronaldo repete aos amigos a versão que contou para a polícia e que não se arrepende de ter "enfrentado" o travesti, que pediu a ele R$ 50 mil para não fazer o fuzuê que acabou na delegacia. "Pode gritar quanto quiser", teria dito Ronaldo ao travesti Andréia Albertine quando ele começou a berrar.


Esse é o velho brasilsão, onde tudo é permitido, onde o politicamente correto manda e desmanda, onde a constituição e a lei concedem todo o direito, mas pouca obrigação....

Bons companheiros


Comemorando num discurso, com razão, o "investment grade" atribuído ao Brasil pela agência Standard & Poor's, o presidente Lula traduziu o termo do jargão financeiro numa frase de impacto imediato: o país passou "a ser considerado sério" pelos investidores internacionais.Infelizmente, esse diagnóstico de "seriedade" se aplica mais facilmente às práticas econômicas do Brasil do que ao comportamento de seus governantes, a começar do próprio Lula. Nesta quarta-feira, o presidente lançou-se a um extravagante ato de solidariedade ao governador cearense Cid Gomes (PSB), que, conforme amplamente noticiado, incluiu a própria sogra numa viagem oficial à Europa durante o feriado carnavalesco.A viagem representou um gasto de R$ 388 mil para os cofres públicos, por ter sido feita num jatinho fretado. Defendendo Gomes, Lula explicou que "um avião é alugado por quilometragem, pode ter um passageiro ou dez, o preço é o mesmo". Sim, desde que se tenha decidido fretá-lo, em vez de conformar-se com um vôo comercial comum. A partir dessa claudicante aritmética palaciana, Lula decolou no rumo de considerações mais abstratas."Eu acho que isso não contribui para a política, porque na hora que as pessoas começam a denegrir a imagem do político, o que vem depois é pior do que o político. O que vem depois não é mais sadio." A obscuridade da alusão só se deve à falta de argumentos reais para defender o "aerossogra" cearense.Não se trata de denegrir, obviamente, a imagem de político nenhum: num caso como o da viagem de Cid Gomes, o que se faz é noticiar o tipo de uso do dinheiro público em que incidem alegremente tantos detentores do poder neste país, que "passou a ser considerado sério"."Você tem a minha solidariedade", afirmou Lula ao governador do Ceará. Está longe de ser novidade a bênção presidencial a apoiadores flagrados em estrepolias de menor ou maior monta. Há pouco mais de um mês, Severino Cavalcanti, ex-presidente da Câmara, e Renan Calheiros, o ex-presidente do Senado, receberam elogios públicos de Lula.Ambos, como é notório, envolveram-se em escândalos pormenorizadamente expostos pela imprensa. Diante de platéias preparadas para aplaudi-lo, Lula concedeu-lhes um crédito moral que não merecem. É um "investment grade" e tanto, do ponto de vista político -se houver alguém disposto a levá-lo a sério.


Editorial da Folha de S. Paulo de hoje.

Maio de 68 no Brasil

"Passeata dos Cem Mil", manifestação da UNE (União Nacional dos Estudantes) contra o governo militar, no Rio de Janeiro
No Largo de São Francisco, junto à Faculdade de Direito, estudantes, professores, artistas, intelectuais e alguns padres protestam contra as prisões políticas em São Paulo

Rio de Janeiro ocupado por tropas do Exército, Marinha e Aeronáutica para impedir a manifestação estudantil contra a prisão do líder Vladimir Palmeira, presidente da UME (União Metropolitana dos Estudantes)
Manifestante é preso por agentes policiais, em São Paulo, durante passeata em Pinheiros
Manifestantes protestam contra invasão do teatro Ruth Escobar e agressões após a peça "Roda Viva", em São Paulo


Policiais prendem 920 estudantes durante congresso clandestino da UNE, em Ibiúna (SP)
Tudo isso foi pescado integralmente da Folha on line.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Momento Mágico



Quem diria, depois de 6 anos de administração petista o Brasil vira investimento seguro, segundo a agência de classificação e risco Standard & Poor's. O velho PT de guerra transformou o Brasil no paraíso dos investidores internacionais. Isso é bom demais. Lula disse ontem que o Brasil vive um momento mágico.

Mas será mesmo que o êxito de toda essa credibilidade é do governo do PT?

A própria Standard & Poor's justifica essa nova classificação do Brasil:

"É um processo que começou no fim dos anos noventa, no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, com a mudança do câmbio flutuante e controle da inflação e política fiscal. A partir de 2003, com a administração do presidente Lula, houve continuidade, e, há quase dez anos, o Brasil vem cumprindo as metas fiscais".

Segundo o Reinaldo Azevedo em seu Blog:

O que vai acima é a resposta de Lisa Schineller, a analista da Standard & Poor's, responsável por ter colocado o Brasil na condição de Investment Grade. Ao comentar ontem a classificação, Lula não deixou, é óbvio, de lembrar o ineditismo da condição. A implementação das medidas, que agora põem o Brasil nesse patamar, contribuiu para derrotar o governo nas eleições de 2002. No poder, o petista teve a sabedoria de não mexer no que herdou. Em 2002, superávit primário servia para engordar banqueiros, dizia o PT. A partir de 2003, passou a ser a salvação da lavoura.

Grande Angeli


Dia do Trabalho

Chicago, Maio de 1886


A tristeza do 1º de Maio




Kenneth Maxwell - Artigo da Folha de hoje.



