Diversidade, Liberdade e Inclusão Social
Foto: Obama, Cameron e Helle Thorning-Schmidt
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
E se Obama Fosse Africano?
Hoje cedo a senhora Maia me acordou para ler o que Mia Couto -- escritor moçambicano que vive em Portugal -- escreveu sobre os EUA. Que os americanos são isso, que são aquilo e aquilo outro. Que jogam bombas, que matam inocentes, torturam, apoiam ditadores, invadem países tudo por conta dos interesses de suas multinacionais. E, finalmente, concluiu: eu detesto os EUA.
Eu apenas disse a ela, nada é tão simples assim.
Os "Sem Religião" Avançam no Brasil
Como ateu ou agnóstico (qual é mesmo a diferença?) só posso comemorar essa recente pesquisa do IBGE.
Leio na Folha, em matéria do Hélio Schwartsman, que "Os sem religião avançam nos extremos da pirâmide social".
Segundo a matéria, na década de 60, apenas 0,5% dos brasileiros se declaravam "sem religião". Em 2003 o número aumentou para 5,1% e em 2009 para 6,7%. 13 milhões de brasileiros se declaram "sem religião".
O detalhe interessante da pesquisa é que entre os brasileiros com menos de três anos de instrução, os irreligiosos são 7,3% (contra 6,7% na população). Já entre as pessoas com 12 ou mais anos de estudo, o número vai a 7,5%. O detalhe instigante é que, quando se consideram apenas mestres e doutores, a cifra salta para surpreendentes 17,4%.
Essa distribuição é compatível com um perfil de sem religião no qual ateus e agnósticos preponderariam nas camadas mais instruídas e pessoas com uma religiosidade indefinida e desinstitucionalizada reforçariam os estratos de menor escolaridade.
A correlação entre hiperinstrução e ateísmo está bem documentada em diversos trabalhos de diferentes países. Já o maior trânsito religioso é mais comum entre os menos escolarizados.
Até onde os sem religião podem crescer é uma incógnita. Se o Brasil seguir um padrão próximo ao dos EUA, é razoável esperar que, nos próximos anos, o número se aproxime dos 15%. Se o modelo for mais próximo ao da Europa ocidental, aí as cifras podem exceder os 40%.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Namorando Ditaduras
Deu no Diário Gauche de hoje, o pitaco vem depois.
Líbia: sem ditador, mas colonizado
LatuffA bandeira da Líbia (acima, na ilustração de Latuff) usada pelos "rebeldes da Otan" é a mesma da monarquia, expulsa por Kadafi em 1969.
Meu pitaco - Muito melhor ser 'colonizado' do que viver numa ditadura. Impressionante como certa esquerda adora namorar ditaduras.
Lentes
Não nasci de óculos - nem de lentes. De manhã cedo, após ler o jornal, me debruço sobre a pia. Enquadro o olho esquerdo no espelho. Esse é barbada, na primeira oportunidade a lente se adere. Com a do lado direito é outra história, sempre é assim, diversas as tentativas. Sempre me pergunto, o que passa com meu olho direito?
Aos 25 passei a não enxergar mais as legendas no cinema, o nome da linha do lotação, o número do ônibus. O Doutor me prescreveu óculos. Juro que não fiquei tão chateado. Comecei a usar, mas sempre achei muito estranho. Tentei as lentes - não me adaptei com as primeiras, mas quando desembarcaram as descartáveis - tudo mudou. Eu as uso direto; coloco -- com alguns percalços -- de manhã cedo e só tiro quando vou dormir. Nunca durmo com elas, é que nem dormir de sapato.
Montagem das "Poderosas da Revolução" Coloca Jornalista na Prisão - Onde? Ora, Na Venezuela
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| Por conta desse cartaz, dessa montagem jornalistas foram presos na Venezuela. |
E depois dizem que na Venezuela existe liberdade de crítica e expressão.
E não é a primeira vez que isso acontece.
Foto de 'mulheres de Chávez' leva a prisão
Diretora de semanário venezuelano é detida após publicar montagem com autoridades como dançarinas de cabaré
Segundo advogado, Dinorá Girón é acusada de fazer 'instigação ao ódio'; Justiça proibiu a distribuição e a edição
FLÁVIA MARREIRO
DE CARACAS
Agentes do serviço de inteligência venezuelano mantêm detida desde anteontem a diretora do semanário "Sexto Poder", que em sua mais recente edição publicou montagem em que mulheres que ocupam altos cargos públicos aparecem como dançarinas de um cabaré chamado "revolução".
Segundo o advogado da publicação, Pedro Aranguren, a diretora, Dinorá Girón, e o editor-presidente, Leocenis García, foram acusados pelo Ministério Público de "instigação ao ódio".
Segundo o semanário, a Justiça proibiu, por medida cautelar, a edição e a distribuição de "Sexto Poder". O periódico opositor vende, segundo seus proprietários, 80 mil exemplares semanais.
