Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A Vida Indigna Embaixo da Ponte da Azenha



Hoje caiu uma tromba dágua em Porto Alegre. E a imagem acima mostra a comunidade que mora embaixo da Ponte da Azenha saindo de sua morada para se estabelecer em outros sítios. É sempre assim, a Ponte da Azenha só fica vazia, na parte de baixo, quando tem chuva das grossas. Recentemente a prefeitura de Porto Alegre gastou zilhões para melhorar o aspecto da ponte que é histórica. Fez pintura, arrumou as estruturas, colocou iluminação de época (todas elas hoje quebradas), mas não fez o que deveria ter feito: impedir o acesso das pessoas na parte de baixo da ponte. E por quê não fez? Ora,caramba, porque a prefeitura de Porto Alegre, capitaneada pelo prefeito medroso Fogaça tem medo do discurso "foucaultiano" do politicamente correto de que se fizer isso estará fazendo o fascismo da limpeza étnica. O certo é que a cidade de Porto Alegre oferece abrigos para as pessoas que moram na rua e embaixo das pontes e viadutos, mas grande parte desse povo não quer saber em morar em abrigos públicos, muito melhor transformar o espaço público em lar. Ou seja se privatiza o espaço público para uso privado. Um dos princípios fundamentais da cidadania é a dignidade da pessoa humana. Todos devem ter o direito de uma vida digna. E uma vida digna não é viver embaixo da ponte.

Prá que falar em Apagão?



Assunto encerrado, não se fala mais em apagão. Terminou, terminou e terminou. Quem abrir a boca daqui para a frente e colocar a culpa no governo é golpista. Já disse e não repito, o assunto está encerrado.

Abaixo artigo de Fernando de Barros e Silva na Folha de hoje.

Os iluminados

Quase 60 milhões de pessoas ficaram no escuro. O país era um breu só, mas a mente iluminada de Tarso Genro viu uma maneira de dizer que tudo não passou de "um microincidente dentro de conquistas extraordinárias durante sete anos na produção de energia". A cabeça do vaga-lume da Justiça funciona assim: apaga quando acende e vice-versa.Devemos contabilizar entre as "conquistas extraordinárias" o fato de termos à frente do Ministério de Minas e Energia alguém como Edison Lobão? Já escrevi e repito: as afinidades do afilhado de Sarney com o setor elétrico se limitam ao prenome. Ele é homônimo de Thomas, o inventor da lâmpada.Sem ciência na área, nosso Edison primeiro rogou a Deus para que o episódio não se repita. Ontem, pautado pelos camaradas, disse que este era assunto "superado" no governo. E assim fica. Diante da falta de explicações plausíveis, o Planalto acionou sua rede de transmissão da autossuficiência autoritária.Na véspera do "microincidente", Dilma Rousseff dizia: "Nosso governo dá de 400 a 0 no anterior". Quanto estaria hoje o placar? Depois de submergir, a ex-ministra de Minas e Energia de Lula ontem também limitou-se a "encerrar o caso". Devemos agora pensar que o povo não precisa mais dos "formadores de opinião" porque aprendeu a ficar no escuro sozinho?Para livrar a cara de sua candidata, o PT no Senado jogava anteontem a responsabilidade nas costas do PMDB, dono da área. Este, por sua vez, cobrava "satisfação cabal" do governo. A pantomima política lembra a crise dos anos FHC, quando os tucanos tentavam depositar seu apagão na conta do PFL.Em 2001, no tempo das velas românticas do tucanato, houve um longo racionamento; hoje não falta energia. Mas é sintomático, nos dois casos, que o país esteja entregue à mesma "bancada do apagão". As subestações da fisiologia seguem operando. O que está muito em falta, além da luz eventual, é consideração pela opinião pública.

Brasília é a Anti-Paris



Tipicamente Brasília, cidade de engarrafamentos e sem pedestres.

Estive em Brasília esta semana. Confesso que é uma cidade que nunca me encantou. Simplesmente porque falta charme, falta glamour, falta calor humano.


É uma cidade onde o pedestre não tem vez. Para se ir de um lugar para outro, mesmo que seja em poucos metros é necessário tomar um taxi ou ir de carro. É uma cidade sem calçada que não foi projetada para pedestres. Que encanto uma cidade desse tipo pode ter?

Hoje o David Coimbra escreveu um artigo na ZH sobre Brasília e eu concordo com ele. Brasilia é a anti-Paris.