O dia do Trabalho é uma daquelas estranhas desconexões entre os Estados Unidos e o resto do mundo. Enquanto o resto do planeta desfruta do feriado, os norte-americanos teimosamente persistem em trabalhar. Curiosamente, foi o movimento trabalhista dos Estados Unidos em seus primeiros anos, ao protestar contra as longas jornadas de trabalho características do século 19, que investiu o 1º de Maio de seu significado moderno como dia dos direitos dos trabalhadores. No século 20, o Dia do Trabalho foi cooptado pelos regimes comunistas da União Soviética e da China, que fizeram do feriado uma ocasião para exibir seu poderio militar, com vastos desfiles de soldados e armamentos. O 1º de Maio é um feriado muito antigo, cujas origens remontam ao paganismo. Os romanos o chamavam de "dia das flores". Nas aldeias da Inglaterra rural, a tradição local do May Pole ainda persistia em minha infância. Os moradores mais velhos ainda se lembravam do poste de madeira montado na praça central da aldeia e enfeitado com fitas coloridas; as crianças cantavam e dançavam em torno dele. Os puritanos ingleses do século 17, nem seria preciso dizer, reprovavam a festa de 1º de Maio. Em companhia dos anticomunistas norte-americanos do século 20, eles merecem parte da culpa pela repressão à festa na América do Norte. Os puritanos proibiram a festa de 1º de Maio em 1644, durante a guerra civil inglesa. Os puritanos que colonizaram a Nova Inglaterra seguiram-lhes o exemplo. Mas, quando a monarquia Stuart foi restaurada na Inglaterra, em 1660, o May Pole voltou com ela. O May Pole, de fato, era um símbolo fálico bastante apropriado para o "jovial" rei Carlos 2º. Como alguns astros do futebol brasileiro, ele não conseguia manter as calças fechadas por muito tempo. No entanto, não se poderia alegar que o rei Carlos 2º tenha algum dia confundido uma mulher com um travesti. Suas muitas amantes se tornaram as mães "fundadoras" de diversas das grandes famílias aristocráticas inglesas. A mulher de Carlos 2º era a sofrida princesa portuguesa Catarina de Bragança. A união havia propiciado um grande dote ao monarca inglês, bem como as cidades de Tânger e Bombaim (hoje Mumbai). O distrito de Queens, uma das cinco subdivisões da cidade de Nova York, leva esse nome em homenagem a Catarina de Bragança. Isso talvez ajude a explicar porque ela está quase esquecida especialmente em Queens.

Comemorar o quê? - Michael Kepp



Qualquer coisa é pretexto para os brasileiros comemorarem. Uma filha tem um papel de uma frase só numa peça escolar e, quando a cortina cair, a família inteira celebra num restaurante. Um gol de um time já qualificado para as finais faz uma arquibancada inteira soltar fogos e tremular bandeiras. Churrascos homenageiam os santos católicos mais obscuros. Descobri esse costume na minha festa de despedida, dias antes de me mudar da Califórnia para o Rio. Às 4h da manhã, os únicos convidados que ficaram, três cariocas, estavam batucando em panelas na cozinha. Por quê? "Para celebrar uma grande festa", um deles me disse. Foi meu primeiro "bem-vindo ao Brasil". O ano-novo chinês, celebrado no bairro da Liberdade (SP), atrai hordas de não-chineses, assim como as paradas gays reúnem legiões de heterossexuais. Na última parada gay em Niterói, cidade de 460 mil habitantes, mais de 100 mil pessoas compareceram. Quem aqui dispensa uma festa de rua? Os brasileiros comemoram para criar um sentimento de comunidade. A música é elemento catalisador. Na Olimpíada de 2004, em Atenas, torceram por seus times de vôlei de praia dançando ritmos baianos, transformando a arquibancada num bloco dançante. Os blocos de rua do Carnaval são igualmente contagiosos, transformando os paradões em foliões. E as platéias que acompanham os cantores em shows reúnem muitas vozes em uma -o que faz artistas de outras terras se sentirem em casa. Essa postura inclusiva leva outros povos à reciprocidade. Uma vez, enquanto tentava pedir comida em português numa pizzaria de Roma, um grupo próximo me perguntou de onde eu vinha. Para evitar a reação que recebia ao dizer "dos Estados Unidos", eu disse "do Brasil", e o grupo todo soltou um grito de "brasiliano!" e me convidou a me juntar a eles. Os americanos comemoram com menos freqüência e intensidade porque esse espírito não está no sangue nem no calendário. Têm menos feriados e festejos do que os brasileiros. Suas festas são menos inclusivas. Nos EUA, aniversários infantis são para crianças, não para toda a família e amigos, como aqui. Turistas americanos em restaurantes brasileiros acham o costume de cantar o "parabéns" intrusivo. Também não entendem por que, às vezes, pessoas de outras mesas, que nem conhecem o aniversariante, juntam-se ao coro. No Brasil, a inclusiva passagem de ano reúne ricos e pobres nas praias para ver os fogos. Depois do show do ano passado, eu e minha mulher fomos atraídos a um dos quiosques, onde casais dançavam ao som das marchinhas de uma banda. No quiosque, onde pedi uma cerveja, o barman recusou meus reais e disse que era uma festa particular. Mas, em vez de nos excluir, ele nos serviu saideiras sem fim, o que nos manteve dançando até de madrugada. Afinal, os brasileiros não têm em seu DNA nada que abrevie uma comemoração, especialmente uma que não termina até as pessoas aplaudirem o nascer do sol.




MICHAEL KEPP , jornalista norte-americano radicado há 25 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record)