'MÍSTER CHÁVEZ'
Na fotomontagem, os rostos da presidente do TSJ (Tribunal Supremo de Justiça), Luisa Estela Morales, da defensora do povo (ouvidora), Gabriela Ramírez, da procuradora-geral, Luísa Ortega Díaz, aparecem colados em corpos de dançarinas.
O título do texto é "As poderosas da revolução", e se menciona um cabaré comandado por "míster Chávez". Também fazem parte da sátira a controladora-geral, Adelina González, a presidente do CNE (Conselho Nacional Eleitoral), Tibisay Lucena, e a vice-presidente da Assembleia, Blanca Eekhout.
"Ao som da melodia de um piano, as seis mulheres divertem o público com esperados bailes de pernas ao ar, que vem e vão, e saias ondeantes que se movem ao ritmo das canções tocadas pela banda 'PSUV' [partido governista]", diz o texto. "Não vamos permitir que nós nem nossas famílias sejam vilipendiadas ou ofendidas de nenhuma maneira", disse Morales, do TSJ. As afetadas fizeram uma manifestação de repúdio contra a publicação.
Uma sessão da Assembleia Nacional da Venezuela discutia o tema ontem.
Sobre o Silêncio Hipócrita de Certa Esquerda a Respeito da Derrocada de Kadafi
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| Rebelde pixa muro com a caricatura de Kadafi Gadayem, oeste de Tripoli, em 21 de agosto de 2011. (Filippo Monteforte/AFP/Getty Images) # |
Certa esquerda, com memória absolutamente seletiva, adora torcer o nariz em relação a alguns fatos que pipocam por ai. Sim Kadafi já foi amigo do ocidente, das grandes potências, assim como o Taleban -- que defendia a retirada soviética do país na épocada guerra fria. As pessoas são movidas a interesses e por isso mudam de lado. Os países e seus regimes também mudam de lado. Tudo é mutável e dinâmico. Os interesses econômicos são os que efetivamente importam. E assim seguimos nossas vidas no rumo da sagrada hipocrisia. Assim como os donos do poder são hipócritas -- e necessitam da hipocrisia para continuar no poder -- certa esquerda também adora investir na hipocrisia, porque faz questão de defender todos os tiranos que erguem sua voz contra as potências imperiais (porque para eles essas nunca têm razão) e por isso os Blogs da nossa esquerda ficam em completo silêncio quando ditaduras e regimes autoritários caem porque o povo unido que jamais será vencido assim quer. Assim aconteceu no Afeganistão quando as forças americanas libertaram o povo afegão das garras do Taleban e assim está acontecendo agora com a possível derrocada de Kadafi.
A propósito, Kadafi já chegou a Caracas?
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
É Bom Esse Western Spaghetti
O Bonzinho, o Malvado e o Feio
É um western, produção italiana e filmado na Espanha em 1966. A direção é do grande, do magnífico, do sensacional Sérgio Leone. E a trilha sonora, ah, a trilha sonora é do estupendo Enio Morricone. O título italiano é Il buono, il brutto, il cattivo que, na tradução do português de Portugal é O bom, o mal e o vilão. Os ingleses preferiram traduzir para the god, the bad and the ugly. E no Brasil, como não poderia deixar de ser, o título é completamente insosso: três homens em conflito. O filme faz parte de uma trilogia -- apelidada de western spaghetti -- em 1964 foi produzido Per un pugno di dollari (Por Um Punhado de dólares) (A Fistful of Dollars) e em 1965 – Per qualche dollaro in più (Por Uns Dólares a Mais) (For a Few Dollars More). Foi Sérgio Leone convidou o novato ator Clint Eastwood que faz o papel de Blondie, o bonzinho, mas quem rouba o filme é Eli Wallach que faz o papel de Tuco, the Ugly.
Recomendo com estrelinhas.
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filme filmes
sábado, 20 de agosto de 2011
Cinco Receitas Para Se Transformar num Autêntico Latino Americano
Já tinha lido o guia politicamente incorreto da história do Brasil do Leandro Narloch. Dessa vez eles e Duda Teixeira estão lançando o guia politicamente incorreto da América Latina. Passei no shopping e peguei.
A introdução é bem legal: a receita para se preparar um bom latino americano só pode ser a seguinte: (fiz uma adaptação do que está escrito no livro)
a) Lamentar - nós, latinos americanos gostamos de lembrar episódios tristes da nossa história: massacre dos índios, escravidão, ditaduras violentas.
b) Encarar a cultura local como forma de resistência -- O bom mesmo é usar ponchos, saias coloridas, bombachas, lenços vermelhos, camisetas da grife Che.
c) Condenar o capitalismo - Cara, isso é essencial. O legítimo latino americano tem que acreditar que o comunismo foi uma boa idéia, mas mal implantada, mas já que ele está tão distante, na direção da utopia, temos que defender sistemas sociais, solidários, justos e comunitários.
d) Denunciar a dominação externa -- Isso é uma barbaridade, os gringos nos exploram. Primeiro foram Portugal, Espanha, França e depois os ingleses e, of course, os americanos. Como disse o nosso guru, Eduardo Galeano, no hit simplista Veias Abertas da América Latina: "a cada país dá-se uma função, sempre em benefício do desenvolvimento da metrópole estrangeira do momento."
e) Cultuar Heróis Perversos - Quanto mais bobagens eles falarem e quanto mais eles sabotarem seu próprio pais mais estátuas, mais camisetas, mais cultuados eles serão.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Porque Microsoft e Apple Oferecem os Melhores Produtos, Estúpido!!!!