Música congelada

A arquitetura pode ser uma fonte de dor. Goethe disse que arquitetura é música congelada, e é mesmo. Harmonia. Ritmo. É o que a arquitetura haveria de ter sempre. Mas tantas vezes, no Brasil, não tem. O maior exemplo negativo vem da maior realização do maior arquiteto brasileiro.Brasília.Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, os autores de Brasília, eles são como certos jazzistas e escritores virtuosos. São dotados de tamanha mestria que se esquecem, os jazzistas, que alguém está ouvindo o que eles tocam, e se esquecem, os escritores, que alguém tentará ler o que escrevem. Niemeyer e Costa esqueceram-se que pessoas viveriam em Brasília.Então, Brasília, a sensação que Brasília produz é o desamparo. Aquela vastidão desumana. Aqueles espaços inacessíveis. Brasília não foi projetada para ser habitada por gente, não existe para quem usa as próprias pernas para se deslocar. Foi projetada, por fora, para ser bonita, e, por dentro, para ser percorrida pelo automóvel.Brasília é a anti-Paris. Paris, com seus bulevares e suas praças, estimula a convivência entre os seres humanos, o diálogo, os encontros, os passeios, o lazer, a vida ao ar livre. Brasília e sua imensidão asséptica é voltada para dentro, é toda distâncias, é um mero cartão-postal no qual só se veem edificações erguidas pelo homem, nunca o homem. Em Paris, se você quer viver na cidade, tem que caminhar pela cidade. Em Brasília, você pode viver uma vida sem colocar o pé na ranhura da calçada.O urbanismo desolador de Brasília me convenceu que estava errado a respeito dos políticos brasileiros. Não concordava com as generalizações que relacionam os políticos à desonestidade. Argumentava que não existe uma árvore de político em Brasília, que eles são egressos do povo que os elege, que são médicos, jornalistas, operários, empresários, que eles somos nós. Que eles representam quase com exatidão o que há de bom e de ruim na sociedade.Enganei-me.Os políticos, quando vão para Brasília, se transformam. A cidade os isola. Eles perdem o contato com quem não convive no meio político. Só se relacionam entre eles e com lobistas, jornalistas e assessores. Protegidos do mundo por essa bolha, os políticos constroem o seu próprio mundo, com seus próprios valores. Por isso, a desfaçatez do Congresso, inédita até na história de desfaçatez do Brasil. Por isso a indiferença olímpica de deputados e senadores ao sentimento da população. Culpa da arquitetura monstruosa de Brasília. Dos gênios impessoais de Niemeyer e Lúcio Costa.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Filhos




No Blog do Jean Scharlau (ele acha e jura que sou agente da CIA) me deparo com o seguinte post:

Filhos

"Devido à singela diferença de idades,o que sempre acontece é que eles querem brincar de uma coisa,enquanto nós queremos brincar de outra."



Meu pitaco:



Filhos é um marco divisor na vida da gente. A vida muda e muda completamente. Uma pergunta que nunca deve ser feita ou respondida é qual o melhor: ter filhos ou não? Impossível responder, porque é diferente, completamente diferente. Uma coisa é a vida sem filhos e outra coisa a vida com filhos. É bom ter filhos e é bom não ter filhos. É bom sentar no chão e brincar e conviver e se atrapalhar com as crianças. É bom também ter a liberdade de não ter esse tipo de preocupação. E também acontece da gente querer brincar de uma coisa e eles quererem brincar de outra. Mas como tudo na vida é gestão e administração cabe ao adulto -- rebelde ou não -- gerir e administrar esses pequenos e prazerosos incidentes.

Please, deixem eu assumir meu lado esquerdista!




Todos me pressionam para assumir meu lado de direita. Eu não sou de direita, eu sou de esquerda. Sempre fui de esquerda desde criancinha. Não posso agora abandonar o que sempre fui. Não faço parto da esquerda rançosa, dogmática e manipuladora, mas de uma esquerda liberal. Dizem que não existe uma esquerda liberal - porque liberalismo é uma coisa e esquerdismo é outra coisa. O Pulha Garcia, blogueiro português, editor do Blog "O bom sacana", me disse em mensagem aqui enviada: Também achei a queda do muro um evento de grande importância e esperança para os povos. Apenas me demarco da perspectiva de "esquerda liberal" preferindo o centro-direita ...

Não, também não me considero de centro-direita. Posso até ser de centro-esquerda. Não sou de centro porque não estou em cima do muro. Não gosto de estar em cima do muro. Na eleição do ano que vem eu vou votar num candidato de centro esquerda, porque -- parece -- não existe candidato de centro direita ou de direita no Brasil de nossos dias. E mesmo que tivesse eu votaria num candidato de centro esquerda.

Sim, eu sei que eu sou teimoso, mas não vou me assumir de direita, porque não sou de direita: eu sou de esquerda.

O Interino e o Titular


O cronista interino de ZH Fabrício Carpinejar.

O que fazer se algumas crônicas do interino Fabrício Carpinejar são melhores do que as do titular Luiz Fernando Veríssimo?



