Diversidade, Liberdade e Inclusão Social

Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt


quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Os Maias - A Série




O dono deste depósito se chama Carlos Eduardo da Maia em homenagem ao Carlos Eduardo da Maia dos Maias, romance e saga do escritor português Eça de Queiroz sobre uma família nobre portuguesa que influenciou a geração dos nossos avós. Meu avô, que nasceu em 1905, se chamava Carlos Eduardo por esse motivo.

E numa locadora da vida surgiu um DVD da série os Maias, realizada pela Rede Globo em 2001, sob direção do super competente Luiz Fernando Carvalho, que dirigiu o excelente Lavoura Arcaica, adaptação da obra de Raduan Nassar e a série 'Hoje é dia de Maria'. A adaptação é da Maria Adelaide Amaral.

O proprietário desse empório se viciou na série de 4 discos.

É tudo muito lindo, maravilhoso, é como uma orquestra bem afinada. A música é do grupo português Madredeus. Os personagens são Dom Afonso (Walmor Chagas), avô de Carlos Eduardo (Fábio Assunção), a deslumbrante Maria Monforte ( Simone Spolidoro) que se casou com o delicadinho Pedro da Maia (bem interpretado por Leonardo Vieira).

O cenário é Lisboa do século XIX, as margens do Douro onde fica a deslumbrante casa de Santa Eulália e Coimbra.

Em Coimbra, o João da Ega (Salton Mello) disse:
Salvem as mulheres, enforquem os padres.

Satanização Descabida


Os blogs de esquerda, a partir do episódio Detran-RS, querem satanizar qualquer tipo de projeto de parceria entre estado e iniciativa privada. Os admiradores do estatismo não perdem a oportunidade de crítica. A questão é a seguinte, o Rio Grande do Sul gasta 72% de sua receita líquida em folha de pagamento de ativos e inativos. Impossível gerir um estado nessas condições. Impossível dar aumentos. Impossível realizar investimentos. O que fazer? Aumentar impostos? Não. Mas como aumentar a receita sem aumentar impostos? Há ai um cobertor curto, porque para fazer cobrança dos créditos tributários, o Estado necessita ingressar com ações judiciais e o Poder Judiciário gaúcho anda extremamente desorganizado e lento. O que o Estado tem que fazer é cortar despesa e desestatizar certas gestões. O projeto de passar a gerência de certas entidades públicas em OSCIPS é uma bela saída. E digo mais, talvez seja a única possível -- a menos dolorida. Mas os blogs de esquerda não perdem a oportunidade de questionar esse tipo de parceria. Falcatruas existem no setor privado e no setor público, qualquer entidade que for parceira no serviço público vai ter a mesma fiscalização. E os fatos estão a revelar que a polícia está atenta e tem uma arma fundamental no combate à corrupção e toda ordem de picaretagem: a escuta telefônica obtida em sigiloso inquérito, mediante ordem judicial. Se o controle existe e pode ser feito, não é hora de satanizar as iniciativas positivas para melhorar a eficiência do serviço público que deve ser feita, cada vez mais, em parceria com a iniciativa privada.


quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Pirotecnias


O dono deste depósito vem elogiando a atuação da Polícia Federal, na gestão do governo Lula. Polícia tem que prender quem faz picaretagem, não importando se o colarinho é branco ou se não existe colarinho. E quem mexe com dinheiro público não pode fazer falcatrua. Tem que ser honesto.
A Zero Hora estampou na primeira página a fotografia do Presidente do Detran-RS algemado saindo de um camburão. Ouvi atentamente, no programa do Lasier Martins, na Rádio Gaúcha, o presidente do Detran-RS que foi solto. Disse ele que foi acordado às 7 da manhã com um policial federal armado ao lado de sua cama. Quatro policiais entraram no apartamento e algemaram o presidente do Detran e colocaram no Camburão. A finalidade era a seguinte: ouvir o depoimento do acusado que foi ouvido e depois foi liberado.

Sinceramente, será que é necessário tanto show, tanto espetáculo, tanta pirotecnia para ouvir o depoimento de uma pessoa que sequer, ainda, foi indiciada????