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| Duas grandes cabeças dos nossos tempos: Steve Jobs da Apple e Bill Gates da Microsoft. Eles são ricos, famosos, porque os produtos que eles vendem são muito bons. |
Meu filho tem 11 anos e utiliza em casa o sistema Microsoft ou Apple. Na escola eles usam Linux. Outro dia ele me disse, pai os computadores da escola são muito ruins, são lentos e burros.
Leio nos Blogs Alfabetizados Políticos e Trezentos uma denúncia de que o Ministério do Planejamento do governo petista de Dilma estaria beneficiando, em concorrência pública, a Microsoft. O fato estaria desagradando o pessoal do software livre.
E o governo -- que tem de ter um serviço público competente, sobretudo para melhorar as condições de vida das pessoas mais carentes -- tem que utilizar o que existe de melhor no mercado. Sempre defendi as contratações da Microsoft nos governos FHC e Dilma (que faz um bom governo ) faz muito bem em contratar o que há de melhor.
Porque Este Blog Sempre Esteve Aberto aos "Gauches"
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| Manifestante atira pedra e fogo numa van em Tottenham |
Considero as revoltas inglesas (como pode acontecer esse tipo de manifestação, digna de terceiro mundo, em um país socialmente desenvolvido????) o grande assunto dos tempos recentes. Este Blog acompanha de perto este fato, porque o tema é fascinante. Desta vez publicamos artigo do professor português Boaventura de Souza Santos, publicado hoje na Folha. Mais um que descasca a "sociedade neoliberal", David Cameron e o consumismo (que gera emprego, renda e impostos).
O caos da ordem
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Em Londres, estamos perante a denúncia violenta de modelo que tem recursos para resgatar bancos, mas não os tem para uma juventude sem esperança
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Os motins na Inglaterra são um perturbador sinal dos tempos. Está a ser gerado nas sociedades um combustível altamente inflamável que flui nos subterrâneos da vida coletiva sem que se dê conta.
Esse combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância, o sequestro da democracia por elites privilegiadas e a consequente transformação da política em administração do roubo "legal" dos cidadãos. Cada um dos componentes tem uma contradição interna.
Quando elas se sobrepõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão de proporções inimagináveis. Com o neoliberalismo, o aumento da desigualdade social deixou de ser um problema para passar a ser a solução.
A ostentação dos ricos transformou-se em prova do êxito de um modelo social que só deixa na miséria a maioria dos cidadãos porque estes supostamente não se esforçam o suficiente para terem êxito.
Isso só foi possível com a conversão do individualismo em valor absoluto, o qual, contraditoriamente, só pode ser vivido como utopia da igualdade, da possibilidade de todos dispensarem por igual a solidariedade social, quer como agentes dela, quer como seus beneficiários.
Para o indivíduo assim construído, a desigualdade só é um problema quando lhe é adversa; quando isso sucede, nunca é reconhecida como merecida. Por outro lado, na sociedade de consumo, os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para as criar incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se têm como quando não se têm.
Entre acreditar que o dinheiro medeia tudo e acreditar que tudo pode ser feito para obtê-lo vai um passo muito curto. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada lhes aconteça. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, acabam nas prisões.
Os distúrbios na Inglaterra começaram com uma dimensão racial. São afloramentos da sociabilidade colonial que continua a dominar as nossas sociedades, muito tempo depois de terminar o colonialismo político. Um jovem negro das nossas cidades vive cotidianamente uma suspeição social que existe independentemente do que ele ou ela seja ou faça.
Tal suspeição é tanto mais virulenta quando ocorre numa sociedade distraída pelas políticas oficiais da luta contra a discriminação e pela fachada do multiculturalismo.
O que há de comum entre os distúrbios da Inglaterra e a destruição do bem-estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade comandadas por mercados financeiros? São sinais dos limites extremos da ordem democrática.
Os jovens amotinados são criminosos, mas não estamos perante uma "criminalidade pura e simples", como afirmou o primeiro-ministro David Cameron.
Estamos perante uma denúncia política violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar bancos e não os tem para resgatar a juventude de uma vida sem esperança, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e mais irrelevante, dados o aumento do desemprego e o completo abandono em comunidades que as políticas públicas antissociais transformaram em campos de treino da raiva, da anomia e da revolta.
Entre o poder neoliberal instalado e os amotinados urbanos há uma simetria assustadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão a semear o caos, a violência e o medo, e os semeadores dirão amanhã, genuinamente ofendidos, que o que semearam nada tem a ver com o caos, a violência e o medo instalados nas ruas das nossas cidades.
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BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, sociólogo português, é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal). É autor, entre outros livros, de "Para uma Revolução Democrática da Justiça" (Cortez, 2007).
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