Essa saiu publicada na Zero Hora de hoje.



Iraji

Quando entrei na escola, meu amigo inseparável era o Iraji. Eu tinha certeza de que ele seria jogador de futebol. Barbarizava os meninos das 4ª e 5ª séries com balãozinho, janelinha e meia-lua.Cabelos cacheados, baixinho, franzino: tímido fora de campo, destemido com a bola. Tonteava os adversários com ioiô e elástico. Produziu os lances mais bonitos e plásticos da cancha de concreto da Escola Imperatriz Leopoldina. Como companheiro de ataque, ele me tornou melhor do que realmente sou. Algo como Careca ao lado do Maradona no Nápoli.A turma o reverenciava como Negrinho do Pastoreio, um capoeirista do meio-campo. Ainda recordo do cheiro do seu uniforme, uma mistura de suor, dois ônibus e cacetinho com manteiga.Conhecia seu percurso. Nossa aula começava às 13h30min, mas ele estava na esquina às 11h30min, sentado no muro do outro lado da calçada (visionário, antecipou em uma década a necessidade de um guardinha de rua).Eu o enxergava antecipado no horário e o convidava para almoçar. Antes convencia minha mãe, dobrava sua angústia com imprevistos. Ele rebatia que não, que estava satisfeito. Deixava o colega paradinho em seu posto de observação, com a mochila encardida debaixo do braço. Voltava em seguida e perguntava se ele não queria apenas beliscar alguma coisa. Ele aceitava e comia dois pratos.Dia a dia, repetíamos a cena. Reproduzíamos a igual negociação sem tirar nem pôr. Ele chegava antes, eu convidava, não aceitava, reconvidava e vinha louco de apetite. Não quis constrangê-lo com a mudança de costume, ele tampouco fez questão de assumir um lugar fixo na mesa.Nossa convivência durou até que ele rodou de ano. Depois, foi desaparecendo para aquilo que acreditava que seria o sucesso, já que um olheiro passou na escola para vê-lo atuar e ficou assombrado. Saiu do colégio na 5ª série para atuar no infantil do Inter e estudar no contraturno.A vida e o kichute viviam amarrados em suas canelas.Na despedida, dei uma camisa do colorado. Ele me abraçou fervorosamente, ainda recordo do cheiro, uma mistura de suor, dois ônibus e cacetinho com geleia. Prometeu que faria o primeiro gol profissional para mim. Eu me guardei na expectativa.Iraji, Iraji...Nunca tinha visto alguém vocacionado ao futebol daquele jeito. Conseguia embaixadinha com pedras, pinhas e laranjas. Cabeceava bolinhas de tênis com precisão. Seu toque de calcanhar encobria o goleiro.Cresci, amadureci, formei família, e não o reencontrei no estádio ou na rua.Tive notícia de que fraturou a perna numa dividida na categoria de base e não pôde continuar no clube. Logo ele, que depositou sua escolaridade no esporte.Não digeri as fintas do destino, a crueldade com seu talento.Depois tive notícia de que trabalhava como porteiro no bairro Sarandi.E descubro que, desde a infância, sua verdadeira profissão é esperar, como a de todos nós. Ele continua me esperando. Continua esperando ser chamado, notado, percebido, amado.Agora dentro de um prédio.Ponho mais um prato na mesa, vá que ele mude de ideia e sinta fome da minha amizade.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Berlim 09 de Novembro de 2009


Instalação com as foices e os martelos cravados no muro.


Painel mostrando o número das pessoas, por ano, que tentaram cruzar o muro e morreram.


Painel com Kennedy e Reagan.

Bono Vox canta com o U2 na Porta de Brandemburgo



Que lindo, os dominós.


Onde está o cara?

Esse Lech Walesa tem cara de quem gosta de uma Wiborowa.

Fotos do Boston Globe.



Berlim em 09 de Novembro de 1989











Fotos do Boston Globe.





No Turbulento Vôo de Ontem a Piaui Foi Minha Salvação


Esta Não é a Última Edição da Piaui.


Fiquei sabendo do apagão quando cheguei em Porto Alegre, ontem, pela meia noite. Meu avião deveria sair de Brasília pelas 20 horas e só partiu às 22. Foi um caos. O aeroporto de Brasília estava fechado devido a um grande temporal. A pista de decolagem ficou sem luz e todos aviões tiveram que aterrisar (ou aterrar como dizem os portugueses) e decolar na mesma pista. Finalmente, o Airbus 320 da TAM, decolou e pegou de frente o temporal e balançou por um bom tempo. Mais tarde, na altura de SP e PR pegou outro temporal, o mesmo que pode ter rompido as redes de transmissão de Itaipu. Nova turbulência e por tempo bem razoável. Detesto turbulências. Quando chegou no RS pegou o nosso velho minuano. Resultado, minhas costas tensas estão doloridas até agora.