Advogados do Paquistão


Fiquei sabendo, via diario gauche, que o New York Times vem criticando o presidente Bush sobre seu apoio -- quase irrestrito -- ao governo militar do Paquistão, capitaneado pelo general Pervez Musharraf. O Paquistão vive uma ditadura e passa por momentos de graves tensões sociais, com o protesto de setores de classe média (advogados) que pleiteiam abertura política e eleições (foto acima).

O NYT vem criticando Bush há muito tempo. O Paquistão, que é um país muçulmano e localizado em ponto estratégico, é um aliado importante dos EUA, sobretudo para impor seu apoio ao governo - meio complicado - do Afeganistão. Os recentes fatos e a cobertura da grande mídia sobre o assunto estão também a demonstrar que não existe um interesse monolítico entre a grande mídia e o governo americano. Aliás, no mundo de fluxos e refluxos é anacrônico falar em interesses monolíticos. A grande mídia aprendeu que democracia é essencial e que não é possível acobertar uma ditadura para fazer valer interesses geopolíticos. Ditadura é ditadura e nenhum governo -- e nenhuma mídia -- pode pactuar com isso.

O Pior Dia da Yeda


A foto estampada na capa da Zero Hora de hoje mostrando o Presidente do Detran-RS algemado e saindo de um camburão é forte. Forte também é a crítica que se faz contra a governadora Yeda Crusius por não ter mandado verificar as denúncias feitas pelo ex deputado Enio Bacci em relação à corrupção no Detran. Yeda teria respondido: no Detran eu não mexo, o Detran é do PP do Deputado José Otávio Germano. Nesta manhã, Germano foi entrevistado por Felipe Vieira e Diego Casagrande, na Band Fm, e os dois foram para cima do deputado, não deram nenhuma trégua. Germano tentava se esquivar de qualquer forma. Perguntaram na lata: sua campanha foi uma das mais caras, da onde veio esse dinheiro? Germano vacilou, gaguejou e não foi nada bem na entrevista. Quarenta milhões foram desviados do Detran, por conta dessa falcatrua. A direção da autarquia contratou -- sem licitação -- a Fundação de Apoio Universitária da Universidade de Santa Maria que, ilegalmente, terceirizou esse serviço e cobrava pelas provas realizadas valores superiores ao contrato. Parte do dinheiro -- dizem -- era destinado aos diretores do Detran que foram presos ontem. O PSDB do RS também está envolvido no escândalo. Lair Ferst, conhecido e mal sucedido empresário do setor calçadista, arrecadou fundos e chefiou a campanha de Yeda. Ontem foi o pior dia do governo Yeda. E foi apenas o começo. Quarenta milhões é muita grana. A investigação da Polícia Federal deve ir a fundo. Para onde foram esses quarenta milhões?

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Não se faz mais Diplô como Antigamente


Definitivamente, não se faz mais diplô como antigamente. Pois é, o jornal multinacional Le Monde Diplomatique sempre foi um ícone do pensamento inteligente de esquerda. Hoje o diplô, como é mais conhecido, é editado no Brasil e conta com o apoio de profissionais brasileiros (será que eles sabem onde fica o Brasil no mapa-mundi?).

Escrevo isso aqui para fazer uma crítica à linha editorial do diplô tupiniquim. Tá certo que o diplô é meio anticapital, antiEUA, mas pode utilizar argumentos mais convincentes nesse sentido. Não é o caso, do texto publicado recentemente na edição nacional, do Cláudio César Dutra de Souza, psicólogo clínico e da Silvia Ferabolli, professora de sociologia.

Ambos escreveram o texto Por que o Ocidente despreza o Islã.

O texto é longo e não tenho espaço para copiar e colar aqui. Mas em suma, ele faz uma crítica ao senso comum ocidental sobre o mundo do islã, retratado em livros como o escrito por Khaled Hosseini (O Caçador de Pipas e A Cidade do Sol) e o Livreiro de Cabul da norueguesa Asne Seierstad. Diz o texto sobre essas obras: parece cumprir muito bem o seu papel de (des)informar leigos pelo mundo sobre o que vem a ser o modus vivendi islâmico.

E mais, o mundo ocidental não é nenhuma pérola e, por isso, não tem nenhuma autoridade de atirar pedras nos seus irmãos muçulmanos. Exemplo, no mundo ocidental também existe fundamentalismo religioso: fanáticos judeus e suas intermináveis políticas fratricidas; fanáticos católicos irlandeses e norte-americanos; fanáticos amishes; um renascido em Cristo na Casa Branca e um Papa de passado duvidoso, tão ou mais fundamentalista em sua leitura tendenciosa do mundo contemporâneo quanto o mais caricato dos Aiatolás.