Eu tenho um grande problema: só leio a Revista Piaui nos aviões. E como viajo eventualmente de avião deixo de ler a maioria das edições. A última edição é realmente muito boa. Recomendo as seguintes matérias:

O Setembro Negro da Sadia que trata da história da Sadia, desde sua fundação, a história do patriarca, as brigas internas dos herdeiros, a criação da Transbrasil, as fofocas, a ala do ex ministro do Lula, Furlan, os investimentos financeiros de risco que quase levaram a Sadia à falência na crise do ano passado e, finalmente, como ocorreu a fusão da Sadia com a Perdigão impulsionada pelo governo Lula que satisfez seu desejo de criar uma super indústria nacional de alimentos, com participação estatal, of course.

A longa guerra de Stanley McChrystal - Esse general é magro como uma caveira, corre 13 km por dia ouvindo leitura de livros, ele é o responsável pelas tropas da OTAN no Afeganistão. A matéria aborda o dia a dia do general na complicadérrima situação que se encontra aquele atrasado país. 3 de 4 adultos são analfabetos, como criar um razoável serviço de segurança nacional nessas condições? Os americanos não tem saída (there is no way out) não há como sair agora do Afeganistão e vão ter de derramar mais e mais dólares. Se sair agora o Al Qaeda toma conta.

9 de Novembro de 1989 e Eu - Esse artigo está disponível no site da revista, aqui.
Escrito pelo alemão Tim Apmann que subiu no muro de Berlim há 20 anos e copio e colo a seguinte parte:
A construção do muro erguido para manter inviolável a Berlim socialista coincidiu com o meu nascimento (em 1962) e o do meu irmão (três anos depois). Ela também levou meus pais a dar nomes americanos aos dois filhos - Tim e Tom. Se na Alemanha de hoje você conhecer alguma mulher de prenome Mandy, pode ter certeza de que ela é originária da antiga Alemanha Oriental. Tom e eu entendíamos que o muro, erguido a não mais de dez minutos a pé de onde morávamos, era necessário para manter os nazistas no Ocidente.
Era -óbvio que os nazistas estavam se preparando para ocupar o nosso país a qualquer momento e acabar com o nosso regime progressista e socialista. Só não entendíamos por que não podíamos, nós, dar um pulo do outro lado e ver como era um país cheio de nazistas. Tom e eu daríamos qualquer coisa só para ter uma oportunidade de ver esse lugar misterioso atrás do Muro de Berlim, tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Quando perguntávamos por que os berlinenses ocidentais não vinham todos para o nosso lado, onde havia trabalho, educação e sistema de saúde gratuito para todos, meus pais se entreolhavam. E então respondiam de forma enigmática: "Tenho certeza que eles sabem por que não querem viver no nosso lado." Era óbvio que evitavam o assunto.

O Apagão e as Aves de Rapina


Imagem mostra avenida 23 de maio, no sentido aeroporto de Congonhas, uma das afetadas pelo apagão que atingiu diversas regiões do Páis na noite desta terça-feira. As primeiras informações são de que um problema da usina hidrelétrica de Itaipu teria ocasionado a queda de energia.


Leio no Terra que o presidente do PT, Ricardo Berzoini disse que as "aves de rapina" estão felizes com o apagão que atingiu o centro sul do país na noite de ontem. Complementa ele de que hoje não há como comparar o que aconteceu agora com o apagão de 2001, quando o Brasil viveu um período de racionamento de energia.
"Quando falo de 'aves de rapina' me refiro a alguns políticos (da oposição) e jornalistas que tentaram fazer essa comparação. A comparação que tentaram fazer é descabida. Hoje não há nenhum problema estrutural no setor. Em 2001, vínhamos de um período de falta de investimento, que resultou naquela situação bastante grave".

Não se sabe, Ministro, não se sabe! Ainda é cedo, o apagão que aconteceu ontem pode ter sim causa estrutural e de falta de investimento e pode revelar incompetência de gestão. Afinal, quem hoje toma conta do sistema energético do governo Lula é um ministro ligado ao Sarney, o Lobão.
O apagão de 2001 atingiu de cheio o governo tucano de FHC e praticamente inviabilizou a possibilidade de eleição de um candidato do PSDB. Alckmin sentiu isso bem de perto. Naquela oportunidade as aves de rapina da oposição cairam em cima do governo e conseguiram capitalizar votos. A eleição de Lula tem muito a ver com o trabalho realizado pelas aves de rapina da oposição capitaneada pelo PT.

Talvez o problema do Brasil seja exatamente esse: as aves de rapina e a arrogância de quem está no poder.