E a questão feminina? E as mulheres? As mulheres muçulmanas, com suas burcas submissas. Mas segundo o diplô tupiniquim, as mulheres ocidentais não são tão livres assim....O modo como as mulheres muçulmanas são tratadas constitui-se em um escândalo, como se em nossas sociedades as mulheres vivessem em um patamar de integridade absoluto e não fossem estupradas, agredidas e mortas, não bastando isso, ganhassem menos, mesmo trabalhando mais do que os homens, e ainda tendo de se submeter a todo o tipo de tratamento estético, cirúrgico e dietético que já ceifaram a vida de milhares de fêmeas modernas – mortes nas mesas cirúrgicas de lipoaspiração; morte por distúrbios alimentares como bulimia e anorexia; morte por intoxicação de produtos químicos fortíssimos que visam alisar, afinar, reduzir, rejuvenescer e infantilizar cabelos, corpos e mentes.

O Diplô brasuca quer comparar o incomparável. As religiões ocidentais se dissipam nas grandes cidades, ninguém é obrigado a cumprir as regras e leis da religião. Já, no mundo muçulmano, o Estado não é laico. Se o vivente ocidental quer colocar a virgem Maria numa burca, como já fizeram, ele assim pode fazer. Se um cidadão qualquer quiser desenhar o profeta Maomé ele é condenado a morte.

As mulheres muçulmanas são infinitamente mais submissas do que as ocidentais. Não é necessário prova provada. Culpa da religião e da cultura. Em alguns países elas são obrigadas a casar com a pessoa indicada pelo seu pai. O mundo ocidental está longe de ser uma grande perfeição, mas ele é muito mais democrático, muito mais aberto, muito mais livre do que o mundo islâmico.

É o inesgotável choque de civilizações que não é nenhuma ideologia, mas simples e pura constatação. É só ver para crer. O resto é tese barata para vender os diplôs da vida. Tem mercado para todos os gostos. Quem quer dinheirooooo?

Pérola do Pensamento Caduco

Misturar leite com soda cáustica, oxigenadas e outras porcarias é o máximo da picaretagem. O fato, por si só, mostra que o estado brasileiro tem que ser mais fiscalista e que a iniciativa privada e o mercado não podem ser totalmente livres.

Mas os blogs da esquerda aproveitam ( e como eles gostam de aproveitar ) a situação para fazer críticas muito ácidas sobre o deus mercado. Esse instrumento da ordem burguesa.

A última do diario gauche é a pérola do pensamento caduco. Um dia desses a polícia prendeu uma fábrica de dinheiro e algemou os falsificadores. E a polícia agiu rápido colocando todo mundo no xilindró.

E o gauche faz uma análise tristemente comparativa entre o dois fatos: o leite com soda cáustica e a prisão dos falsificadores de moedas.

Vejam como são as coisas. Duas mercadorias, leite e dinheiro [que é "a vida do que está morto (força de trabalho alienada na mercadoria, e transformada em moeda) se movendo em si mesma"; na genial e sintética poética-noir de Hegel].Dias atrás, a Polícia Federal estourou uma gráfica clandestina que fabricava, não se sabe pelo método fordista ou toyotista, dinheiro, papel-moeda.
Eu acho esse negócio de fabricar dinheiro o máximo do espírito objetivo, o cúmulo da concretude, o pragmatismo mais refinado e apurado, a síntese de todas as vigarices. Enquanto, neguinho fica fabricando imitação de Rolex, de uísque, de tênis Nike, o escambau, os caras vão logo e imitam o príncipe das mercadorias - o dinheiro. Ligação direta. Mora aí um inegável conteúdo subversivo, que precisa ser melhor estudado, nisso de imitar a imitação da representação da mercadoria - que é força de trabalho roubada. Portanto, ladrão que rouba ladrão...Mas vejam como são as coisas, dizia eu. Gráfica de dinheiro não dura 90 dias, polícia estoura, prende todo mundo, liquida em questão de minutos. Tudo vira pó de traque. Claro, é um crime contra o deus do mercado. Equivale à bruxaria no medievo, imprecação contra deus, apostasia de milhares de deuses paralelos e concorrenciais. Não pode. Fogo purificador nos ímpios.Já fraude no leite, pode. Eu vi na televisão um sujeito afirmar que havia denunciado fraude no leite há vinte anos atrás. Esse mesmo batismo de soda, água oxigenada, etc. Vinte anos!Isto posto, arrisco a dizer que tem pessoas com trinta anos de idade que jamais experimentou leite puro, integral, não-batizado. Uma geração de brasileiros que não conhece leite, mesmo.E os basbaques neoliberais ainda vem dizer que temos Estado de mais no Brasil. O professor Cardoso dedicou oito longos anos de sua decadente vida a desmontar o Estado varguista. Conseguiu sucesso parcial.O leite e o dinheiro são provas de que o Estado funciona de forma seletiva e segundo uma ótica de classe (estou dizendo o óbvio do óbvio, mas para muita gente, é como dizer uma ofensa).O leite é de consumo horizontal e popular, logo, pode deixar proliferar a vigarice, a fraude, a pilantragem. O dinheiro é uma mercadoria fetiche, dodói da casa-grande e dos donos do poder, logo, a repressão do aparelho estatal é pronta, eficiente, e cirúrgica.Coisas da vida.

Como não poderia deixar de ser, o Maia -- e suas leis físicas e metafísicas -- não conseguiu se segurar e viciado pela discussão, postou a seguinte mensagem:

Eis aqui uma das pérolas do pensamento caduco: dinheiro como imitação da representação da mercadoria - que é força de trabalho roubada. Portanto, ladrão que rouba ladrão...
O homem branco pensa que estamos no século XIX.

Guerra Química


Muito bom, muito bom mesmo o artigo de Sérgio Costa, na Folha de hoje, sobre essas balinhas que a molecada classe média anda tomando nas festas rave da vida.

SERGIO COSTA Guerra química

Ingresso para uma festa que nunca acaba: R$ 80. Comprimido para ficar "ligado" horas a fio: R$ 30. Preço da água mineral para não "derreter" em meio ao baticum eletrônico: R$ 3. Perder um filho por overdose, sem nem sequer saber onde ele estava, não tem dor que pague ou compense. Droga sintética é mais cara e mais forte do que maconha e cocaína. Não tem cheiro, não deixa rastro pela casa, é carinhosamente chamada de "balinha" pela garotada. Não vem dos rincões de matutos bolivianos, paraguaios ou colombianos. É feita em laboratórios do Primeiro Mundo e exportada para cá, embalada num contexto que envolve estética, estilo e atitude. Todos sabem "quem tem". Dissemina-se por meio do tráfico formiguinha e solidário, que dispensa subidas ao morro, traficantes armados e drogados ou "dura" da polícia na volta. Um bate-papo no MSN ou Google Talk resolve tudo. O baile funk na favela ganhou sua versão elite branca: a rave. A filosofia é a mesma: parece uma festa, mas é uma feira. Cobra-se ingresso, aumenta-se o som e trancam-se os portões. Fecham-se os olhos. Ibiza é aqui. Puro êxtase sem controle ou fiscalização. Uma carteira falsificada garante a entrada no paraíso. Aos poucos, no noticiário da tevê, saem de cena os pretos magrinhos de bermuda e chinelo, entram em cartaz os brancos de tórax malhado, bermuda e tênis Puma. Atrás deles, os policiais de sempre. Sempre correndo atrás. A revolução industrial do tráfico, por meio da oferta e do aumento do consumo de drogas químicas, está apenas começando. Mas o estrago que provoca parece irreversível. Um moleque de 17 anos engole uma pílula e seja o que Deus quiser -ou o diabo. Se ele estiver ligado.
sergioqc uol.com.br

Fracasso do Pensamento - Bernardo Carvalho


Vem tudo a calhar, nesse clima que o brasileiro não sabe onde fica o Brasil no mapa-mundi, o artigo de Bernardo Cavalho, Fracasso do Pensamento, refletindo sobre o filme Tropa de Elite. Este artigo é da Folha de hoje.

Fracasso do Pensamento
Bernardo Carvalho
UM MUNDO sem reflexão, onde a violência da realidade obriga o sujeito a deixar de pensar para agir, cedendo ao senso comum, ao simplismo e ao pragmatismo cínico, recorrendo ao preconceito e a ações impensadas que antes ele condenava, quando essa mesma realidade ainda não o atingia diretamente e ele podia repetir belas teorias da boca para fora, não é um mundo menos hipócrita (como alguns gostariam), é um mundo pior. Um mundo sem arte (no qual a arte, aceitando a pecha de ilusão e perfumaria, cede ao consenso da realidade e passa a funcionar como jornalismo e sociologia) também.É nesse mundo desiludido que a representação de jovens tolos e inconseqüentes, repetindo Foucault da boca para fora, para acabar quebrando a cara na prática contraditória do trato direto com a realidade nua e crua, passa a ter um efeito catártico junto a platéias em busca de um bode expiatório.
É desse mundo (o do fracasso do pensamento) que trata "Tropa de Elite": onde só é permitido escapar à violência (e deixar de ser violento) fora da realidade -tudo o que o capitão Nascimento quer, ou diz querer, é sair desse mundo (onde quem pára para pensar morre), para poder cuidar em paz do filho e da família.
Gostei do filme, embora tivesse preferido o longa-metragem anterior de José Padilha, o documentário "Ônibus 174". Não acho o filme fascista. Mas é inegável que, como qualquer representação da realidade, ele tem um discurso (que não é exatamente o mesmo do capitão Nascimento), a despeito de dizer que se limita a mostrar a realidade. E não é um discurso novo.
É o discurso de um realismo funcional que volta e meia reaparece para dizer que a realidade é o que é. E que só os fatos (ali representados) contam.
Num mundo em que o jornalismo substitui a filosofia (e em que a arte se esconde como discurso para se apresentar como espelho de uma realidade unívoca), é lógico que o bom senso não tem vez. A demagogia e a ira, sim. É preto no branco. Produção de subjetividade é coisa de elite irresponsável. Aqui, nós tratamos de fatos objetivos.Com o desbaratamento das idéias, este passa a ser um mundo de polarizações em torno de questões simplistas e indiscutíveis.
Não se produz pensamento; tomam-se partidos. Vozes da ponderação e do conhecimento de causa -como a de Alba Zaluar, que exercita o bom senso semanalmente e sem maiores alardes nas páginas deste jornal- vão se tornando inaudíveis em meio ao bruaá dos lugares-comuns estridentes. O bom senso não aparece, porque não tem graça nem dá manchete. As idéias foram reduzidas a representações sociais. Basta que cada um fale e seja reconhecido como representante do seu grupo social (e que muitas vezes se aproveite disso para respaldar a banalidade ou a demagogia do que diz). O que conta não é o teor das idéias (em geral, as mais simplistas), mas que sirvam para identificar o lugar social de quem as manifesta no campo de batalha.
Essa aparente desordem apenas encobre uma ordem geral, o consenso em torno da realidade como um campo de forças autônomo, um teatro de ação e reação, imune à reflexão e à inteligência.Foi em meio a esse contexto que bati com os olhos na recém-publicada edição espanhola dos artigos e palestras do dramaturgo francês Enzo Cormann: "Para que Serve o Teatro?" (Universidade de Valência). Na conferência de 2001 que dá título à coletânea, o autor diz que o teatro (e de resto toda arte que se preze), por ser reflexão, "consiste em reinjetar subjetividade num corpo social entrevado pelo uniforme demasiado estreito do pragmatismo econômico" -ou (por que não?) do realismo oportunista que reivindica para si uma pretensa objetividade, condenando ao mesmo tempo toda produção subjetiva à impotência e ao ridículo, como se dela não fizesse parte.
Em nome de uma representação unívoca da realidade, o discurso embutido em "Tropa de Elite" (que não se assume como discurso) limita a própria possibilidade de produção de subjetividade a quem está fora desse mundo, ao diletantismo ridicularizado de estudantes inconseqüentes. Ao associar a produção de subjetividade aos ricos, aos tolos e aos irresponsáveis, como se tampouco estivesse produzindo subjetividade, o filme acaba, provavelmente sem perceber, dando um tiro no próprio pé, pois contribui para estreitar o entendimento do que num passado não muito remoto, e graças ao esforço e à resistência de grandes cineastas, garantiu ao cinema um lugar entre as artes, justamente como produção de subjetividade.